
Crises financeiras frequentemente surgem não porque os riscos sejam invisíveis, mas porque os mercados os subestimam. O boom da inteligência artificial nos Estados Unidos pode estar criando esse tipo de situação. Não, como se tem advertido, em razão das avaliações anormalmente altas das empresas líderes do setor, mas porque uma parcela crescente dos investimentos associados à IA parece ignorar o chamado risco de transição climática.
Popularizado por Mark Carney quando presidia o Banco da Inglaterra, o conceito de risco de transição climática descreve o impacto que mudanças não antecipadas em políticas públicas, regulação, tecnologia ou preferências de mercado associadas à descarbonização podem ter sobre o valor dos ativos afetados por essas mudanças. No início do século, os casos emblemáticos foram minerações de carvão e geradoras com usinas termelétricas a carvão afetadas pelo início das políticas climáticas ativas e precificação de carbono na Europa. Hoje, risco semelhante começa a emergir na infraestrutura que sustenta o crescimento do uso da inteligência artificial.
Os investidores tendem a analisar os riscos da nascente indústria americana de IA como associados a liderança tecnológica, ganhos de produtividade e competição geopolítica. No entanto, um dos principais desafios é associado à infraestrutura energética necessária para fazê-la funcionar.
Corrida desenfreada
A competição pelo mercado de inteligência artificial está se tornando, cada vez mais, uma corrida para garantir a geração da eletricidade firme necessária para produzi-la. Os chamados hyperscalers — Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta — competem não apenas em software e capacidade computacional, mas também pelo acesso a energia. A corrida pela liderança em IA tornou-se, em grande medida, uma corrida para financiar e construir vastas redes de data centers que consomem enorme quantidade de energia.
Como a construção de capacidade renovável, linhas de transmissão e modernização das redes exige tempo, e como o atual governo americano reduziu significativamente o alcance das políticas climáticas domésticas, parte relevante da resposta ao crescimento da demanda energética para processamento de AI vem ocorrendo por meio da expansão da geração a gás natural.
Dependendo da velocidade de crescimento da demanda e da evolução tecnológica, os data centers poderão exigir dezenas de gigawatts adicionais de capacidade de geração fóssil ao longo da próxima década.
O crescimento da capacidade dos data centers americanos não deve alterar substancialmente a trajetória global das emissões. Mesmo em cenários agressivos de crescimento, emissões adicionais associadas à operação dos data centers continuariam representando parcela relativamente pequena das emissões globais.
Investimentos bilionários
O problema potencial está na escala e natureza dos ativos que estão sendo financiados e nas premissas que sustentam esses investimentos. Estimativas conservadoras do FMI sugerem que os investimentos anuais em data centers nos Estados Unidos são atualmente da ordem de US$ 370 bilhões, o equivalente a cerca de um quinto de todo o investimento privado líquido do país, podendo subir em certos cenários para até US$ 930 bilhões em 2027.
A McKinsey projeta que os gastos com infraestrutura ligada à inteligência artificial possam alcançar US$ 3 trilhões até o fim da década.
Parte do investimento, como os servidores, depreciam rapidamente. Mas grande parte desses data centers e sua infraestrutura, é financiada com horizontes de 20 a 40 anos. Seus modelos financeiros pressupõem que o ambiente regulatório atual permanecerá relativamente inalterado durante boa parte de sua vida útil.
É uma aposta arriscada alimentar parte importante dessa infraestrutura com energia fóssil. No restante do mundo, a ciência climática continua orientando políticas ativas de transição energética. A União Europeia, o Japão e, cada vez mais, a China têm claras estratégias de descarbonização de longo prazo.
Tecnologias renováveis, sistemas de armazenamento e redes elétricas continuam avançando rapidamente. Até mesmo as perspectivas para uma nova geração de usinas de energia nuclear tornaram-se mais favoráveis. Investidores globais e grandes corporações multinacionais permanecem atentos aos riscos climáticos, ainda que hoje se manifestem de forma menos explícita. E a atual crise do Golfo reafirma a vantagem estratégica da independência de fósseis.
Nesse contexto, futuras administrações americanas deverão enfrentar riscos de transição decorrentes da crescente pressão econômica, diplomática e comercial para adotar políticas climáticas mais rigorosas. Instrumentos como os incentivos à energia limpa existentes até pouco tempo, ou mesmo precificação de carbono, podem ser introduzidos mais rapidamente do que os mercados atualmente precificam. Caso isso ocorra, parte da infraestrutura sendo construída hoje poderá enfrentar condições econômicas substancialmente diferentes daquelas incorporadas em suas avaliações atuais.
Economia afetada
A maior exposição talvez não esteja concentrada nas grandes empresas de tecnologia, cujos balanços permanecem robustos. O risco está migrando para o próprio sistema financeiro, por meio dos bancos e dos veículos de crédito privado que financiam esses ativos de longa duração. Dada a magnitude dos investimentos envolvidos, uma reprecificação desses ativos poderia gerar efeitos relevantes sobre os mercados financeiros.
Há ainda uma dimensão estratégica mais ampla desse risco. Os países que liderarão a economia do século 21 provavelmente serão aqueles capazes de desenvolver sistemas energéticos simultaneamente mais baratos, mais limpos e mais eficientes. Ao aprofundar sua dependência de infraestrutura para expansão da inteligência artificial baseada em combustíveis fósseis, os Estados Unidos correm o risco de aprisionar parte de sua economia em uma trajetória estruturalmente mais cara de fornecimento de energia, ao mesmo tempo em que expõem seus exportadores e prestadores de serviços a futuras barreiras comerciais associadas ao carbono.
A ironia é evidente. A busca americana pela liderança em inteligência artificial, combinada à relativa desatenção às questões climáticas, pode acabar tornando um componente fundamental da cadeia produtiva da IA vulnerável justamente às mudanças regulatórias e tecnológicas que a ciência climática, o progresso tecnológico e a competição global tornam cada vez mais prováveis.
O uso de fósseis não apenas ameaça enfraquecer a liderança americana em serviços de processamento para inteligência artificial no futuro próximo. Ele também gera crescente risco climático que pode influenciar a estabilidade futura dos mercados financeiros dos Estados Unidos.





