A startup que paga catadores pelo trabalho — não por latinhas ou garrafas

O Brasil avançou nos últimos anos em regras e incentivos à reciclagem, mas ainda recicla apenas 8% do lixo que produz. Desse total, quase tudo é resultado de trabalho informal e cooperativas mal remuneradas.

De olho nessa ponta, a startup de economia circular Solos conecta catadores a empresas e governos interessados em dar destino correto aos resíduos. 

O modelo se baseia na contratação de cooperativas e no pagamento pelos serviços prestados. Quem faz a coleta muitas vezes recebe apenas pela venda do material – e não pelo trabalho em si.

“A gente tenta inverter essa lógica, reconhecendo o serviço prestado. Sem ele, a reciclagem não vai acontecer”, diz Saville Alves, CEO e fundadora da Solos. 

Em oito anos, a startup baiana gerou renda incremental de R$ 6,6 milhões para cerca de dois milhões de catadores e cooperativas, com a destinação correta de 1,8 tonelada de recicláveis. 

A receita vem de contratos com empresas como Braskem, Ambev, Coca-Cola, Nubank e iFood, e governos como as prefeituras de Salvador, São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro.

A startup atua em três frentes: reciclagem em grandes eventos, sistemas inteligentes de coleta em cidades e ações de conscientização (como mutirões de limpeza, workshops e palestras).

A ideia de atacar esse problema surgiu em 2016, quando ela ainda estava na universidade. Alves  foi voluntária da Teto, organização sem fins lucrativos que trabalha para entregar moradias dignas a quem vive em favelas. 

“Nunca tive falta de saneamento ou de coleta de lixo. Quando você entra nessas comunidades, percebe que a reciclagem nem chega a ser uma discussão. O básico ainda não está resolvido. Foi isso que me fez entender a dimensão do problema”, diz. 

Um ano depois, ela se juntou com uma colega para participar de um programa de aceleração chamado Triggers, em São Paulo. A dupla tirou a Solos do papel com R$ 4 mil do bolso de cada uma. 

A startup nunca recebeu investimentos. Captou recursos em editais para testar iniciativas antes de colocá-las no mercado. 

Uma delas foi o Urban Ocean, programa ligado ao governo dos Estados Unidos, que destinou cerca de R$ 180 mil para avaliar um modelo de “delivery” da reciclagem em Salvador. 

A Solos também recebeu R$ 2 milhões da Lei de Incentivo à Reciclagem e R$ 1 milhão de patrocínio do banco do Nordeste. 

Saville não divulga o faturamento da empresa, mas afirma que atingiu o break-even (ponto de equilíbrio financeiro) no primeiro ano de operação. 

Reciclagem em grandes eventos

Uma das principais frentes da Solos é a operação de reciclagem em grandes eventos. A empresa estrutura centrais temporárias de triagem, fornece equipamentos para quem faz a coleta e organiza a atuação de cooperativas e catadores.

“A gente precisa montar toda a infraestrutura do zero, porque são espaços que não foram pensados para a reciclagem”, afirma Alves.

O modelo foi usado em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Cada cidade exige uma logística diferente. Em Salvador e São Paulo, predominam plástico e alumínio. Já no Rio de Janeiro, onde o consumo de bebidas em garrafas é permitido em algumas áreas, o volume de vidro é maior. 

Os materiais também têm valores diferentes. Em Salvador, o plástico costuma ser menos coletado. Os catadores priorizam o alumínio, que vale mais. Neste ano, a Solos criou uma bonificação de R$ 50 a cada 15 quilos de plástico coletados para incentivar a reciclagem do material. 

Além da logística, o modelo conta com práticas de melhoria das condições de trabalho, como distribuição de equipamentos de proteção, organização de pontos de apoio para alimentação e uso de crachás. 

“O catador já enfrenta uma série de barreiras no dia a dia. O crachá é algo que pode parecer simples, mas muda a forma como a pessoa é tratada e como ela se sente.”

A empresa também utiliza dados gerados nas operações para subsidiar políticas públicas. Em Salvador, por exemplo, as informações ajudaram a estruturar pontos de alimentação e espaços de acolhimento para filhos de catadores durante o Carnaval.

Neste ano, o Carnaval de Salvador entrou para o Guinness World Records como a maior coleta de latinhas do mundo. A operação, coordenada pela Solos em parceria com a Ambev e a prefeitura, somou 131 toneladas de recicláveis (latas, garrafas pet e outros materiais). 

Delivery da reciclagem

Outra frente da empresa é a construção de sistemas inteligentes de coleta para prefeituras. Um exemplo é o programa Roda, projeto de coleta seletiva porta a porta realizado em parceria com a Prefeitura de Salvador. 

Ele funciona como um “delivery” da reciclagem. Por meio de uma plataforma digital, moradores e empresas podem solicitar coleta pontual ou recorrente. Além de latinhas e garrafas, o serviço também recolhe eletrodomésticos pequenos e óleo de cozinha. 

Alves avalia que a legislação brasileira avançou ao estabelecer a responsabilidade compartilhada pelo lixo, mas ainda enfrenta dificuldades de implementação e não reflete as diferenças de poder ao longo da cadeia.

“A Lei de resíduos sólidos, que demorou dez anos para ser feita, ficou muito bonita, mas ainda tem dificuldades no operacional”, diz, 

Para ela, o principal entrave está na base: os trabalhadores. “Se a reciclagem não gerar renda e dignidade para quem está na ponta, ela não vai se sustentar no longo prazo.”

Outro problema é a ideia de responsabilidade compartilhada, diz. A legislação parte do princípio de que todos são responsáveis pelo lixo gerado. “Isso não é simétrico. A indústria decide a embalagem, enquanto o consumidor escolhe dentro de um conjunto limitado de opções. Isso precisa ser levado em conta.”