Endeavor desembarca na Amazônia para escalar startups 

A Endeavor, organização global que fomenta o empreendedorismo, está expandindo sua atuação para a Amazônia com o objetivo de identificar e escalar empresas fora do eixo tradicional Rio-São Paulo. 

Para iniciar os trabalhos, uma imersão foi realizada em março, conectando mentores – a maioria fundadores de grandes empresas – a 40 empreendedores amazônicos. Entre os participantes, estiveram executivos do aplicativo de transporte 99, a holding de franquias de alimentação Trigo e a plataforma de recursos humanos Gupy. 

É hora de adaptar o histórico da organização no universo de fintechs e venture capital para novos ambientes, disse Maria Teresa Fornea, diretora-geral da Endeavor Brasil, ao Reset. Tetê, como é conhecida, assumiu a organização em meados do ano passado. 

“Queremos atuar como uma conectora e fonte de inspiração, com o objetivo de gerar movimentos estruturais em vez de apenas incrementais”, diz. “A Amazônia é um ativo do Brasil riquíssimo, mas que, a nível de negócios, está distante da realidade do resto do mundo, especialmente em termos de faturamento.”

Ao conectar empreendedores, Tetê acredita que é possível aumentar a demanda pelo o que é feito na região e construir novas parcerias. “Quanto mais pessoas com este olhar se conectarem com a Amazônia, mais chances de entendermos como destravar o potencial de maneira sistematizada.”

A visão

O projeto Amazônia da Endeavor ainda não está pronto. Ele está em fase de consolidação da visão e de entendimento do ecossistema. Em vez de aplicar um manual pronto, a ideia é priorizar “relacionamentos antes de processos”. Tetê garante que não é uma missão de curto-prazo.

Os próximos passos estão sendo construídos a muitas mãos, mas a organização enxerga três principais frentes de atuação: apoio por meio de parceiros locais; conexão com a demanda de grandes mercados; e emprestar sua rede de mentores. 

“A Endeavor tem clareza de que não conseguirá realizar a transformação sozinha e busca evitar ser autocentrada”, diz a diretora. 

Na frente de ligar os produtos e serviços amazônicos a compradores de outras regiões, ela cita exemplos práticos: conectar empresas de piscicultura da Amazônia com mercados consumidores em São Paulo (como Liv Up e Grupo Trigo) e ligar negócios locais de cosméticos e biotecnologia com fundos de inovação de grandes marcas, como o do Boticário. 

Já na frente de mentorias, a ideia é trazer referências e uma “mentalidade de escala”. Como o capital de investimento exige escala para ser aportado, a Endeavor planeja disponibilizar sua rede de mentores para ajudar os negócios locais de bioeconomia a acelerarem seu crescimento de forma consistente e se tornarem atrativos para investidores. 

Replicando o modelo

A Endeavor chegou ao Brasil em 2000, pelas mãos de empresários como Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marília Rocca. “Quando o termo empreendedorismo nem estava no dicionário”, lembra Tetê. Desde então, ajudou a profissionalizar o empreendedorismo por meio de mentorias e networking. 

A atual diretora é produto disso. Com o apoio da Endeavor, Tetê expandiu a Bcredi, uma fintech especializada em crédito com garantias, que foi vendida para a Creditas em 2021. 

Outros exemplos de startups que cresceram a partir deste apoio são o aplicativo da 99, a empresa de serviços financeiros Creditas e a plataforma de venda de móveis MadeiraMadeira.

Agora, para replicar o sucesso na Amazônia, é necessário o apoio de parceiros locais e que atuam na região. Entre os escalados para a missão estão Denis Minev, CEO da Bemol e investidor em projetos sustentáveis na região, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazôni (Idesam), Sebrae, Singulari, Instituto Arapyaú e o Impact Hub Manaus, unidade da rede global de desenvolvimento de empreendedores na capital do Amazonas.

Para a cofundadora do Impact Hub Manaus, Juliana Teles, trata-se de uma oportunidade de ir além da bioeconomia tradicional, tão frequentemente associada ao empreendedorismo amazônico. “Também precisamos pensar em aplicação de tecnologias, melhorias de logística e fortalecimento de cadeias produtivas para que o valor gerado permaneça na região, para inverter o histórico modelo extrativista”, diz.

Muitas Amazônias

A Amazônia abriga realidades de negócios variadas, em especial para negócios iniciantes. Mas há um denominador comum: é um ecossistema em formação. 

Segundo o Relatório Amazônia Legal 2025, do Sebrae Startups, os nove Estados amazônicos somam 2.773 startups. Destas, 62,9% das empresas estão nas fases iniciais de desenvolvimento (ideação ou validação), 66,3% ainda não apresentam faturamento e 78,6% são classificadas como microempresas. 

“São empresas em nível de maturação. Precisamos de casos de sucesso, que ao se consolidarem nacionalmente, terão impacto em como os produtos desenvolvidos na região são percebidos. Uma puxa a outra”, aponta Teles.

Isso não significa que todas as empresas só possuem valor se tiverem potencial de se tornarem gigantescas. Para ela, é preciso ter um equilíbrio entre o que chama de empresas de crescimento (de escala nacional e global) e empresas de profundidade (de impacto local e retenção de valor na região). 

“O açaí é comprado in natura e beneficiado por empresas de fora. Um extrativismo de baixo valor agregado para quem está na Amazônia. Quantos mais negócios estiverem estruturados, independente do tamanho, há menos chances dessa lógica se perpetuar.”

Inovação da floresta

A diretora da Endeavor Brasil acredita que já existem empresas de apelo global pavimentando o caminho para o reconhecimento do empreendedorismo amazônico.

A foodtech Manioca, por exemplo, transforma ingredientes amazônicos em produtos de prateleira prontos para consumo no varejo, como o tucupi preto, batizado de “shoyu amazônico”. 

Na área da logística, a Aeroriver desenvolve drones que voam baixo pelos meandros amazônicos, enquanto a Navegam opera uma estrutura multimodal de transporte de produtos que alcança municípios distantes e isolados.

Essas empresas estavam entre as participantes da primeira imersão – a Endeavor está planejando a segunda. “A iniciativa ajuda a tirar a Amazônia do isolamento”, diz Soon Hee Han, cofundadora da Amakos, que produz cosméticos com 99% da composição natural a partir de ingredientes da floresta, como a copaíba, o açaí e o sangue de dragão.

Segundo ela, a falta de recursos e conexões dos atores locais e a falta de conhecimento do resto do Brasil sobre a região acabam “enclausurando as grandes ideias”.

A empresa começou em 2021 embarcando na tendência clean beauty (beleza limpa, em tradução literal), quando as clean girls dominaram as redes sociais pós-pandemia e a filosofia do skincare com menos química e mais impacto socioambiental ganhou força.

O negócio ganhou tração com rapidez. Em um ano, com investimentos próprios, Han botou de pé a indústria em Manaus, buscou fornecedores de bioinsumos em cinco comunidades locais e saltou dos nove produtos iniciais para 48.

A loja da marca na Rua dos Pinheiros, em São Paulo, vive movimentada. A expectativa de Han é faturar R$ 3 milhões em 2026 e R$ 7 milhões em 2027.

“A Endeavor trouxe empresários de diferentes segmentos, mas não foi uma banca julgadora. Todos tiveram uma postura de admiração e de ouvir as dificuldades que enfrentamos. Foi um excelente começo.”