Quando clima e natureza pautam crescimento econômico

Foi-se a época em que clima e natureza eram temas que ficavam do lado de fora das salas de decisão, restritos ao time de sustentabilidade. 

No mundo pós-COP30, essas variáveis tornaram-se centrais para a estratégia de crescimento econômico, estabilidade financeira, política monetária e, sobretudo, para a redistribuição do poder em termos de geopolítica.

Esse cenário reflete uma redefinição estrutural de como Estados, mercados e sociedades percebem e, agora, passam a tangibilizar riscos e oportunidades de clima e natureza. Sua incorporação à governança macroeconômica aprimora e reordena decisões públicas e privadas, gerando valoração diferenciada.

Redefinição da governança econômica

Os primeiros passos desse movimento aconteceram durante a presidência brasileira do G20, com a criação da Força-Tarefa de Mobilização Global contra as Mudanças Climáticas (TF-CLIMA), a qual, pela primeira vez, reuniu ministros das Relações Exteriores, das Finanças, do Meio Ambiente e Clima, e presidentes de Bancos Centrais para tratar de clima como parte da agenda econômica global. 

A declaração ministerial na conclusão dessa força-tarefa reconheceu que os riscos climáticos e de natureza são sistêmicos, com efeitos macroeconômicos diretos, e reforçou a urgência de ampliar a cooperação internacional para mobilizar recursos públicos e privados em escala, promover inovação tecnológica e aprimorar instrumentos financeiros para a transição. 

O Brasil também levou essa articulação à presidência dos Brics liderando a adoção da Declaração-Marco dos Líderes do Brics sobre Finanças Climáticas. O documento reconhece que enfrentar as mudanças climáticas exige transformações estruturais nos sistemas financeiros globais e compromete o bloco a impulsionar um financiamento climático mais acessível, justo e eficaz, especialmente para países em desenvolvimento. 

Chegamos à COP30 com a publicação do tão aguardado Roadmap de Baku a Belém para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035. O documento consolida consensos técnicos amplamente conhecidos, expondo a lacuna persistente: construção de força política e institucional capaz de implementá-las com ambição e escala.

Deslocamento dos centros de poder 

Quando clima e natureza são incorporados ao núcleo econômico-financeiro, há um deslocamento inevitável de influência. 

Os centros de poder, embasados na economia tradicional fundada em energia de combustíveis fósseis que mantém foco apenas no curto prazo, tendem a ser deslocados para aqueles capazes de integrar negócios, finanças e política pública sob modelos resilientes e sustentáveis que visam a transição econômica para baixo carbono, bioeconomia e economia circular.

Esse movimento tem implicações profundas sobre como os processos decisórios são estruturados, seja no setor público ou privado. 

Soluções desenhadas, lições Aprendidas

Se queremos implementar soluções eficazes para essa transição, o caminho é construir sobre tudo que já foi avaliado, pesquisado, discutido e implementado pelos profissionais de clima e natureza, ampliando os lugares à mesa para somar economistas, estrategistas de negócios, reguladores, planejadores públicos etc.

Uma lição aprendida muito clara está nas conclusões sobre mercados de carbono no Roadmap de Baku a Belém: todas as propostas apresentadas são conhecidas e discutidas há anos pelos profissionais especialistas no tema. 

O desafio nunca esteve no conhecimento técnico, mas na vontade e capacidade política de implementar as soluções.

Inovar na transição significa também inovar nos centros de poder. Exige articulações mais amplas, que considerem curto, médio e longo prazo de forma simultânea, com instrumentos econômicos e financeiros que reflitam a complexidade dos riscos e das oportunidades do novo ciclo de desenvolvimento, necessariamente conjugando competências técnicas.

Nova geopolítica do clima

Retornemos à COP30. A lista de temas mandatados, que estavam na agenda de negociação oficial e tinham foco no jargão da COP – implementar, não abrir novos flancos de discussão – não contemplava medidas unilaterais de comércio, transição energética (para longe dos fósseis), deter e reverter o desmatamento, transparência (no ângulo de resposta aos relatórios das NDCs e bianuais de transparência), aumento de ambição nas NDCs acelerando a implementação do Acordo de Paris e retomada da operacionalização do tema de financiamento. 

Se alguns eram temas tradicionais da agenda, que não entrariam nesta COP30 por razões diversas (por exemplo: suposta conclusão da fase da negociação, como era o caso do financiamento), medidas unilaterais de comércio e desmatamento foram temas “fora da caixinha” para uma COP de clima. 

O ponto aqui é: quando é que se imaginou que uma conferência de países signatários de um tratado internacional de clima, reunindo diplomacias, governos, sociedade civil e terceiro setor por décadas e centrada em manter a discussão no nível técnico, diplomático e governamental iria, em 2025, trazer para a mesa de negociação um tema de comércio internacional? 

A agenda climática transbordou do multilateralismo técnico para a economia real.

É incontestável que vivemos novos tempos, com envolvimento maciço do setor privado e temas tradicionais das COPs de clima tangibilizados nas agendas de competitividade e cadeias de valor. 

Se uma COP de clima é o ambiente correto para essa discussão, é outra questão. Particularmente, eu traria para a conversa a OCDE (que alberga de forma estratégica temas de sustentabilidade há tempos) e a OMC (aqui precisaremos de um banho de loja, porque me parece que esta organização está estacionada décadas atrás e continua achando que sustentabilidade é “tema de quem abraça árvore”). Veremos como será a evolução.

Com relação ao desmatamento, temos um ângulo de análise também muito interessante. Clima deixou de ser oficialmente centrado nas questões relevantes para países desenvolvidos no Norte Global. Conseguimos ampliar o eixo e incluir, finalmente, questões relevantes do Sul Global na conversa.

Haja vista a sensibilidade e relevância, ambos os temas ficaram circunscritos à decisão política formalizada pela Presidência da COP30, com o compromisso de serem trabalhados durante os próximos 11 meses. O primeiro passo foi dado com maestria, especialmente, com os adjetivos utilizados pela Presidência para trabalhar o afastamento dos combustíveis fósseis de forma “justa, ordenada e equitativa”.

Perspectiva brasileira

Se clima e natureza se tornaram variáveis centrais para desenvolvimento econômico, estabilidade macroeconômica, política monetária e competitividade industrial, impulsionando o redesenho das estruturas de poder econômico e político globais, o momento é particularmente decisivo e cheio de potencial para o Brasil.

Nosso capital natural, perfil de emissões e de matriz energética, política de Estado de crescimento verde com taxonomia e mercado de carbono, redesenhos de estruturas e incentivos de financiamentos nos colocam em posição privilegiada para ser protagonista na transição global para economia de baixo carbono, bioeconomia e economia circular.

A governança macroeconômica que incorpore clima e natureza via compras públicas, incentivos regulatórios e política industrial gerará e impulsionará novos mercados com preço-prêmio de carbono e valoração de capital natural; atrairá novos fluxos de financiamento sustentável e investimento; materializará parcerias público-privadas com foco em infraestrutura verde e serviços ambientais; requalificará nossa competitividade global com base em inovação, resiliência, valor agregado e governança integrada.

Cinco anos atrás, esse cenário seria inimaginável. Hoje, é real. Amanhã, definirá nossa competitividade. Precisamos agir.