
A moda sustentável está em alta. Ainda que o consumismo promovido pelo ultra fast fashion pareça dominar as redes sociais, os contra-ataques têm ganhado força.
Conteúdos sobre roupas de segunda mão, tecidos que agridem menos o meio ambiente, passeios em brechós, peças que passam de mãe para filha e cadeias produtivas artesanais ganham espaço nas timelines.
O faturamento do setor deve saltar de US$ 10 bilhões em 2025 para US$ 15 bilhões em 2030, com 73% dos millennials (nascidos entre 1981 e 1996) afirmando que estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis.
Os dados, de diferentes instituições como a Harvard Business School e a organização Global Fashion Agenda, foram compilados pela organização The Round Up, especialista em cadeias produtivas sustentáveis.
Mas o que ser sustentável significa em uma indústria que é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, um volume maior que a soma dos transportes aéreo e marítimo, segundo dados da Organização das Nações Unidas?
O Reset ouviu cinco especialistas no tema para saber como eles consomem (e produzem) roupas de maneira sustentável.
Para sempre
O estilista potiguar Marcus Figueiredo, fundador da Depedro, lembra com carinho de uma peça de crochê que a mãe dele encomendou um ano após ele nascer.
“Vou fazer 40 anos e a roupa está intacta. Uma camisa feita à mão que meu sobrinho usou quando nasceu”, conta ele, que tornou o crochê artesanal um dos símbolos da sua marca. Para ele, sustentabilidade na moda é fazer roupas que durem.
Sob encomenda
Atualmente, a Depedro foca no modelo pré-ordem, ou seja, produzir uma peça somente após ela ser comprada no site, se distanciando dos grandes estoques.
Mais do que abraçar a ideia do slow fashion, Figueiredo avalia que é uma maneira de valorizar o trabalho de quem produz as roupas.
Ele usa como exemplo uma peça específica da marca, uma camisa de bordado complexo que demora 100 horas para ser produzida.
“Apenas duas artesãs trabalham na confecção da peça. Tem um cuidado grande com a matéria-prima, um acabamento premium. Não dá para tratar isso como um mercado de grande massificação”, conta.
Figueiredo também diz ter dois valores inegociáveis que considera serem ponto de partida para quem quer consumir moda de maneira sustentável.
“Não compro poliéster porque sei como é produzido. E não compro marcas que são envolvidas com trabalho análogo à escravidão”.
Tecido é tudo
A estilista baiana Isa Silva lembra que o impacto do mercado têxtil vai além das roupas.
“Tudo tem tecido, seja na decoração, com almofadas e cortinas, seja na indústria automobilística ou hospitalar. Fazer roupas de menor impacto no meio ambiente é, antes de tudo, produzir tecidos com menor impacto ambiental”.
Além do impacto climático, a indústria da moda consome cerca de 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano, aproximadamente 4% do uso global de água doce, segundo a organização não-governamental de economia circular Fundação Ellen MacArthur.
A maior parte disso tem a ver com tecidos, desde o cultivo de matérias-primas até a preparação, branqueamento, tingimento e lavagem.
Silva só trabalha com empresas têxteis nacionais de baixo impacto certificadas pela Sou de Algodão, iniciativa da Associação Brasileira de Produtores de Algodão com o Instituto Brasileiro do Algodão. Segundo ela, fortalecer esses fornecedores é fundamental.
“Tem a questão do greenwashing e o consumo desenfreado, mas também vejo gente super engajada, querendo saber tudo sobre o tecido, o processo produtivo. O caminho é fomentar quem produz com responsabilidade, em especial pequenas marcas autorais”.
Menos consumo, mais informação
A jornalista Marcella Lorenzon, do podcast Moda Importa, se preocupa com a banalização do termo “moda sustentável” nos últimos anos. Ela avalia que as “roupas sustentáveis” viraram objeto de desejo, um produto a mais para ser consumido.
“Foi virando uma necessidade. Isso levou a uma onda de greenwashing das grandes marcas, inclusive aumentando os preços e afastando o consumidor. Isso gera uma certa rejeição”, diz.
Quando notou o movimento, passou a repetir um mantra para todos que a perguntam sobre o tema: “moda sustentável é usar as roupas que nós já temos. Não dá para culpabilizar a pessoa para ela ficar comprando calças recicladas”.
O bom e velho jornalismo
Lorenzon também gosta de recorrer ao jornalismo de moda para estar bem informada sobre práticas sustentáveis no setor.
Para ela, ler sobre o tema em veículos como Financial Times, Business of Fashion, FFW, WWD e Vogue é um antídoto aos vídeos do Tik Tok que mostram dezenas de roupas de procedência duvidosa chegando na casa do consumidor de uma única vez.
Hoje, plataformas como Good on you, Re/make e Fashion Revolution focam na curadoria de moda sustentável, com listas, pontuações, histórico das marcas e dados sobre as cadeias produtivas.
“Ser sustentável é também sempre olhar o que tem perto de mim, comprando marcas da minha cidade. É uma boa forma de começar”.
Negócios transparentes
Rodrigo Ootani, sócio-fundador e diretor executivo da Oriba, acredita que quem desenvolve um produto precisa imaginar o caminho da peça desde a concepção até o último uso.
“Não é qualquer tipo de fibra ou de matéria-prima que funciona para tudo, e pensar isso traz menos impacto, do ponto de vista de produção e durabilidade. Quem vai usar essa roupa? Como vai ser usada? Como essa roupa vai ser cuidada?”, diz.
Para ele, as empresas devem liderar o processo, pois têm o controle do que é produzido e com quais materiais – e devem ser transparentes de maneira proativa. “E também porque os consumidores, em sua maioria, não têm tempo para ficar pesquisando a fundo sobre tudo”.
80% da matéria-prima da marca é de produtos naturais, enquanto o restante, constituído por materiais sintéticos, é proveniente da reciclagem. A empresa está formalizando um relatório de impacto pela primeira vez.
“Eu não crio nenhuma roupa porque ela é sustentável e sim para que meus clientes gostem. Porém, esse critério de qual é o impacto que essa roupa vai causar é levado em consideração”.
Usar 500 vezes
Fernanda Almeida, gerente de comunicação para a América Latina da marca de calçados Veja, concorda com Marcella Lorenzon.
“Tem uma frase que sempre falamos na Veja: os sapatos mais sustentáveis são aqueles que você usa”, diz.
Sempre mencionada como exemplo de empresa de moda que cresceu sem perder controle da cadeia, a marca de tênis não faz promoções de Black Friday (assim como a Depedro) e nem campanhas publicitárias com famosos.
“Você comprar um único produto para usar 500 vezes, vivendo muitas histórias com ele, sabendo que aquilo não vai ficar parado no armário, é uma delícia. Não precisa ter vários pares de tênis”, afirma Almeida.
Para ela, é importante que as marcas primeiro cumpram seus objetivos de sustentabilidade para, então, comunicarem sobre o tema, quando todos os dados de impacto estiverem consolidados.
“Na lógica do greenwashing, a marca anuncia que irá fazer algo no futuro, para atrair atenção. E se der errado? O consumidor precisa estar de olho”.
Futuras gerações
Almeida também acredita que comprar peças de segunda mão é sempre bem-vindo e participa de iniciativas de moda circular com colegas de trabalho.
Mas é observando a filha Sofia, de nove anos, que ela enxerga com mais clareza o poder da conscientização sobre o consumo.
“Vejo que ela já entende onde descartar recicláveis, lavando os resíduos quando a gente pede delivery. Tento, de forma prática, mostrar os princípios, para que ela cresça com esse tipo de atenção. Tem dado efeito”.





