
Se 2024 e 2025 foram anos de construção de instrumentos inovadores, estruturação de regulamentações e lançamentos de projetos, 2026 será o “teste de fogo” da agenda de sustentabilidade, segundo especialistas consultados pelo Reset.
As empresas terão que provar resultados concretos quando se nota uma redução de apetite de risco, em um ano que começa com uma nova crise geopolítica global e vai ser marcado, no Brasil, por eleições presidenciais.
A atenção pode não estar voltada à agenda climática, mas os eventos extremos e a necessidade de acelerar a transição e investir em resiliência é cada vez mais urgente para salvar vidas, buscar novas formas de desenvolvimento e navegar um novo cenário de negócios, com seus riscos e oportunidades.
A reportagem perguntou quais são as tendências e os desafios que devem se destacar neste novo ano.
Veja abaixo o que disseram Anna de Souza Aranha, sócia e co-CEO da Quintessa, aceleradora de startups de impacto; Maria Eugênia Buosi, diretora do Nature Investment Lab, que atua no financiamento e dimensionamento de soluções baseadas na natureza (SbN); Viviane Romeiro, diretora de clima, energia e finanças sustentáveis do Centro Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável (Cebds) e João Leal, especialista de política climática, também do Cebds.
O ano da implementação?
Dentro e fora das salas de negociações da COP30, implementação foi a palavra de ordem em 2025. O consenso é que o mundo já ultrapassou a etapa de discutir “o que fazer” e deve avançar para um desafio mais complexo: o de como fazer e dar escala às soluções para a transição climática.
O Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), a taxonomia sustentável brasileira e a iniciativa do Brasil em desenhar mapas do caminho para o mundo se afastar dos combustíveis fósseis e combater o desmatamento são alguns mecanismos que ganharam destaque no último ano para tentar transformar compromissos em ações concretas.
“Esses instrumentos trazem uma visão de futuro para a agenda climática, com impactos que vão muito além do debate ambiental e chegam diretamente ao comércio e aos investimentos”, diz Romeiro.
As soluções vêm avançando de forma consistente, mas ainda esbarram em desafios regulatórios e de financiamento. “Elas já existem e muitas passaram por uma curva de aprendizado e por um processo de amadurecimento nos últimos anos, agora o desafio é criar condições regulatórias e de financiamento para que elas possam escalar”, diz.
Um exemplo é o decreto assinado em dezembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que encarregou quatro ministérios de elaborar até fevereiro uma proposta de resolução ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) com as bases de um roteiro para a redução gradual da dependência brasileira de combustíveis fósseis.
“[O decreto] é ousado e desafiador, mas é uma criação política muito importante e que vai ter um desdobramento estratégico inequívoco em 2026 no governo, mas também na movimentação das empresas em relação à transição energética”, afirma Romeiro.
Por outro lado, os negócios sustentáveis ainda precisam avançar na comprovação de sua competitividade, avalia Buosi. Segundo ela, as modelagens financeiras ainda não são capazes de evidenciar para os investidores de forma clara os riscos e oportunidades associados ao tema sustentabilidade.
“Os projetos de sustentabilidade trazem com clareza os benefícios socioambientais, mas ainda precisam demonstrar ganhos de produtividade, redução de riscos e escalabilidade”, afirma.
O padrão de reporte ESG conhecido como IFRS S1 e S2 é uma peça essencial para reduzir essa assimetria, segundo Buosi. As empresas de capital aberto terão de divulgar os relatórios a partir do ano que vem, com dados referentes a este ano. Ou seja: a contabilidade das empresas precisa compilar os dados desde já.
“Ao exigir que as empresas reportem sobre os riscos e impactos financeiros dessas questões, espera-se que o gap entre os mundos de negócios e sustentabilidade se reduza ainda mais”, diz Buosi.
Aranha, da Quintessa, também afirma que as iniciativas de sustentabilidade precisam estar alinhadas – com clareza – à estratégia e às atividades da empresa. “O momento do mercado pede clareza sobre por que investir, seja pela relação direta com produtos e serviços, com clientes e partes interessadas, ou pela atuação ao longo da cadeia de valor”, diz.
“A agenda de sustentabilidade segue a tendência macro de vinculação direta do preço das ações com os resultados da empresa, principalmente os financeiros”, afirma Aranha.
O desafio do capital
O acesso ao dinheiro continua sendo um dos principais gargalos da agenda climática. “Muitos falam que o capital existe, mas que não há projetos bem estruturados; outros dizem que têm projetos, mas que o capital disponível está em volumes que só atendem grandes empresas”, diz Buosi.
Para ela, o entrave é outro: faltam mecanismos que reduzam riscos e viabilizem investimentos em estágios iniciais.
