Tanques de petróleo da estatal venezuelana PDVSA

“Mapa” e “caminho” foram as palavras de 2025 no mundo da política climática, e elas entraram no páreo quando o ano estava para terminar: foi durante a COP30, em novembro.

O movimento que se formou durante a conferência para colocar um roadmap do fim dos combustíveis na pauta oficial das COPs acabou fracassando em Belém, mas ele vai continuar de forma paralela. 2026 começou com a promessa de ser o ano da cartografia.

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, assumiu o compromisso de entregar dois mapas do caminho à Conferência do Clima que acontece este ano em Antalya, na Turquia. Um deles vai propor ideias para acabar com o desmatamento, e o outro, com as fontes de energia suja, as grandes responsáveis pelo aquecimento global.

Os dois documentos são apenas contribuições voluntárias do Brasil. Eles não foram nem sequer encomendados pelos quase 200 países que compõem a Convenção do Clima.

Ainda não se sabe qual será a resolução desses mapas, mas é provável que eles sigam a fórmula de outro que Corrêa do Lago preparou junto com a presidência azerbaijana da COP29.

O chamado Roadmap Baku-Belém elenca uma série de ideias de ministros de Finanças, economistas e representantes da sociedade civil para aumentar o fluxo de recursos para financiar a transição climática dos países em desenvolvimento.

Mas o mapa dos fósseis terá de levar em conta um dado novo: a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e a intenção de Donald Trump de aumentar a produção de petróleo do país.

A Venezuela tem um quinto das reservas globais, mas extrai hoje muito menos do que poderia, depois de décadas de investimentos insuficientes e uma infraestrutura que precisa ser atualizada.

Mais petróleo

Antes da ação militar do fim de semana, o presidente americano havia dito que os venezuelanos teriam de devolver todo o “petróleo, terras e outros ativos roubados de nós”, em referência à campanha de nacionalização imposta pelo então presidente Hugo Chávez.

Ainda não se sabe qual é o plano de Trump para fazer isso nem como ele pretende colocá-lo em prática. Mas os obstáculos no caminho não serão poucos.

A consultoria especializada Rystad Energy afirma que seriam necessários US$ 11 bilhões em investimentos para que a produção dos campos venezuelanos volte aos níveis de 15 anos atrás. Esse valor é o dobro do total do que foi investido em capex pelas grandes petroleiras americanas em 2024, segundo a revista The Economist.

A PDVSA, estatal de petróleo da Venezuela, hoje é essencialmente controlada por militares e requer a volta – ou a substituição – dos especialistas que deixaram o país desde a instituição da ditadura chavista.

Mas o principal desafio será um mercado saturado, pelo menos no curto prazo. A Agência Internacional de Energia espera que a produção de óleo supere a demanda pelo menos até o fim desta década.

Em dezembro, a Trafigura, uma das maiores tradings de commodities do mundo, alertou para a ameaça de uma derrubada dos preços já em 2026, por causa do aumento da produção, da fragilidade da economia global e da crescente frota de veículos elétricos na China.

Neste cenário, levar a Venezuela da atual 18ª posição do ranking dos produtores para o top 10 exigirá apetite por risco dos investidores em um momento em que o setor indica cautela.

Apontando caminhos

A situação na Venezuela é um novo elemento nos mapas que serão desenhados para tentar mostrar um caminho para o mundo deixar os combustíveis fósseis no passado.

Além do roadmap prometido pela presidência brasileira da COP, Colômbia e Países Baixos vão realizar a reunião inaugural de uma conferência que vai se dedicar a discutir o assunto entre governos que apoiam a ideia.

A iniciativa acontece em paralelo à Convenção do Clima, já que os temas negociados no âmbito da ONU precisam ser aprovados com unanimidade.

A conferência acontece em abril, na cidade colombiana de Santa Marta. Espera-se a participação de pelo menos 20 países que apoiaram formalmente uma declaração apresentada pela Colômbia durante a COP30.

O grupo de países que apoiou a inclusão do mapa do caminho dos fósseis em Belém foi maior – embora não haja uma contabilidade oficial, estima-se que tenham sido cerca de 80.

O resultado prático desses esforços, pelo menos em relação às COPs, é incerto. Na conferência de Belém, o movimento ganhou força ao longo de duas semanas, mas foi derrotado pela oposição de países produtores de fósseis, como Arábia Saudita e Rússia, e grandes consumidores que dependem dessa energia para crescer, como a Índia.

A necessidade do consenso significa que o processo caminha necessariamente de forma lenta. Mesmo que as COPs venham a discutir possíveis caminhos para abandonar carvão, petróleo e gás natural, isso deve acontecer ao longo de anos, e um eventual mapa resultante de negociações seria algo apenas indicativo, sem a imposição de obrigações.

Mas o gênio não volta mais para a lâmpada. A formação de alianças voluntárias de países – em linha com o Acordo de Paris, mas à margem do processo formal das COPs – está se desenhando como a alternativa possível para perseguir os objetivos de limitar o aumento da temperatura do planeta.

O TFFF, fundo que vai remunerar os detentores de florestas tropicais, é um exemplo. A coalizão lançada em Belém para harmonizar a precificação do carbono, é outro.

Os reflexos da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos serão apenas a primeira notícia envolvendo o petróleo em 2026 – os combustíveis fósseis, e os mapas que afastem o mundo deles, serão um dos grandes assuntos do ano.