
Os maiores choques econômicos das últimas décadas têm uma variável em comum. Ela nasce no oceano, atravessa cadeias produtivas e revela por que a gestão ambiental também é política econômica.
Durante muito tempo, tratamos gestão ambiental e política econômica como agendas distintas. Uma discutia licenciamento, recursos naturais e preservação; a outra, inflação, juros, crédito, produtividade e crescimento. O problema é que a economia depende de algo que as duas agendas têm em comum: a capacidade de produzir, transportar e continuar funcionando quando surgem choques.
Uma enchente que interrompe uma rodovia não é apenas um problema ambiental. É uma interrupção logística. Uma seca que reduz uma safra não termina no campo: chega aos preços dos alimentos, à indústria, ao crédito e ao consumo. Infraestrutura resiliente, adaptação climática e gestão de riscos são, portanto, instrumentos de proteção da atividade econômica, dos ativos e da continuidade dos negócios.
O alerta mais recente do El Niño ajuda a tornar essa conexão concreta. Em 11 de junho de 2026, a NOAA apontou elevada probabilidade de um El Niño forte, com projeções indicando possibilidade de intensidade excepcional no fim do ano. O que deveria interessar ao economista, ao empresário e ao investidor não é apenas a temperatura do Pacífico, mas a cadeia de consequências que pode vir depois: alteração do regime de chuvas, perda de produtividade, pressão sobre commodities, inflação e deterioração das condições de produção.
Não é uma hipótese inédita. Em 1982, o Brasil enfrentava uma grave crise da dívida externa quando um dos maiores El Niños registrados atingiu o país. Enquanto o Nordeste sofria com a seca, o Sul enfrentava enchentes históricas. Em Santa Catarina, 135 municípios foram atingidos e a paralisação de atividades industriais e logísticas comprometeu a capacidade produtiva justamente em um momento de extrema vulnerabilidade econômica. O fenômeno não causou sozinho a Década Perdida, mas encontrou uma economia sem espaço para absorver mais um choque.
Em 1997 e novamente em 2015, a história apresentou mecanismos semelhantes: eventos climáticos extremos atingiram economias que já enfrentavam suas próprias fragilidades e ampliaram perdas na produção e na renda. Pesquisas posteriores mostraram que os efeitos econômicos dos grandes El Niños não necessariamente terminam quando o fenômeno termina. Um estudo publicado na revista Science estimou perdas de renda global de trilhões de dólares associadas a grandes episódios de El Niño e mostrou efeitos persistentes sobre o crescimento.
A economia aprendeu a incorporar choques de petróleo, crises financeiras e rupturas de cadeias globais aos seus modelos. O risco climático precisa ocupar o mesmo espaço.
O próprio Fundo Monetário Internacional já trata eventos climáticos como choques de oferta capazes de pressionar preços e criar desafios para a política monetária, especialmente quando afetam os alimentos. O Banco Mundial, por sua vez, vem defendendo que adaptação e infraestrutura resiliente sejam incorporadas às estratégias de desenvolvimento, destacando a necessidade de aumentar a capacidade de países, empresas e comunidades de absorver choques.
Para as empresas, essa lógica é ainda mais concreta. Monitorar riscos ambientais é proteger ativos. Avaliar a vulnerabilidade hídrica é proteger a produção. Dimensionar infraestrutura para eventos extremos é proteger a operação. Adaptar uma cadeia agrícola é reduzir exposição sobre margem, emprego e abastecimento.
Prevenção tem uma característica ingrata: seu melhor resultado é aquilo que não acontece. Uma ponte que permanece de pé não vira manchete. Uma fábrica que não para, não entra na estatística de desastre. Uma safra preservada não aparece como prejuízo evitado. Mas é justamente essa capacidade de antecipar e absorver choques que determina quanto uma empresa, uma cidade ou um país terá de gastar para se recuperar depois.
Por isso, a gestão ambiental precisa ocupar um espaço mais estratégico dentro das organizações e das políticas públicas. Não como uma camada adicional de burocracia, mas como parte da gestão de riscos, da proteção de ativos e da continuidade dos negócios.
O quarto aviso do El Niño deveria ser lido dessa maneira. Não apenas como uma previsão meteorológica, mas como um teste de resiliência econômica. O oceano pode ser a origem do choque. O tamanho da conta, porém, dependerá da preparação de quem está em terra. E é justamente aí que gestão ambiental encontra economia.
*Fernanda Faret, diretora-presidente da Ambix Ambiental





