
De Belém e São Paulo – A Cúpula dos Líderes deu a largada para as atividades da COP30, nesta quinta-feira (6), em Belém. A ausência de Donald Trump não demorou para ser lembrada. O presidente colombiano, Gustavo Petro, aproveitou o palco para criticar o americano. No Rio de Janeiro, investimentos e compromissos de líderes regionais marcaram outro evento preparatório da semana. Confira os principais destaques sobre a conferência do clima.
O ano mais quente
O mundo ainda “não está no caminho certo” para cumprir as metas do Acordo de Paris, alerta um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), da ONU, apresentado no primeiro dia da Cúpula de Líderes. O documento aponta que 2025 deve ser o segundo ou terceiro ano mais quente já registrado, atrás apenas do ano passado. Segundo os dados, os últimos 10 anos estão entre os 11 mais quentes dos últimos 176.
O relatório da OMM também destaca perdas recordes de geleiras, redução do gelo marinho no Ártico e na Antártica e a intensificação de eventos extremos, como ondas de calor e secas prolongadas.
Mas há “boas notícias” em mitigação e adaptação. A ONU disse que a capacidade global de energia renovável aumentou em 15% em 2025 comparado ao ano anterior – maior avanço já registrado. Os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais também vêm ganhando espaço em sistemas de alerta para eventos e riscos climáticos. Na última década, o número de países que relatam possuir algum tipo de sistema de alerta mais que dobrou.
Inimigo da humanidade

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, dedicou parte de seu discurso na cúpula para atacar Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e principal ausência do evento. “Donald Trump é contra a humanidade”, disse Petro ao comentar que o americano não está contribuindo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e conter o avanço das temperaturas globais.
Também mencionou que o presidente americano o acusou falsamente de ser “líder do tráfico de drogas” na América Latina. O embate entre os dois líderes não é recente. Ele começou logo depois de Trump voltar à Casa Branca e a Colômbia recusar, em um primeiro momento, a receber os colombianos deportados dos EUA.
Petro também fez críticas aos países europeus: “Aqueles que estão investindo em mais armas na Europa estão cometendo um erro. Não é a Rússia o inimigo, é a crise climática”, afirmou.
Mon ami, le marteau

Laurent Fabius, ex-premiê francês e presidente da COP21, abriu seu discurso dizendo ter vindo a Belém acompanhado de um amigo. “E este amigo está no meu bolso”, disse Fabius. Na sequência, ele exibiu o martelo com que ele selou o Acordo de Paris, há dez anos. “Achei que vocês fossem ficar contentes ao revê-lo.”
Adeus, 1,5°C

António Guterres, secretário-geral da ONU, fez como de costume um discurso dramático no primeiro dia da Cúpula dos Líderes. “A dura verdade é que fracassamos em garantir que permaneceríamos abaixo de 1,5°C. Isso é uma falha moral — e negligência mortal.” O rompimento da meta de Paris é temporário, segundo Guterres. “Precisamos de uma mudança de paradigma para limitar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e rapidamente trazer [a temperatura] de volta para baixo.”
Preenchendo o vácuo

O vice-primeiro-ministro da China, Ding Xuexiang, afirmou que “a governança climática global está entrando em uma fase crítica”. E disse que a China “está pronta para trabalhar com todas as partes para promover o desenvolvimento verde e de baixo carbono”. Com o recuo dos Estados Unidos e uma posição dominante nas tecnologias de baixo carbono, os chineses ensaiam ocupar o vácuo deixado por Donald Trump.
A China é um dos maiores emissores de carbono do mundo. Em 2035, o país mira uma redução de 7% a 10% de suas emissões em comparação com o pico histórico, que ainda não foi atingido. O número conservador foi apresentado na cúpula climática realizada na ONU, realizada em setembro. Na época, Xi Jinping destacou algumas frentes em que o país pretende avançar, como multiplicar por seis a capacidade instalada de geração eólica e solar.
Em obras
As instalações da Zona Azul, onde é realizada a Cúpula dos Líderes e onde ocorrerão as negociações oficiais da COP30 a partir de segunda-feira (10), ainda não estão concluídas. O espaço da “feira”, onde países e organizações montam seus estandes, estava cercado por tapumes. A poeira e o barulho que vinham do outro lado deles sugeriam trabalho intenso.
A sinalização é quase não existente, tanto dentro da estrutura temporária montada para abrigar a Zona Azul quanto do lado de fora, indicando os pontos de ônibus. No centro de mídia, os banheiros ficaram sem água a partir do início da tarde. Muitos veteranos de COPs estavam surpresos com estado da estrutura a meros três dias do início da conferência. “As expectativas não eram das mais altas, mas estou preocupado”, afirmou um jornalista.
Preços ‘dolarizados’
Comer em aeroportos e em COPs são experiências muito parecidas: os preços são aviltantes, e a qualidade das opções dispensa comentários. Os mais experientes em conferências do clima já estavam preparados para pagar caro, mas ainda assim é inevitável o choque ao deparar com certos preços na moeda local. Exemplos dos quiosques no Centro de Mídia:
Pão de queijo – R$ 30
Café – R$ 20
Pedaço de bolo – R$ 40
Contra metano
A Bloomberg Philanthropies anunciou nesta quarta-feira (6) um investimento de US$ 100 milhões para aprimorar o monitoramento por satélite das emissões de metano, gás de efeito estufa com potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono no curto prazo.
O objetivo é eliminar, até 2028, mais de 22 milhões de toneladas de metano emitidas anualmente – valor equivalente às emissões de 490 usinas a carvão ou cerca de três vezes as emissões anuais da Alemanha.
“Como todos sabem, estamos ficando sem tempo. Combater o metano em todos os setores diferentes, tanto no petróleo e gás quanto na agricultura, é fundamental para o sucesso da COP30. Sentimos que precisamos avançar de maneira concreta”, comentou Ana Toni, durante apresentação da iniciativa à imprensa.
Dinheiro para ônibus elétricos

A Bloomberg Philanthropies, o governo federal e o BTG Pactual anunciaram a criação de um fundo de € 80 milhões (cerca de R$ 500 milhões) para estimular a eletrificação de frotas de ônibus urbanos no Brasil.
Rio, Salvador, Curitiba e Belo Horizonte estão entre as cidades para receber os recursos, em forma de empréstimo. O valor total pode financiar cerca de 1.700 ônibus elétricos – um aumento de 235% na frota elétrica atual –, além da infraestrutura de recarga.
O anúncio foi feito nesta quarta-feira (5), durante o Fórum de Líderes Locais da COP30, evento preparatório para a conferência do clima, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 3 e 5.
O encontro terminou com uma mensagem conjunta de 14 mil líderes locais aos governos nacionais e à ONU. O documento diz que, ao atuarem em conjunto com governos locais, os países poderiam reduzir em até 37% a diferença entre os compromissos atuais e o necessário para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, como prevê o Acordo de Paris.