
A Comissão Europeia se dobrou à pressão de Alemanha e Itália e abandonou a proibição da venda de carros novos com motor de combustão interna a partir de 2035, em um dos maiores recuos de ambição climática do bloco.
O apelo das montadoras europeias é para continuar vendendo híbridos plug-in e extensores de autonomia que utilizam combustível, enquanto lutam para se adaptar a uma nova concorrência que disparou na frente na tecnologia de elétricos, como a americana Tesla e as chinesas BYD, GWM e Geely.
Segundo a proposta apresentada na terça-feira (16), em vez de exigir que os veículos novos vendidos a partir de 2035 tenham emissão zero a partir de 2035, a legislação obrigaria uma redução de 90% nas emissões de CO2, em relação aos níveis de 2021.
As montadoras compensariam os 10% restantes fabricando carros com aço de baixo carbono produzido na UE e incentivando a adoção de combustíveis sintéticos para veículos elétricos e biocombustíveis provenientes de resíduos agrícolas ou óleo de cozinha.
O plano também concede às montadoras um prazo de três anos, de 2030 a 2032, para reduzir as emissões de CO2 dos carros em 55% em relação aos níveis de 2021, enquanto a meta para vans em 2030 seria reduzida de 50% para 40%.
Cabo de guerra
A medida ainda precisa da aprovação dos governos da União Europeia e do Parlamento Europeu. Montadoras alemãs e italianas, potências do setor, lideraram os pedidos de relaxamento das regras. Do outro lado, Suécia e Espanha defenderam a manutenção do acordo.
“Abrir o mercado para veículos com motores de combustão interna, compensando as emissões, é pragmático e está em linha com as condições de mercado”, afirmou um representante da Volkswagen à Reuters. A empresa é a maior fabricante de automóveis da Europa em volume.
Dominic Phinn, chefe de transportes da organização não-governamental Climate Group, afirmou que as medidas representam uma “vitória trágica para a indústria tradicional em detrimento dos carros elétricos”.
“A flexibilização do plano de eliminação gradual dos motores a gasolina e diesel contraria as principais empresas da Europa, que estão investindo bilhões em frotas elétricas e precisam desesperadamente da estabilidade que elas proporcionam”, afirmou.
Restart no setor
Segundo a corretora Jefferies, a proposta sinaliza uma transição das ambições europeias de corte total de emissões para um sistema de conformidade mais flexível.
“É evidente que o setor automotivo global está entrando em um momento de reinicialização, em vez de seguir uma trajetória linear rumo à eletrificação”, disse à Reuters.
Massimiliano Messina, chefe das operações europeias da Nissan, afirmou em entrevista ao Financial Times que não espera uma desaceleração nas vendas de veículos elétricos como resultado das mudanças nas políticas.
“Se o objetivo [desta revisão] é garantir que a transição ocorra de forma equilibrada, sem causar impacto ao consumidor final, acho que isso será bem-vindo”.
Para William Todts, diretor executivo do grupo Transport & Environment, “a UE está ganhando tempo quando o próximo jogo já começou. Cada euro desviado para híbridos plug-in é um euro a menos gasto em veículos elétricos, enquanto a China avança cada vez mais.”