Sensor da Carbon Exchange

Quando uma floresta começa a pegar fogo, os animais são os primeiros a perceber. As aves levantam voo em bando, gritando. Os mamíferos correm. O som do ambiente muda antes que qualquer imagem mostre  fumaça ou satélites com câmeras termográficas registrem calor.

A Carbon Exchange quer atuar nestas momentos iniciais de um incêndio na mata.

A startup desenvolveu uma caixinha pouco maior que um celular que fica instalada na borda das florestas, camuflada para parecer um vespeiro ou parte do tronco de árvore.

O equipamento tem vários sensores para capturar pressão atmosférica, umidade, temperatura, concentração de CO2, entre outros parâmetros. O modelo mais novo, previsto para o segundo semestre, terá também oito microfones. Um sistema de inteligência artificial vai interpretar os sinais colhidos pelo aparelho e identificar se é o caso de emitir um alerta. 

“O som vem primeiro”, diz Cristian Vosgrau, CEO e fundador da empresa. “E o estalo da madeira queimando é inconfundível.”

Tudo nasceu de um experimento. Um amigo português ligou para Vosgrau alarmado com os incêndios que devastavam seu país em 2023. Trabalhava com logística e o fogo impactava diretamente sua operação. Lembrou que Vosgrau havia desenvolvido um sensor para monitorar nutrientes em cultivos hidropônicos e o desafiou: e se a tecnologia servisse para detectar fogo?

A lógica da borda

A Carbon Exchange não monitora o interior das florestas, apenas o perímetro. A razão é um dado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: 97% dos incêndios florestais começam nas bordas.

Conter o fogo antes que ele se alastre para dentro da mata fechada é mais barato e eficaz.

O modelo é de comodato — a Carbon Exchange não vende o hardware, empresta. Investe no equipamento, instala na propriedade e cobra uma mensalidade que cobre sensor, conectividade, manutenção e software. Para uma reserva de 10 hectares, o custo mensal fica em torno de R$ 1.700 num contrato de cinco anos. O retorno sobre o investimento em cada dispositivo está calculado para ocorrer entre o 25º e o 26º mês, com margem de 30% para a empresa.

Quanto maior a propriedade, mais eficiente fica o modelo: lados que fazem divisa com outras áreas de floresta não são bordas de risco e dispensam sensores.

A conectividade funciona via rede celular onde há sinal, e via satélites de baixa órbita, que operam mais perto da Terra e oferecem menor latência de sinal, em áreas remotas, hoje em parceria com a Sateliot, multinacional espanhola. 

No mercado inicial, a silvicultura, nome técnico para florestas comerciais como os plantios de eucalipto para celulose e papel, a lógica é ainda mais direta. O monitoramento é das pilhas: as torres de madeira já colhida que representam sete a oito anos de investimento. Um incêndio destrói o produto final de uma safra inteira. No Mato Grosso do Sul, um único evento causou prejuízo de US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões) aos produtores da região, conta Vosgrau.

“Quando contamos que a empresa poderia monitorar pilhas, especificamente, todo mundo do setor veio falar com a gente, demonstrando muito interesse.”

Há uma lacuna relevante: a cobertura satelital ainda tem janelas de até seis horas sem sinal em partes da Amazônia. Vosgrau é direto sobre o risco: se um incêndio ocorrer nesse intervalo, a responsabilidade de disparar alertas é da empresa. Por isso, a Carbon Exchange ainda não opera em escala plena na região, e só pretende fazê-lo quando a cobertura for contínua, o que a Sateliot prevê entregar até dezembro.

A bateria do dispositivo atual dura cinco anos. O novo modelo terá gestão inteligente de energia: na época das chuvas, quando o risco de incêndio é baixo, o sensor reduz a frequência de leitura para uma vez por dia, economizando bateria sem deixar de transmitir um sinal de presença para fins de auditoria.

Créditos de carbono 

A silvicultura é o mercado de entrada, mas não necessariamente é a tese central. O que a Carbon Exchange quer construir é infraestrutura para o mercado de créditos de carbono, substituindo a inspeção técnica esporádica das certificadoras por uma auditoria contínua, 24 horas por dia.

O modelo atual de verificação funciona assim: um engenheiro ambiental vai à área, mede, fotografa e vai embora. O relatório é estático. A floresta pode queimar ou ser desmatada no dia seguinte sem que a certificadora saiba até a próxima visita.

“Não tem garantia de que aquela área vai estar de pé daqui dois, três, quatro anos”, diz Vosgrau. “O que eu vou estar dando para quem é proprietário da terra? Eu estou auditando essa área em tempo real.”

O argumento ressoa num momento em que a integridade do mercado de carbono brasileiro está sob escrutínio, em especial os de créditos de preservação florestal, conhecidos como REDD+.

A Carbon Exchange não está homologada por nenhuma certificadora hoje. A estratégia de Vosgrau é não buscar essa homologação diretamente. É uma aposta arriscada num mercado que já enfrenta questionamentos sobre credibilidade.

“O mercado vai falar: a empresa é a única que dá garantia de floresta em pé em tempo real. Deixa o mercado validar.”

Quem está por trás

A empresa foi fundada em dezembro de 2023 por Vosgrau, biólogo com pós-graduação na Unicamp. Antes da Carbon Exchange, ele tocava uma agência de comunicação em Campinas. Inaugurou o novo espaço em março de 2020, dois dias antes do decreto de fechamento do comércio na pandemia.

“Quebrei, perdi uma grana alta e tinha duas filhas pequenas. Ou seja, eu não podia mais errar na vida. Queria ser certeiro na próxima empreitada”, diz.

A empresa captou R$ 2,1 milhões em rodadas pré-seed e seed concluídas em julho do ano passado, com investidores de Cuiabá e de São Paulo que a empresa não revelou. O financiamento operacional conta ainda com recursos do Sicredi, cooperativa de crédito.

A empresa tem hoje três clientes pagantes: a Vinícola Vila Santa Maria, a usina solar Luz do Sol, para cumprir a nova legislação que exige detecção de incêndio em plantas fotovoltaicas, e um terceiro que prefere não ser identificado. O faturamento de 2025 ficou entre R$ 300 mil e R$ 400 mil, segundo Vosgrau. A projeção para 2026 é de R$ 1,5 milhão, impulsionada por contratos em fase de assinatura.

A patente mundial do novo hardware está sendo depositada. Vosgrau fez o design e terceiriza a fabricação. Vosgrau cita como concorrentes diretos empresas apoiadas por Bosch e Nokia.

A Série A, buscada com investidores europeus, deve ser aberta assim que os primeiros grandes contratos de silvicultura forem assinados e o faturamento cruzar a marca de R$ 1 milhão. O capital será usado para produzir o novo hardware em larga escala. A demanda, Vosgrau acredita, vai crescer na mesma velocidade em que o mercado de carbono for obrigado a provar que suas florestas ainda estão de pé.

“Fico orgulhoso, brinco que é uma tecnologia 100% tupiniquim, sem complexo de vira-lata.”