No Nature Investment Lab, por exemplo, está sendo desenvolvido um mecanismo de garantias para que projetos menores possam acessar recursos de fundos específicos para a agenda climática, como o Fundo Clima, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Romeiro destaca que a insegurança jurídica e o ambiente político podem reduzir o apetite dos investidores, especialmente em ano eleitoral. “Precisamos reforçar a segurança regulatória para ter segurança nos investimentos”, afirma.
Ambas concordam que para destravar investimentos é necessário rigor técnico e clareza de resultados que apontem produtividade e lucro real.
“Dentro do desafio de acelerar a implementação, esse matchmaking financeiro precisa ser mais lapidado para impulsionar a escala. Os meios regulatórios, em que o Brasil está avançando, trazem mais condições para as empresas”, diz Romeiro.
Outro desafio é a capacitação dos atores que intermediam, alocam ou decidem sobre a destinação de recursos, para que compreendam melhor os riscos e possíveis ganhos das iniciativas climáticas.
“É preciso desenvolver também os agentes financeiros para que todos possam compreender melhor os riscos e ganhos potenciais de projetos climáticos e de soluções baseadas na natureza”, diz Buosi
Eleições à vista
O calendário eleitoral tende a deslocar o foco da agenda climática e ampliar riscos de descontinuidade, especialmente em políticas que ainda dependem de regulamentação legislativa ou de consolidação institucional, avaliam os especialistas da Cebds.
“Com a possibilidade de mudança na administração federal, existe um risco em termos de segurança jurídica para instrumentos criados via decreto”, diz Romeiro. “Por isso, o caminho mais seguro é transformar essas agendas em políticas de Estado, e não apenas de governo.”
Um exemplo é o órgão regulador provisório do mercado regulado de carbono, criado por decreto pelo Ministério da Fazenda no ano passado. “Essa foi uma estratégia acertada para que o país não ficasse parado. O caminho mais seguro é criar a agência reguladora estabelecida por lei, mas isso pode levar meses”.
Entre as pautas que podem enfrentar entraves estão a lei de minerais estratégicos e a regulação de captura e armazenamento de carbono.
“São temas centrais para o desenvolvimento sustentável do país, mas que tramitam no Congresso”, afirma Leal. “Sabemos que o Executivo seguirá operante, mas o Legislativo tende a ter mais dificuldades, com a atuação voltada a agendas eleitorais. Sustentabilidade não é uma coisa que puxa tantos votos, infelizmente.”
A polarização política é outro ponto de preocupação, segundo Aranha, da Quintessa. “O momento exige atenção para que disputas ideológicas não comprometam pautas que conectam clima e desenvolvimento econômico. É essencial tratar a agenda de sustentabilidade com seriedade, baseada em evidências científicas e no interesse comum, acima de vieses políticos.”
Geopolítica como ambiente de risco
A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e a intenção de Donald Trump de aumentar a produção de petróleo do país podem ter desdobramentos ainda difíceis de mensurar.
Antes de qualquer ação militar, o retorno de Trump à Casa Branca criou obstáculos para a agenda ambiental, como cortes em políticas e pressão sobre empresas e coalizões, algumas das quais recuaram ou se desfizeram em 2025.
Esse “efeito Trump”, porém, tende a perder força, avalia Romeiro, à medida que a liderança climática global se redistribui, em especial com a China avançando em tecnologias de baixo carbono.
“A China tem exercido uma liderança muito substancial em tecnologias de baixo carbono, o que movimenta o setor e a agenda de sustentabilidade, com muito investimento em ciência e tecnologia voltado à descarbonização”, diz Romeiro.
Para Buosi, esse é um movimento pendular e pode trazer amadurecimento “técnico e uma revisão de como apresentar o tema. Precisamos traduzir sempre as questões de sustentabilidade para a operação, a gestão de risco e a alocação de capital.”
Adaptação ganha destaque
Historicamente, a adaptação sempre recebeu menos atenção que a redução de gases de efeito estufa. Agora, com eventos climáticos cada vez mais frequentes, o jogo mudou: resiliência climática virou sinônimo de viabilidade operacional e econômica para empresas.
Segundo Aranha, investir em adaptação passou a ser um fator determinante para a sobrevivência dos negócios no médio prazo, principalmente em setores altamente expostos aos riscos climáticos, como o agronegócio.
Na prática, gestão de riscos e resposta aos eventos climáticos envolvem ações complexas e de difícil implementação de forma isolada pelas empresas. Aqui, uma das principais oportunidades está na formação de coalizões, afirma Aranha.
“Essas iniciativas precisam integrar empresas a atores de outros setores, como bancos de desenvolvimento, governo, organizações da sociedade civil e empreendedores. Isso permite uma abordagem sistêmica e a combinação de diferentes tipos de capital para alcançar o volume de recursos necessário”, diz.