‘Podemos ser realisticamente otimistas’ – o que nossos colunistas esperam para 2026

Depois da COP30 no Brasil, o que há de relevante por vir na agenda de sustentabilidade? Muita coisa, segundo os colunistas do Reset, que compartilharam as suas perspectivas para 2026 na luta contra as mudanças climáticas. 

“Depois de Belém, podemos ser realisticamente otimistas sobre a possibilidade de avanços na implementação do Acordo de Paris”, diz o colunista Winston Fritsch, economista que tem sido atuante na formulação da agenda de financiamento climático. 

Entramos em 2025, o ano em que os holofotes estavam voltados para a COP30, com dois grandes desafios: a crise na governança climática global e a volta à Casa Branca do negacionista do clima Donald Trump. 

Terminamos o ano com a COP30 entregando resultados (ainda que insuficientes) de um arranjo baseado no multilateralismo e avanços na implementação de ações importantes dentro e fora do regime de clima da ONU.  

“A premissa de que a transição é urgente e que os obstáculos não estão mais na tecnologia ou na arquitetura institucional multilateral, mas na vontade política das grandes coalizões da UNFCCC e nas dificuldades inerentes ao sistema de decisão por consenso da ONU, provou ser correta”, observa Fritsch.

Organizamos em cinco tópicos quais os temas que nossos colunistas estão de olho para 2026:  

1. Xadrez geopolítico 

O cenário geopolítico continua complexo e desafiando o financiamento climático. A revista The Economist definiu o ambiente macroeconômico mais tenso como um desafio de navegar um mundo de “guns, growth and greenery”. 

“A expressão foi cunhada para a Europa, mas descreve com precisão o contexto global”, diz a colunista Julieda Puig. Ela lembra que um mundo mais perigoso e multipolar exige investimentos em defesa. 

Mas começam a se dissipar as nuvens carregadas que existiam no limiar da nova e imprevisível administração americana de Trump, diz Fritsch. 

“Seu ímpeto inicial de demolição de certos pilares da ordem multilateral do pós-guerra parece haver arrefecido e, com sorte, a racionalidade pode voltar a imperar”, diz. 

Ele pondera que, embora pareça havermos ultrapassado o “peak Trump”, ainda estamos longe de termos aterrissado em algo estável. “A transição será longa”, afirma. 

Entre as  incertezas que ainda persistem, o economista destaca três: a sustentabilidade do crescimento americano, a possibilidade de ajustes na estrutura de gastos da China (o que mexe na configuração da demanda externa como motor do crescimento), e o futuro da Europa e do Oriente Médio em qualquer nova ordem econômica mundial. 

Tudo isso entra na conta da disponibilidade de dinheiro para mitigação e adaptação climática – e a velocidade em que ele irá fluir para onde precisa. 

2. Eleição no Brasil – e a política climática?

Em outubro os brasileiros irão às urnas escolher um presidente e representantes para o Congresso. Na pauta ambiental, este foi um ano marcado por contradições e pelo antagonismo entre Executivo e Legislativo – a tramitação da lei do licenciamento ambiental foi representativa disso.

O próximo ano marcará o fim do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Das 25 prioridades para a agenda econômica de seu governo entre 2025 e 2026, oito estão ligadas ao plano de transformação ecológica e a ferramentas das finanças sustentáveis. 

“Para os brasileiros, haverá uma eleição geral onde estará em jogo a continuidade de uma política paradigmática de grandes realizações na área do clima, fruto de estreita coordenação entre os Ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente”, diz Fritsch.

A colunista Caroline Prolo destaca o novo arcabouço de políticas e regulações climáticas para a descarbonização da economia brasileira, que incluem o recém lançado Plano Clima, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) –  – em processo de implementação, com a criação de uma secretaria no Ministério da Fazenda  –, e o lançamento da Taxonomia Brasileira Sustentável

A regulamentação do mercado de carbono brasileiro será o principal catalisador da transição em 2026, segundo a colunista Ana Luci Grizzi. “A definição de regras para setores regulados, critérios para interoperabilidade com o [mercado] voluntário e a governança do sistema trará segurança jurídica, atrairá investimentos e impulsionará não apenas a descarbonização de setores regulados, mas também a demanda por ativos de alta integridade do mercado voluntário”, avalia.

As experiências inovadoras introduzidas neste ano no âmbito do Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda também vão continuar se consolidando em 2026 como espaços catalíticos para o investimento na descarbonização, diz Prolo, citando iniciativas como o Eco Invest e a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos (BIP). 

Segundo ela, a revisão da Política Nacional da Mudança do Clima (PNMC) pode ajudar a assegurar a continuidade dessa agenda. 

3. Clima nos negócios e nas finanças

Riscos e oportunidades de clima e natureza são dois temas inescapáveis para os negócios em 2026. 

