Guns, growth and greenery: o novo mundo das finanças sustentáveis em 2026

As perspectivas para as finanças sustentáveis em 2026 são moldadas por dois vetores simultâneos. De um lado, uma maior maturidade regulatória, com esforços claros de padronização e simplificação dos mecanismos de dívida e de investimentos sustentáveis. De outro, um ambiente macroeconômico mais tenso, que a The Economist recentemente sintetizou como o desafio de navegar um mundo de Guns, Growth and Greenery

A expressão foi cunhada para a Europa, mas descreve com precisão o contexto global.

2026 inaugura um mundo novo. 2025 encerrou uma ordem antiga. Um mundo mais perigoso e multipolar exige investimentos em defesa

Mais fragmentado, marcado por guerras tarifárias, choques energéticos e relocalização de cadeias produtivas, ele exige estratégias de crescimento resilientes, ancoradas em parceiros confiáveis e tecnologias duráveis. 

E um mundo mais quente, sujeito a eventos climáticos extremos, exige investimento acelerado em adaptação, eficiência energética e soluções baseadas na natureza.

É nesse contexto que entram as finanças sustentáveis. Com prêmios de risco mais elevados, elas deixam de ser acessórias e passam a ser desafiadas a responder a todos esses vetores ao mesmo tempo, entregando, mais do que em qualquer outro ano da última década, qualidade, robustez e pragmatismo.

As principais tendências para 2026 podem ser resumidas em alguns movimentos claros.

  • Primeiro, volume estabilizado. O mercado global de dívida sustentável alcança um patamar próximo a US$ 6 trilhões, formando um conjunto relevante de recursos no qual empresas e países precisarão saber pescar. O foco deixa de ser expansão acelerada e passa a ser consolidação.
  • Segundo, crescimento baseado em qualidade. Em um ambiente de maior escrutínio, vencem os emissores que demonstram compromisso real com frameworks reconhecidos e avaliações independentes. O backlash recente funciona como um filtro saudável. Ficam aqueles que fazem direito. No Brasil, episódios pontuais não devem contaminar o mercado desde que haja governança sólida e assessoria adequada.
  • Terceiro, transition finance no centro da estratégia. Leia-se: todos os setores agora podem e devem participar da transição. Os transition bonds ampliam o escopo da dívida sustentável, democratizando o acesso setorial. O foco se desloca do verde puro para a viabilização de estratégias críveis de transição. Setores antes vistos com desconfiança passam a ser parte da solução. A revisão da SFDR (Sustainable Finance Disclosure Regulation, da legislação da União Europeia), ao criar uma categoria explícita de transição, consolida esse conceito como instrumento central para setores intensivos em carbono em rota de descarbonização. Também oferece uma alternativa relevante para gestores de portfólio, que deixam de precisar excluir setores inteiros, desde que selecionem empresas genuinamente comprometidas com metas climáticas.
  • Quarto, instrumentos sustainability linked ganham tração. Novos frameworks restauram a credibilidade dos Sustainability Linked Bonds e abrem espaço definitivo para os Sustainability Linked Loans. Esses instrumentos ampliam o acesso para empresas de todos os tamanhos e setores, reforçando o ponto anterior, e tornam a transição mais democrática. Para instituições financeiras comprometidas com a agenda, atrelar metas de sustentabilidade aos empréstimos, seguindo frameworks consolidados, deveria ser regra, não exceção. Trata-se de uma oportunidade ainda pouco explorada no Brasil e, certamente, uma das maiores.
  • Quinto, biodiversidade é (quase) o novo carbono. Recentemente, o México lançou o primeiro empréstimo lastreado em créditos de biodiversidade. Segundo a Morningstar, biodiversity linked bonds representavam 5% das emissões verdes em 2020 e já alcançaram 16% em 2023. Trata-se de um mercado típico de fronteira, comparável ao mercado de carbono de cinco anos atrás. Um campo para desbravadores, com riscos, mas também com enormes oportunidades de inovação.
  • Sexto, adaptação e riscos físicos ganham protagonismo. A transição continua central, mas o ritmo insuficiente da mitigação traz a adaptação para o primeiro plano.  Prova-se pelo recorde atingido dos catastrophe bonds em 2025. E até pela participação em peso do setor na COP, na chamada Casa dos Seguros. Aqui, o assunto é risco mesmo. Globalmente, cidades e Estados têm liderado esse financiamento. No Brasil, restrições fiscais limitam o setor público, abrindo espaço para o setor privado, com apoio relevante de instituições como o BNDES.

Do ponto de vista geográfico, o mapa do capital exige leitura estratégica e com foco para quem quer captar. Enquanto o debate nos Estados Unidos permanece politicamente desgastado, Europa e Ásia seguem firmes, impulsionadas por regulação, segurança energética e compromissos de longo prazo de investidores e governos. 

A pressão fiduciária e de stewardship se intensifica. Investidores punem desalinhamentos climáticos e reforçam exigências de coerência. No Reino Unido e na Europa, pesquisas recentes indicam intenção majoritária de aumento de alocação em ativos sustentáveis. A simplificação regulatória europeia e a maior maturidade da SFDR tendem a gerar mais adesão, não menos. Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD),  o mecanismo de ajuste de fronteira para o carbono (CBAM) e a lei antidesmatamento (EUDR) colocam sustentabilidade no centro da equação econômica.

Já os países emergentes seguem na periferia do capital. A London School of Economics estima que serão necessários entre US$ 2 trilhões e US$ 3 trilhões por ano para financiar uma transição efetiva. Estamos muito longe disso. O Brasil responde por apenas US$ 60 bilhões, cerca de 1% do estoque global de dívida sustentável, proporção quase inexplicável diante de sua relevância climática, energética e alimentar. Nesta coluna detalho a representatividade, ou a falta dela, do Brasil nesse mercado.

Ainda assim, 2026 encontra um Brasil mais conhecido e mais preparado. O país avançou em seu arcabouço regulatório, publicou sua taxonomia, adotou de forma pioneira os padrões ISSB, estruturou instrumentos relevantes – como o fundo de florestas tropicais (TFFF), a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) e o Eco Invest –, reafirmou compromissos com NDCs e metas setoriais e exerceu protagonismo internacional em um dos contextos geopolíticos mais difíceis da última década. 

Isso importa e terá impacto sobre a capacidade de atrair capital.

A implicação prática é clara. Mais capital pode vir em 2026. A própria irrelevância atual do Brasil nesse mercado – 1% de um universo de US$ 6 trilhões – é uma oportunidade. Mas ela só será aproveitada se houver governança, transparência financeira, estruturas robustas de uso de recursos e evidência verificável de impacto. CBAM e Mercosul trarão desafios e oportunidades. Para empresas expostas aos riscos e às oportunidades da sustentabilidade, a dívida sustentável é a chance de transformar limão em limonada.

Sejamos diretos. Uma empresa que já produz relatórios de sustentabilidade, tem compromissos públicos e carrega dívida não tem razão econômica para continuar emitindo dívida convencional. Não há explicação para não integrar sustentabilidade onde ela realmente importa, nos números financeiros. A estratégia da Natura de não mais emitir dívida sem atrelamento a metas socioambientais deveria ser regra, não exceção

Enquanto isso não ocorre, essa escolha permanece como vantagem competitiva para quem se move primeiro. O setor de cosméticos já fez esse caminho. O próximo pode ser o seu.