
A Meteoric, mineradora listada na bolsa australiana, inaugura hoje sua planta-piloto de terras raras em Poços de Caldas (MG). Com um investimento de cerca de R$ 5,4 milhões, o laboratório é um passo importante rumo à futura produção e exportação dos minerais.
Lá, vão ser testados todos os passos para extrair os minerais de um material conhecido como argila iônica. O processo envolve retirar essa argila de cavas e submetê-la a um processo de “lavagem” com cloreto de sódio (sal de cozinha).
Esse método é considerado mais sustentável que a mineração tradicional, por dispensar barragem de rejeitos e reaproveitar a água.
A planta-piloto tem capacidade para processar 25 kg de argila por hora e, segundo a empresa, recicla toda a água utilizada na lavagem. A companhia não divulga gastos de energia.
Batizado de Projeto Caldeira, seu custo todo está estimado em US$ 440 milhões. “Um projeto de rocha dura [mineração tradicional] custaria cinco vezes mais, cerca de US$ 2,5 bilhões”, disse Marcelo De Carvalho, diretor executivo da Meteoric, ao Reset, em setembro.
O financiamento é um dos principais entraves para projetos de terras raras no Brasil, e empresas como a Meteoric dependem de capital estrangeiro. A planta-piloto pode ajudar a companhia a acessar recursos, ao gerar dados para o Estudo de Viabilidade Definitiva – documento que detalha investimentos, custos, tecnologias e retorno esperado, permitindo a avaliação do risco por investidores e órgãos reguladores.
“Estamos entrando em uma nova fase do Projeto Caldeira, agora com dados concretos que irão embasar o estudo de viabilidade e abrir portas para futuros parceiros comerciais”, disse Stuart Gale, CEO da Meteoric, em nota.
O que são terras raras?
Terras raras são elementos químicos da tabela periódica que constituem insumos essenciais para a vida moderna. Eles estão presentes em smartphones, computadores, turbinas eólicas, painéis solares, veículos elétricos e até no tratamento de câncer.
Praticamente todas as grandes inovações tecnológicas das últimas décadas precisam desses componentes.
A transição energética, a defesa de países e a corrida pela supremacia na inteligência artificial dependem desses minerais críticos – e a segunda maior reserva deles está no Brasil.
A China domina a produção, define preços e transforma esses metais em força geopolítica. O país tem as maiores reservas do mundo e é responsável por 90% do processamento do material vendido para a indústria.
É por isso que Estados Unidos, União Europeia e Japão correm para diversificar suas fontes de suprimento e fortalecer suas próprias produções.
A corrida no Brasil e o $ dos EUA
O tema esquentou no início da guerra tarifária de Donald Trump contra a China, no começo deste ano. O Brasil entrou no radar dos EUA como parte da estratégia para diminuir a dependência aos minerais chineses.
Mas a largada por aqui começou bem antes de o assunto figurar nas manchetes. A mineradora brasileira Serra Verde, a única produtora de terras raras em escala comercial no Brasil, começou suas pesquisas há 17 anos.
A empresa é controlada pelo Serra Verde Group, com sede na Suíça, e tem entre seus investidores o fundo Vision Blue, fundado por Mick Davis, ex-CEO da Xstrata, mineradora adquirida pela Glencore, ambas de origem anglo-suíça.
Em agosto, a Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA (DFC, na sigla em inglês) aprovou um empréstimo de US$ 465 milhões para melhorias na mina em Goiás. A Serra Verde está aumentando sua produção e pretende produzir entre 4.800 e 6.500 toneladas de óxidos de terras raras por ano até o início de 2027.
“Dado que somos o único produtor a curto e médio prazo, vários governos estão em contato conosco”, disse o diretor executivo Thras Moraitis ao Financial Times. A DFC informou que a mina seria “a primeira produtora significativa de terras raras pesadas fora da China”.
Neste ano, os EUA também incluíram no pacote de financiamento em mineração US$ 5 milhões para a Aclara Resources, que planeja investir US$ 599 milhões para produzir terras raras em Goiás e busca contratos de longo prazo com montadoras como Ford, GM e Stellantis.