Quando a natureza entra na sala do CEO

“A natureza não é apenas mestra das artes; é também mestra das finanças. (…) Na verdade, é a natureza que faz as finanças prosperarem.” – Frank Elderson, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu

A natureza fará os negócios prosperarem? Talvez sim, talvez não. A frase de Frank Elderson não é metáfora poética. É, sim, um alerta econômico que acabará refletido nos balanços da próxima década. As manchetes que veremos estampadas nos jornais de 2036 dependerão da nossa capacidade de conciliar natureza e lucro.

Em The Path to 2036: Over the Edge?, o Fórum Econômico Mundial é direto: eventos climáticos extremos seguem como o principal risco global no horizonte de dez anos, e a perda de biodiversidade e o colapso de ecossistemas ocupam a segunda posição. Diferentemente do curto prazo – hoje dominado pela geopolítica –, no médio prazo a biodiversidade permanece no topo, ao lado da mudança climática, entre as preocupações de diferentes gerações de C-levels do mundo todo entrevistados pelo Fórum.

A biodiversidade deixou de ser mero pano de fundo ambiental. Tornou-se infraestrutura econômica e, portanto, variável financeira. Ela sustenta sistemas produtivos inteiros, cadeias de suprimento e a estabilidade de setores econômicos. O que hoje parece eficiente do ponto de vista financeiro pode, na prática, estar corroendo os fundamentos do valor de longo prazo.

Mercados e profissionais de risco têm falhado recorrentemente em antecipar grandes disrupções. A crise financeira de 2008, a pandemia de Covid-19, a quebra da ordem geopolítica, o enfraquecimento do multilateralismo, a relevância econômica de eventos climáticos extremos e até a erosão da centralidade do dólar mostram que não somos realmente bons em antecipar quebras sistêmicas. A pergunta agora é se, diante da perda de biodiversidade, repetiremos o padrão — ou se conseguiremos agir antes de uma crise mais aguda

Ao mesmo tempo, você verá que este não é apenas um debate sobre risco. Depois do movimento anti-ESG, virou lugar comum afirmar que esse tema é também sobre oportunidades econômicas e não só sobre risco. O que ainda falta é transformar esse discurso bonito em ação de negócio.

Quando incentivos são corretamente desenhados, o que é financeiramente atrativo pode alinhar-se ao que é positivo para a natureza e para a sociedade. Essa convergência entre risco e oportunidade está no centro do relatório lançado na 12ª Plenária da Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política para a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos (IPBES 12).

Uma abordagem inédita

Participamos da IPBES 12 com dois papéis complementares: eu, como integrante da delegação brasileira liderada pelo Itamaraty, com foco em finanças, negócios e gestão de risco; Rafael Loyola, biólogo, doutor em ecologia e o único brasileiro entre os autores do sumário para tomadores de decisão.

A IPBES é conhecida como o “IPCC da biodiversidade”. Assim como o IPCC produz avaliações científicas globais sobre o estado do clima, a IPBES faz o mesmo para a natureza.

Durante uma semana, o multilateralismo mostrou uma força que, sinceramente, não esperávamos mais ver. Mais de 150 delegações negociaram cada parágrafo do relatório. Países em conflito fora daquela sala sentaram lado a lado. Não houve discurso performático. Houve método, paciência e foco no texto. O teatro da política ficou do lado de fora – e é bom que continue assim. 

E a IPBES 12 deu um passo além de falar para cientistas e governos. Ao lançar o relatório sobre Negócios e Biodiversidade, colocou, pela primeira vez, o setor privado no centro da análise científica. Não se trata apenas de mais um relatório ambiental. É um documento que busca deliberadamente falar uma nova língua –  uma “língua do meio”, capaz de conectar ciência, economia e decisão corporativa. Ele parte do entendimento de que, sem mudanças nos modelos de negócio, não há trajetória viável para conter a perda de biodiversidade. E vice-versa: existem saídas econômicas para vencer o trade-off entre lucratividade e biodiversidade.

Essa inflexão não é trivial. Talvez seja um aprendizado tardio do percurso climático, onde essa interação madura com os negócios foi adiada por tempo demais. A verdade inconveniente da década é que governos, pressionados por ciclos eleitorais, pautas anticiência, restrições fiscais e tensões geopolíticas, têm capacidade limitada de sustentar sozinhos agendas estruturais de longo prazo. Políticos passam. Empresas permanecem. E, o planeta, também.

Quatro perguntas para os conselhos

Embora o relatório traga dez mensagens-chave, focamos aqui nos quatro temas que são diretamente acionáveis para conselhos de administração e executivos.

1. Não faltam dados nem metodologia.

O relatório desmonta a justificativa recorrente de que não há dados suficientes para agir. Há, sim. Existem métodos e métricas consolidados para medir impactos e dependências de biodiversidade no nível operacional, na cadeia de valor, na estratégia corporativa e no portfólio financeiro. O gargalo não é técnico. É organizacional e de governança.

Pergunta para o conselho
Se os dados existem, a biodiversidade já aparece de forma explícita nos nossos mapas de risco, nas decisões de investimento e nas prioridades estratégicas?

2. Não dá mais para reportar por reportar.

Aprendendo com a fadiga do excesso de disclosures climáticos, o relatório é claro: reportes só importam se trouxerem decisões e substância.  As empresas precisam reportar mais e muito, muito melhor.