“Com o início da adoção mandatória dos padrões IFRS S1 e S2 e a TNFD servindo como base para minuta de requisitos de natureza do próprio IFRS ainda em 2026, riscos e oportunidades de clima e natureza entram definitivamente no radar do sistema financeiro: bancos, mercado de capitais, seguradoras e fundos de pensão”, diz Grizzi.

Segundo ela, gerenciar, mensurar, monitorar e reportar impactos e dependências tendem a ser ações cada vez mais demandadas de negócios e cadeias de valor intensivas em capital natural, no viés de riscos e oportunidades e conjugando com os conceitos de materialidade financeira. 

“Quando clima e natureza se tornam temas materiais do ponto de vista financeiro, seus riscos e oportunidades impactam o negócio”, diz.

No mercado de capitais, mais especificamente de dívida ESG, a tendência deixa de ser expansão acelerada e passa a ser consolidação, segundo Puig. “O mercado global de dívida sustentável alcança um patamar próximo a US$ 6 trilhões, formando um conjunto relevante de recursos no qual empresas e países precisarão saber pescar”, avalia. 

Em um ambiente de maior escrutínio, vencem os emissores que demonstram compromisso real com frameworks reconhecidos e avaliações independentes, afirma. “O backlash recente funciona como um filtro saudável. Ficam aqueles que fazem direito.” Na sua avaliação, episódios pontuais no Brasil não devem contaminar o mercado desde que haja governança sólida e assessoria adequada. 

“Os mercados privados de capital deverão jogar papel importante no financiamento, complementado por avanços importantes nos mercados regulados de carbono, como a implementação definitiva do Artigo 6 do Acordo de Paris, a montagem do SBCE, e o avanço da Coalizão Aberta para a integração do mercado global de carbono, proposta pelo Brasil”, diz Fritsch.  

4. Mapas do caminho (do Brasil já a caminho)

O Brasil segue na presidência da COP até o fim de 2026, quando passará o bastão para a Turquia. Nesse período, o país assumiu o compromisso – “ousado”, segundo Prolo – de apresentar uma proposta para construção de dois mapas do caminho: um para transição para longe dos combustíveis fósseis, e outro para zerar o desmatamento no mundo. 

“A ideia é acordar diretrizes globais para que os países possam adotar suas próprias trajetórias nacionais voltadas a esses objetivos”, explica Prolo. 

Tendo o presidente brasileiro liderado essa pauta em Belém, Lula encomendou a quatro ministérios que elaborem uma proposta de resolução para o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para um mapa do caminho para o Brasil fazer sua “redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis”.

“Aguardamos um mapa com metas, instrumentos de financiamento e mecanismos de governança, com foco na redução da dependência fóssil. A consolidação desse mapa é crucial para atrair investimentos e garantir uma transição energética justa, ordenada e equitativa”, diz Grizzi. 

No decreto, Lula também determinou que o grupo proponha mecanismos de financiamento para a implementação da política de transição energética, o que inclui a criação do Fundo para a Transição Energética, com parte das receitas da exploração de petróleo e gás natural.

“Esse direcionamento da política pública brasileira rumo à transição energética, na virada de 2025 para 2026, é provavelmente o sinal mais robusto já dado pelo governo brasileiro para o direcionamento de investimentos voltados a transformar o Brasil em uma potência de energia renovável e inovação energética”, avalia Prolo.  

5. Implementação é o nome do jogo

Além dos mapas do caminho, a COP30 criou outros mandatos importantes a serem conduzidos pela presidência brasileira ao longo de 2026.

Os colunistas do Reset destacaram o chamado “Acelerador de Implementação Global”, iniciativa para fomentar cooperação envolvendo todos os atores – não apenas governos nacionais, mas também subnacionais, setor privado e sociedade civil – com o objetivo de acelerar a implementação do Acordo de Paris. 

“Embora ainda não haja clareza exatamente sobre como essa iniciativa pode ser desenhada, a presidência brasileira antecipou que este ela funcionará sinergicamente à Agenda de Ação”, diz Prolo. Ela avalia que a COP30 foi bem-sucedida em mapear, catalogar e organizar as iniciativas de implementação da Agenda de Ação que vêm sendo adotadas voluntariamente por diversos atores mundo afora.

“Esse pode ser o ponto de virada da criação de um espaço multistakeholder capaz de dar maior efetividade ao enfrentamento da crise climática e à transição para a economia de baixo carbono”, afirma. 

Outra iniciativa relevante (e voluntária) anunciada em Belém, e que seguirá com desdobramentos em 2026, é a Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, também uma proposta do Brasil. “Pode ser um caminho para se avançar na implementação climática com um olhar focado na necessária precificação de carbono.”