
As mudanças climáticas não são apenas uma ameaça ambiental, são também uma emergência em saúde pública. A elevação das temperaturas, a piora da qualidade do ar e a expansão de vetores infecciosos intensificam a incidência de enfermidades como dengue, malária e doença de Chagas.
Diante desse cenário, a COP30 definiu o Plano de Ação em Saúde de Belém, um marco histórico como primeiro plano do tipo dedicado exclusivamente à saúde. Nesse sentido, é imperativo que o setor assuma um papel ativo na resposta. Mais do que reduzir suas emissões, a saúde precisa contribuir para mitigar os efeitos da crise climática sobre as pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
Esse protagonismo se fortalece quando ciência, governo e iniciativa privada atuam de forma conjunta, com soluções que unem inovação, acesso e equidade.
O enfrentamento das mudanças climáticas na saúde exige uma abordagem que una sustentabilidade ambiental, equidade social e populações diversas. ESG deve deixar de ser um conjunto de iniciativas paralelas e se tornar parte central da estratégia do setor, orientando decisões com foco em resiliência e equidade social.
Sem essa integração, os avanços tendem a ser pontuais e pouco transformadores. Para gerar impacto real, as lideranças empresariais da saúde devem incorporar critérios ambientais e sociais a todos os processos, da cadeia produtiva à inovação em acesso, com metas claras, governança robusta e medição contínua de resultados, sempre com o objetivo de melhorar a saúde da população.
Reduzir emissões é necessário, mas insuficiente. Como a crise climática aprofunda desigualdades, o compromisso social torna-se essencial. Isso requer reconhecer que cada grupo e território vive realidades diferentes, valorizando saberes locais e adaptando soluções às especificidades de cada contexto cultural, econômico e epidemiológico, em vez de aplicar modelos únicos a problemas diversos. Esse olhar contextualizado também deve orientar as ações em saúde, traduzindo-se em soluções concretas que considerem as necessidades de cada população.
Por exemplo, sabemos que cada paciente possui sua própria jornada, por isso a ampliação do acesso precisa atuar sobre as desigualdades. Podemos investir em atendimento descentralizado para doenças negligenciadas, como a doença de Chagas, que afeta populações distantes e em regiões de difícil acesso.
Parcerias multissetoriais locais como o projeto Quem Tem Chagas Tem Pressa, no sertão do Pajeú, em Pernambuco, voltadas ao diagnóstico e ao tratamento dessas doenças, mostram como o engajamento comunitário pode transformar resultados de saúde.
Dessa forma, é possível reduzir o deslocamento de longas distâncias até as capitais e garantir diagnóstico e tratamento adequados. Modelos de atenção integral são opções relevantes, pois permitem atendimento completo em poucas visitas à unidade, com menor custo e fácil replicação a partir do treinamento de profissionais multidisciplinares da atenção básica.
Da mesma forma que os impactos climáticos não afetam todas as regiões de forma igual, eles também não afetam todas as pessoas da mesma maneira. Questões de gênero, renda e acesso determinam quem sofre mais intensamente os impactos na saúde.
As alterações provocadas pelas mudanças no clima impactam diretamente populações vulneráveis e intensificam desigualdades já existentes, entre elas, as que atingem pessoas com doenças cardiológicas, comunidades de baixa renda, moradores de áreas remotas e mulheres, que enfrentam barreiras específicas de acesso a diagnóstico e tratamento.
Assim como a equidade precisa estar no centro das políticas de acesso e cuidado, a sustentabilidade ambiental deve ser parte indissociável da estratégia de saúde. Ambas caminham juntas, pois não há saúde equitativa em um planeta doente.
Precisamos continuar o monitoramento e a redução de emissões como parte dos negócios. Porém, a mitigação dos impactos climáticos também exige ações inovadoras que promovam educação e responsabilidade no uso e descarte de recursos.
Por isso, educar as comunidades sobre os riscos do descarte inadequado de resíduos representa uma importante estratégia de diminuição de impacto ambiental que complementa a disponibilidade de coletores estrategicamente distribuídos pelo país.
Cada ação sustentável adotada pela indústria representa um avanço rumo a um futuro mais saudável e equitativo. Acredito que uma estratégia de negócios alinhada ao ESG é capaz de atuar de forma concreta nas desigualdades em saúde. Com esses valores e trabalhando em parceria com a sociedade, seguimos comprometidos em reimaginar a medicina para melhorar e prolongar a vida das pessoas.
* Michelle Ehlke é diretora associada de global health & responsabilidade corporativa da Novartis Brasil