Palmeira de babaçu, com frutos. Matéria startup AmidoMato. Foto: Divulgação

O babaçu não é exatamente um recurso escasso. A palmeira domina 15 milhões de hectares do Meio-Norte do Brasil, do Maranhão ao Pará, passando por Tocantins, Piauí e Roraima. Ela rebrota em áreas desmatadas, coloniza pastagens e resiste a queimadas. Para pecuaristas, é praga. Para Eduardo Roxo, biólogo com 25 anos de experiência com bioativos da floresta, é oportunidade de negócio.

A lógica é simples, mas a execução é complexa: o coco do babaçu carrega quatro camadas. As amêndoas internas são há décadas alvo das quebradeiras, mulheres que por gerações batem o fruto à mão para extrair seu óleo vegetal. O resto vira descarte ou carvão. 

O mesocarpo, polpa branca intermediária entre a casca e a amêndoa, é rica em amido resistente, fibras e minerais. “Ele sempre teve uso insignificante, porque logo apodrece após a queda do fruto no solo”, explica Roxo. E é esse desperdício que a AmidoMato transformou em negócio.

A meta é transformar a farinha de babaçu em ingrediente industrial, competindo no mercado com amido de milho, de mandioca e de trigo por atributos técnicos e custo. 

A farinha é rica em amido resistente, fibra alimentar, minerais e antioxidantes; não contém glúten; apresenta sabor neutro; e pode substituir amidos modificados, corantes naturais e até cacau em determinadas formulações, com redução de custo. Além disso, tem menor pegada de carbono.

São com esses atributos que a AmidoMato convenceu uma multinacional americana a testar a farinha e quatro investidores a aportar recursos no negócio. 

Multinacional como cliente

A AmidoMato entrou no mercado com a lógica inversa da maioria das startups de bioeconomia. Antes de montar fábrica, assinar contratos com fornecedores ou captar investimento, a empresa começou vendendo a farinha. E uma farinha ainda em fase de pesquisas e testes.  

A multinacional americana Griffith Foods, fundada há mais de 100 anos, fornece molhos e sistemas de empanamento e temperos para gigantes como KFC e Subway em mais de vinte países. Durante um curso, Roxo apresentou a farinha de babaçu a um executivo da empresa no Brasil, Nicholas Costa, diretor regional de sustentabilidade para América Central e do Sul. “Levamos uma amostra para dentro da fábrica e os testes trouxeram resultados incríveis”, diz Costa.

A Griffith testou a farinha de babaçu como substituta parcial do amido de milho em seu molho barbecue e descobriu um bônus: além do seu rico valor nutricional, a cor natural da farinha eliminava completamente a necessidade do corante natural usado na formulação, ingrediente mais caro do produto. “Ela trouxe um baita equilíbrio para a formulação, por conta da sua viscosidade, e ainda reduziu custos”, diz Costa.

A multinacional comprou cinco toneladas do produto há cerca de quatro anos, antes mesmo de a AmidoMato nascer oficialmente. Os primeiros testes mostraram que a farinha tinha alta carga de contaminação microbiológica, mas o negócio foi fechado por ir ao encontro à estratégia de sustentabilidade da companhia americana. 

“Ela promove a agricultura regenerativa, apoia comunidades em regiões com baixo IDH e oferece benefícios nutricionais e funcionais importantes”, diz Costa. “É um ingrediente estratégico para os nossos objetivos.”

A Griffith adiantou recursos para que a AmidoMato tivesse capital de giro para comprar e processar a farinha bruta. Além disso, a multinacional, que conta com um time de pesquisa e desenvolvimento, conduziu mais de uma centena de análises microbiológicas ao longo do processo produtivo, o que seria inviável financeiramente para uma startup. 

Rodada de R$ 2 milhões

A parceria com a Griffith pavimentou o caminho para a captação de recursos. Com receita e o contrato com uma multinacional em mãos, a AmidoMato montou uma rodada de capital de R$ 2 milhões que reuniu quatro investidores. 

O primeiro foi João Pedro Solano, da Grão Venture Capital, gestora de São Paulo onde Roxo já trabalhava e onde nasceu a Mombora, startup de suplementos esportivos da qual Roxo também é cofundador.

