A Petrobras levantou R$ 6,5 bilhões com o Banco do Brasil, por meio da contratação de duas Notas de Crédito à Exportação (NCE), e atrelou as operações a indicadores sustentáveis definidos no plano estratégico da companhia. A emissão, anunciada na semana passada, contou com um desconto na taxa de juros – um “greenium”, ou prêmio verde pelo impacto positivo associado ao crédito.
As NCEs foram divididas em duas: uma de R$ 3,5 bilhões e outra de R$ 3 bilhões, com prazo de sete anos, até 2032. A taxa da emissão, concluída na noite da última quinta-feira (20), não foi divulgada.
Operações de bonds atrelados à sustentabilidade (SLBs, na sigla em inglês) costumam incluir verificações periódicas durante o prazo do título. Caso as metas não sejam cumpridas, é acionado o mecanismo conhecido como “step up”, em que a taxa é elevada.
No caso das NCEs da Petrobras, caso a petroleira não avance nas metas, a operação pode ser reclassificada como “marrom” – ou seja, sem atributos verdes – e o desconto deixa de existir, diz Henrique Vasconcellos, gerente-executivo responsável por negócios e finanças sustentáveis do Banco do Brasil.
“Fizemos uma análise dos quase 20 KPIs [indicadores-chave de desempenho] de sustentabilidade no plano da Petrobras. A partir dela, criamos uma cesta dos indicadores cujo desempenho vamos avaliar anualmente”, afirma o executivo.
A Petrobras assume compromissos de descarbonização e proteção da biodiversidade em paralelo à pressão da petroleira e do governo para que o Ibama conceda uma licença para que se estude a exploração da Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial. A área na região do Amapá é apontada como o “novo pré-sal” pelo potencial de petróleo e é considerada ambientalmente sensível, dada sua ampla biodiversidade.
“Qualquer operação que a Petrobras venha a fazer, ela fará com extrema segurança, minimizando qualquer tipo de risco de acidente. Para a Margem Equatorial, isso também é verdadeiro”, afirma Gregório Araújo, gerente de projetos ambientais da Petrobras.
Investimentos da Petrobras
A petroleira traz em seu plano a previsão de investir US$ 16,3 bilhões em transição energética deste ano até 2029. Desses, US$ 5,3 bi devem ir para estratégias de mitigação das emissões nos escopos 1 (diretas da operação) e 2 (consumo de energia); US$ 5,7 bi para fontes de energias de baixo carbono, como eólica e hidrogênio; US$ 4,3 bi para bioprodutos, como etanol e biorrefino; e US$ 1 bi para pesquisa e desenvolvimento em baixo carbono.
O plano traçado pela Petrobras foi considerado robusto pelo banco, que desenhou as NCEs com base nele, e o uso de um conjunto de indicadores deu maior flexibilidade à operação, diz Vasconcellos.
Indicadores de sustentabilidade
No cesto dos indicadores que tornam a operação de crédito sustentável, estão definidas ambições para a descarbonização dos processos da Petrobras, preservação da biodiversidade e desenvolvimento de projetos socioambientais.
Cada frente tem um peso diferente na avaliação da evolução, de acordo com o negócio da empresa. No caso de óleo e gás, por exemplo, a descarbonização conta mais do que a gestão de resíduos sólidos.
A Petrobras tem a meta de reduzir sua emissão de gases de efeito estufa em 30% até 2030, em comparação a 2015, e neutralizá-la até 2050. Aqui, porém, estão incluídas as emissões que estão sob seu controle, dos escopos 1 e 2.
A maioria esmagadora das emissões da companhia, como as outras do setor, concentram-se no escopo 3 (de emissões indiretas). É nele que são contabilizadas as toneladas de CO2 emitidas pela queima da gasolina ou do diesel produzidos a partir do petróleo extraído pela Petrobras.
A companhia afirma ter, há anos, a menor emissão de CO2 por barril de petróleo graças à sua estratégia de captura e estocagem de carbono. A queima de gás natural do flare – feita por questões de segurança – emitia 150 milhões de m³ em 2023 e, prevê a Petrobras, deve ser zerada até 2030.
A estatal também se comprometeu a ter planos de ação em biodiversidade para todas as suas instalações até o fim deste ano, e aumentar em 30% a conservação da natureza por meio do investimento socioambiental. De 2023 para 2030, o número de espécies em extinção a serem protegidas deve subir de 56 para 73, e a recuperação e conservação de biomas aumentar de 175 mil hectares para 228 mil. A gestão de áreas de proteção ambiental também deve crescer, de 25 milhões de hectares para 33 milhões.
A Petrobras promete ainda reduzir em 40% sua captação de água doce e a geração de resíduos sólidos de seus processos.
A operação segue diretrizes do Green Bond Principles e contou com Parecer de Segunda Opinião (SPO) da ERM Nint. O anúncio vem semanas após o lançamento de um fundo de R$ 100 milhões para a biodiversidade pela Petrobras e a Régia Capital, uma joint venture da BB Asset e JGP Capital.