
Luanda no terreiro é uma HQ delicada, forte e corajosa, tudo ao mesmo tempo. Assinado por Marcelo D’Salete, o livro de história em quadrinhos foi publicado este ano pela Companhia das Letras. Convida os leitores a conhecer o candomblé, religião afro-brasileira formada ao longo do século 19 pelas diversas crenças religiosas de escravizados trazidos ao Brasil.
Alvo de preconceito, violência e ataques até hoje, o candomblé adotou alguns nomes e práticas católicas, que se fundiram aos rituais originais como mecanismo de proteção e camuflagem.
A menina Luanda, protagonista da história, chega com a mãe ao terreiro (local sagrado onde acontecem as cerimônias e rituais das religiões de matriz africana) para participar do Xirê, festa que homenageia os Orixás, divindades africanas que representam forças da natureza.
Quando sai para comprar o que falta para a cerimônia, é seguida por um menino que a aborda com violência, manifestando sua raiva e desgosto por aquele espaço e pelo grupo que o frequenta, influenciado pelo olhar do adulto. Luanda abre o diálogo e faz o convite, como o livro, para que o garoto entre e conheça o que nunca viu, mas sobre o que já fala, com base em estereótipos e preconceito. O racismo religioso.
Os símbolos do candomblé e da cultura religiosa africana estão ilustrados em quase todas as páginas, de formas mais ou menos explícitas. Vale a brincadeira de procurar por eles e pesquisar juntos o que representam. Como se assemelham e como se diferenciam da religião que você pratica em casa e com a qual sua criança leitora tem contato?
Você já perguntou se ela tem vontade de saber mais ou de fazer uma visita?
Independentemente das religiões africanas, mas principalmente por elas, pela herança histórica e pelo sincretismo religioso que foi se formando no Brasil, é preciso abrir uma conversa – também com as crianças – sobre tolerância religiosa, além do racismo. O ataque às religiões africanas é mais uma faceta do racismo que também deve ser reparado.
Pode-se e deve-se dar alguns passos a mais. É preciso separar o país em que a fé foi politizada e ganhou as bancadas do Congresso daquele em que convivem povos originários, descendentes de escravizados, imigrantes das mais variadas origens e seus próprios descendentes e que, por fé, amor, filiação ou cultura adotaram religiões e cultos, influenciados pelo cristianismo em maior ou menor grau ou sem conexão nenhuma com ele.
A fé, entendida como crença absoluta em algo sem a necessidade de qualquer evidência que comprove a existência do seu objeto, é tão única quanto nossa identidade como indivíduos. Quando vivida coletivamente, ganha força, beleza, emoção, mas não pode deixar frestas para a perseguição, para a intolerância e muito menos para a violência. Seja nos terreiros, nas igrejas, nas sinagogas ou nas mesquitas. Nos templos ou nos oratórios domésticos.
É interessante pensar que um dos personagens desse livro é o próprio terreiro. Além de espaço de resistência, tem história, ancestralidade, laços, vida. A festa no terreiro tem música, oferendas, rituais para atrair energias positivas e afastar as negativas. Celebra o sagrado, a harmonia e a paz.
Como toda religião, arrisco. Um ponto de partida para um papo rico sobre onde e como se exerce a fé. Quais são as diferenças e as semelhanças, o que muda do lado de fora, o que muda do lado de dentro. Como entrar num lugar desconhecido? Com quem? Guiado por quem? As respostas a essas perguntas transformam o que será visto e sentido.
Nas últimas páginas, D’Salete incluiu um glossário esclarecedor para ajudar a se familiarizar com os termos, que serve como ponto de partida para pesquisas mais profundas.
Sobre o autor
Marcelo D’Salete é autor de histórias em quadrinhos, ilustrador e professor. Estudou design gráfico, é graduado e mestre em artes plásticas. Recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior, assim como expôs em território nacional e internacional. Suas obras foram editadas em diversos países da América Latina, Europa e nos EUA.
Conversa de adulto
A essa altura do campeonato, qualquer adulto, no mínimo, já ouviu falar de Um defeito de cor, livro épico, de quase mil páginas, que se tornou um clássico da literatura nacional contemporânea.
Escrita pela mineira Ana Maria Gonçalves, a obra premiada está na 46ª edição, vendeu mais de 180 mil cópias, foi tema do desfile da Portela, no carnaval do Rio de Janeiro em 2023, e de exposição de arte. A autora foi eleita neste ano a primeira mulher negra no quadro de imortais da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897.
A história do livro se passa durante quase todo o século 19 e acompanha a vida de Kehinde (pronuncia-se Quéindé), desde que sua família foi capturada na África e despachada de navio para o Brasil. Com uma riqueza impressionante de detalhes, quase como um diário, o livro leva o leitor a caminhar de braços dados com a personagem, escravizada na Bahia, na tentativa de fazê-lo imaginar o que significava viver numa sociedade escravagista.
Kehinde é retratada como uma mulher forte, inteligentíssima, com desejos e ambições mesmo na sua condição. A certa altura, ela se torna protagonista de um episódio histórico de destaque na obra e pouco divulgado nas aulas de história: a Revolta dos Malês. Ocorrida em 1835, o maior levante de escravizados do Brasil foi liderado por africanos muçulmanos, com a participação de escravizados de diversas origens religiosas.
A aproximação, a curiosidade, o interesse e a amizade com esse grupo estão ligados ao fato de que Kehinde nasceu no Daomé (atual Benin), região de cultura islâmica, com a qual conviveu durante a infância. Tem a ver também com sua personalidade gregária e de abertura ao novo.
Como todos os escravizados, ela foi rebatizada ao chegar no Brasil, mas resistiu à imposição da religião católica pelo colonizador. Isso não impediu que desenvolvesse amizade sincera e profunda com pessoas brancas católicas, mantendo o respeito pela diferença. Continuou praticando sua religião de origem, Iorubá, da qual se afastou, se reaproximou e na qual até mesmo se aprofundou ao longo de toda a sua trajetória.
Kehinde conquista pessoas, riqueza e poder. Perde muito também. Mas não perde a fé.
Compre de livrarias de rua
Um grupo de 37 livrarias de São Paulo criou o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo. Com tiragem de 40 mil exemplares, está sendo distribuído gratuitamente nas livrarias participantes, em eventos literários e espaços culturais da cidade.
O mapa traz endereços, informações e fachadas desenhadas das livrarias que participam da ação – haverá uma versão online em breve. Os desenhos são da ilustradora Isadora Ferraz, enquanto que o projeto gráfico é do artista visual MZK.
O Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo visa fortalecer e promover as livrarias de rua como espaços fundamentais para o debate cultural e a preservação da bibliodiversidade, incentivar o turismo literário e conectar leitores.