Depois vieram os irmãos empresários e investidores amazonenses Denis e Ilana Minev, e a nutricionista Heloisa Guarita. Fundadora da RG Think Food, Guarita investiu por meio de seu braço de capital, o RG Futures, fundo focado em inovação alimentar. 

A maior fatia, R$ 1 milhão, veio da Amaz, aceleradora de negócios de impacto coordenada pelo Idesam que já acelerou 52 startups e investiu em 29. A AmidoMato foi a única selecionada da chamada de negócios realizada pela aceleradora no ano passado. 

A meta de Roxo para os próximos dois anos é chegar a 500 toneladas de farinha produzida por ano. O caminho passa por estruturar a cadeia do babaçu com controle de qualidade, rastreabilidade e processos padronizados da colheita ao produto final. Além da farinha, estão nos planos pré-misturas para o setor de panificação — que prefere comprar ingredientes já combinados. 

A médio prazo, a empresa quer implementar sistemas agroflorestais próprios no Maranhão, integrando a cadeia da matéria-prima.

Do cosmético à farinha

A história da AmidoMato não começa em 2024, quando foi fundada. Mas sim em 2007, quando a Natura decidiu substituir pós minerais e sintéticos por ativos da floresta. Roxo, então à frente da Atina, empresa de ingredientes cosméticos que cofundou e que se tornaria fornecedora da Natura para a linha Ekos, foi chamado para desenvolver o mesocarpo de babaçu como alternativa. 

O processo envolveu peneiramento ultrafino e, mais tarde, branqueamento da farinha, que variava de cor e causava inconsistência nas coleções de maquiagem. O produto virou patente e é consumido pela Natura até hoje.

De lá para cá, Roxo fortaleceu uma certeza: o universo de alimentos é ainda maior que o de cosméticos, e o babaçu – mais especificamente a farinha do mesocarpo – pode abastecer inúmeras demandas. Mas faltava estruturar a cadeia.

Durante seu mestrado em agronegócio, modelando financeiramente sistemas agroflorestais, o biólogo chegou a resultados econômicos do babaçu que ele descreve como “colossais”. Ele explica que, como a palmeira já existe no campo, eliminando oito anos de espera caso o plantio fosse necessário, “desde o primeiro ano você já tem o ciclo longo dando receita”. 

Isso virou a base da ideação da AmidoMato. “Nosso objetivo é tornar a farinha de babaçu um produto seguro, competitivo e disponível. Não queremos que ela fique limitada ao nicho de produtos da floresta.”

Gargalo a ser resolvido

A farinha de mesocarpo de babaçu não é novidade nas prateleiras. Cooperativas do Maranhão fornecem o produto para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A Mãe Terra, hoje controlada pela Unilever, também já a comercializa. O problema é que ninguém resolveu os gargalos que impedem a farinha de virar ingrediente industrial e ganhar escala, segundo Roxo.

O primeiro é a coleta. As quebradeiras pegam frutos caídos no chão, misturando cocos recém caídos com outros expostos por dias à umidade. Para a amêndoa, isso é indiferente: a casca dura a protege. Para o mesocarpo, exposto numa camada mais externa, é catastrófico. “Quando o coco cai e chove, ele já está contaminado no solo úmido”, explica Roxo. 

O resultado é uma farinha bruta com alta carga microbiana. Essa forma de coleta também faz com que teor de fibras, granulometria e coloração variem de lote para lote, e de região para região. Para a indústria alimentícia, que exige laudos, especificações técnicas e previsibilidade, é um produto que não serve.

A estratégia da AmidoMato não é controlar toda a cadeia, ao menos por enquanto. É ser o elo de padronização e qualidade que falta. A startup compra farinha bruta de dois fornecedores no Maranhão. Ela então passa por processo de beneficiamento em indústria parceira no Paraná, a partir de processo desenvolvido em conjunto com a EBS, tradicional fabricante brasileira de equipamentos para o setor de amidos.

O processo combina descontaminação, redução de carga microbiana e padronização de cor, granulometria e teor de fibras. Com laudo microbiológico em dia, a farinha pode ser homologada para uso no setor de alimentos. “Hoje, nosso papel nessa cadeia é padronizar essa farinha e entregar para a indústria sempre com a mesma qualidade”, resume Roxo.