Casco sem cracas: startup brasileira mira emissões ocultas dos navios 

Cascos de navios são protegidos contra cracas e outros organismos marinhos com tintas especiais carregadas de biocida e de um metal pesado. O problema não é cosmético: a bioincrustação interfere na hidrodinâmica epode elevar o consumo de combustível de uma embarcação em até 25%.

A BioRen, startup brasileira do grupo Lorinvest, acredita ter encontrado uma alternativa: pulsos elétricos que afastam as larvas antes que elas se fixem. Sem tinta, sem química e com um gasto de energia menor que o de uma lâmpada.

A tecnologia foi criada por Roberto Kessel, um engenheiro e inventor que estava buscando soluções para corrosão usando campos eletromagnéticos. Há cerca de dez anos, ele descobriu que uma combinação específica de frequência e potência de pulsos elétricos impedia a fixação de larvas.

A descoberta chamou a atenção da Lorinvest, gestora de investimentos da família Lorentzen, que criou a empresa de papel e celulose Aracruz. O interesse era natural: a Norsul, uma das maiores empresas de navegação do Brasil, é parte do portfólio da Lorinvest.

Em testes com embarcações da Norsul, o resultado foi inequívoco: o lado do casco protegido pelo equipamento ficava limpo; o outro, coberto de cracas.

O problema que a BioRen tenta resolver pode parecer específico, mas o impacto no clima não é: cerca de 9% do total das emissões de gases de efeito estufa do setor de navegação são causados pelo combustível extra gasto pelos navios para vencer o arrasto, segundo a Organização Marítima Internacional (IMO).

“Não se fala muito disso porque não existe tecnologia que resolva o problema com cuidado ambiental”, diz Luiz Cidade, CEO da startup.

Milhões de toneladas de CO2

A bioincrustação parece um problema menor até que se olhem os números. Qualquer embarcação em contato com água do mar acumula, com o tempo, uma camada de organismos — cracas, mexilhões, algas, coral.

No casco, essa camada compromete a hidrodinâmica, ou seja, o motor gasta mais óleo bunker para manter a mesma velocidade. O manejo eficaz dos cascos da frota global poderia evitar até 198 milhões de toneladas de CO2, um pouco mais que as emissões de toda a  Argentina.

Essa infestação não acontece só no casco. A água do mar circula por dutos internos para resfriar os motores. Essas tubulações podem ficar obstruídas por incrustações, causando superaquecimento, quebra de motores e paradas de manutenção não-programadas.

As soluções disponíveis até agora resolvem o problema criando outros. A mais comum são as tintas especiais conhecidas como “antifouling”. É um mercado de mais de US$ 2 bilhões por ano, dominado por tintas à base de cobre.

Carregadas de biocida e metal pesado, elas funcionam como uma espécie de sabão tóxico que vai se diluindo na água, liberando microplásticos e outras substâncias no oceano.

A IMO já baniu as tintas à base de certos compostos, e há pressão crescente para restringir o cobre. Além do problema da contaminação, muitas tintas perdem a eficácia antes de manutenções obrigatórias.

“Você contrata mergulhadores para fazer a limpeza, o que não é barato”, diz Cidade. “Eles fazem uma raspagem, que acaba tirando o que sobrava de tinta antifouling.”

 Pulsos elétricos

O equipamento da BioRen embute tecnologia patenteada pela empresa no Brasil (e em processo de avaliação no exterior). Mas a instalação é simples, diz Cidade.

Com dois equipamentos e oito pontos de conexão, é possível proteger 2 mil metros quadrados de casco. O sistema não exige manutenção nem atualizações.

A maior complexidade é adequar o sistema para cada navio, já que a maioria tem características únicas e exigem um desenho personalizado. Cidade vislumbra um dia em que a tecnologia venha “de fábrica”: seja integrada pelos próprios estaleiros.

O caminho até lá é longo. Só o mercado brasileiro já é uma grande oportunidade, diz o executivo. Pelo tamanho e por que a incrustação é um problema especialmente comum em águas tropicais. “Quanto mais quente a água e mais material vivo, mais bioincrustação. Na Baía de Guanabara, por exemplo, é muito agressivo.”

Um mercado inicial explorado pela BioRen é o da indústria petroleira. O Ibama impôs restrições sobre as atividades de monitoramento e controle do coral-sol, uma espécie invasora que se estabeleceu na costa brasileira e que pode causar desequilíbrios nos ecossistemas marinhos.

A inspeção e remoção manual pode chegar a R$ 15 milhões a R$ 20 milhões, segundo Cidade. A startup foi procurada pela francesa TotalEnergies para saber se a tecnologia da BioRen funcionaria também para o coral-sol.

“Eu disse: não sei, mas querem testar conosco? Eles aceitaram e fizemos um teste de um ano. O navio costumava voltar para o porto com algo entre 500 e 900 quilos de coral-sol grudado no casco. Com o nosso sistema, diminuímos em 90%”, afirma Cidade.

O resultado abriu portas. A startup venceu uma licitação da Petrobras para combater a bioincrustação de coral-sol e está instalando o equipamento em um navio-sonda da estatal para avaliação.

O sistema anticraca da empresa já foi colocado em cerca de cem embarcações, afirma o CEO. A empresa está procurando parceiros no exterior. A tecnologia funciona também para cracas que não falam português?

“É a mesma resposta para o coral-sol. Não posso dizer com certeza”, diz Cidade. “Mas nas conversas que tenho lá fora sempre ouço a mesma resposta: ‘Se você funciona no Brasil, funciona em qualquer lugar’.”