Menos de 1% das empresas listadas divulgam de forma consistente a relevância da biodiversidade para seus negócios. Mesmo entre estas, as divulgações raramente se traduzem em mudanças reais de capital, de critérios de investimento ou de modelos de negócio. Disclosure sem consequência vira um fim em si mesmo, um custo sem sentido. E um risco. 

Pergunta para o conselho
Já incorporamos biodiversidade em nossos relatórios? Quais foram as decisões tomadas com base em nossas dependências e impactos? Falamos com robustez ou corremos o risco de greenwashing?

3. Biodiversidade como oportunidade econômica

O relatório da IPBES e o estudo Nature in the Boardroom (Deloitte/ONU, 2024) convergem em uma mesma leitura: biodiversidade e natureza é estratégia de negócio que tem que estar na pauta dos conselhos. Investimentos, inovação em cadeias produtivas, novos produtos e modelos operacionais baseados na natureza são fator gerador de retorno econômico ao mesmo tempo em que reduzem vulnerabilidades.

Isso já começa a se refletir até no mercado de dívida. Em janeiro, o Chile emitiu o primeiro sustainability-linked bond com KPI de biodiversidade alinhado às metas do Marco Global da Biodiversidade, o “Acordo de Paris da natureza”. A demanda ficou acima do esperado. Para empresas, há também espaço concreto para capturar esse valor financeiro. Os setores mais expostos – sistema alimentar, extrativos, construção e utilities – tendem a ser também os primeiros a capturar essas oportunidades, que, aliás, não são pequenas. Redirecionar fluxos financeiros para a natureza representa uma oportunidade da ordem de US$ 7 trilhões. (Fonte: State of Finance for Nature do United Nations Environment Programme de 2023)

Pergunta para o conselho
Estamos posicionados para capturar valor nessa transição ou apenas para reagir quando ela nos for imposta? Entendemos as oportunidades de modelo de negócio e também de captação financeira?

4. Biodiversidade é infraestrutura econômica – e o risco já tem preço (ou terá em breve)

Essa leitura de que a biodiversidade é também economia é comum tanto às fontes de sustentabilidade, como o IPBES, mas também às de tradição econômica, como o Fórum Econômico Mundial e o Financial Stability Board (FSB), a maior autoridade de bancos centrais, acima de qualquer suspeita.  

No relatório Stocktake on Nature-Related Risks 2024, o FSB afirmou que a degradação dos serviços ecossistêmicos já se manifesta como risco financeiro, físico, de transição e sistêmico. E não é tema de poucos setores. Cadeias de valor inteiras começam no solo, na água, nos polinizadores e nos ciclos ecológicos.

Segundo o Banco Mundial, também citado pelo relatório do FSB, 55% dos empréstimos bancários em países emergentes são altamente dependentes de pelo menos um serviço ecossistêmico, e isso só levando em conta riscos físicos.  No Brasil é em torno 46%, segundo o mesmo relatório. Na zona do euro, esse número chega a 75%.

Em cenários de colapso parcial de ecossistemas até 2030, o PIB global em risco é de cerca de 2,5% ao ano, podendo chegar a 7–10% em países de renda média e baixa. Para o Brasil, o Banco Mundial projeta um crescimento acumulado 20% menor entre 2021 e 2030. Se lembrarmos que o estoque global de biodiversidade já caiu cerca de 70% desde 1970, segundo o Banco Central Europeu (2024) esses cenários não são irreais.

Pergunta para o conselho
Sabemos realmente qual é o preço das nossas dependências materiais, os cenários possíveis e extremos que podem afetar nossos negócios, ativos e ratings?

Fluência bilíngue: econômica e ambiental

É por tudo isso que a parceria entre profissionais de biodiversidade e de finanças não é mais opcional. Levar a biodiversidade da área de sustentabilidade para a sala do CFO exige tradução técnica, econômica e estratégica. Exige falar de risco, custo, capital, retorno e resiliência. Não é coincidência que os dois autores deste artigo representem as duas faces importantes desse diálogo – negócios (Julieda Puig) e biodiversidade (Rafael Loyola).

Sugerimos  que essa parceria se reproduza em sua empresa.  E ontem. O  relatório  do IPBES oferece um ponto de partida concreto. Mas comece com pouco, faça pilotos, construa caminhos realistas, fuja do binômio tudo ou nada, do catastrofismo e das soluções burocráticas de reporte. O foco agora é apoiar a  tomada de decisão – que seja uma de cada – uma de mitigação de risco, uma de mudança do modelo de negócio e uma última de oportunidades financeiras.

Conclusão: menos slogans, mais economia

Em um momento em que slogans abundam e a confiança em soluções fáceis se esgota, a IPBES oferece algo mais raro: método, evidência e direção. Visto de dentro, o relatório não inaugura uma nova causa nem propõe rupturas artificiais. Ele apenas corrige uma omissão relevante, ao trazer a biodiversidade para o lugar onde sempre deveria ter estado: a conta econômica.

Quando isso acontece, risco, retorno e estratégia passam a ser lidos com mais realismo. Menos promessas. Mais decisões informadas. É assim que a economia real se ajusta – não por retórica, mas por necessidade.

* Rafael Loyola é doutor em Ecologia, diretor de desenvolvimento na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, conselheiro do LIFE Institute Global e expert associado da IPBES