Como a 99 traz a experiência chinesa para eletrificar sua frota

Controlada pela gigante Didi, empresa de transporte de passageiros vai colocar 300 elétricos da BYD nas ruas de São Paulo

O carro elétrico D1, da montadora chinesa BYD
A A
A A

A 99, controlada pela gigante chinesa dos apps de transporte Didi Chuxing, está trazendo para passageiros e motoristas brasileiros um pouco da experiência do maior mercado de carros elétricos do mundo.

Desde o começo de julho circulam em São Paulo os primeiros 50 BYD D1 (foto), modelo desenvolvido pela líder global em carros elétricos para ser utilizado em corridas de aplicativo.

O plano é ter 300 em operação até setembro. A 99 tem 1 milhão de motoristas em sua plataforma. 

Por trás disso está a ambição da 99 de ser uma embaixadora da mobilidade elétrica no país – para quem está ao volante e também para os ocupantes dos bancos de trás.

Os carros são oferecidos em modelo de aluguel, numa parceria que envolve o banco Santander, a rede de concessionárias Dahruj e empresas do ecossistema de eletrificação.

O valor da locação mensal para o motorista é de  R$ 5.000, valor bem mais alto que o de um carro convencional. Mas a diferença se paga com a economia em combustível, diz Fernando Pfeiffer, diretor de estratégia do DriveLAB, a área de inovações da 99.

“Um motorista [que trabalha em tempo integral] roda 5 mil, 6 mil quilômetros por mês. Acima de 4 mil km o elétrico já faz sentido”, diz Pfeiffer.

O desembolso mensal com a conta de luz equivale a apenas 20% do gasto com gasolina ou etanol, segundo Pfeiffer. Ele afirma que o veículo elétrico é “a maior oportunidade de baixar o custo de operação do motorista”.

Para o passageiro, o preço da corrida não muda, pelo menos por enquanto. Mas Pfeiffer afirma que uma categoria de elétricos pode ser criada no futuro.

Sob medida para apps

O modelo D1 foi desenhado em conjunto por BYD e Didi mirando nos apps de transporte de passageiros.

O carro tem aproximadamente as dimensões do Jeep Compass, um SUV médio popular no mercado brasileiro. Mas, como o motor elétrico é menor, sobra mais espaço para quem está no banco de trás.

A porta direita traseira é deslizante e tem acionamento automático, e o carro traz embutidas tecnologias de segurança como sensores de colisão e leitura de faixas.

Os carros foram adquiridos pela Dahruj, que opera uma rede de concessionárias no interior de São Paulo, com financiamento do Santander.

Os locatários serão motoristas com bom histórico na plataforma, para garantir a qualidade do serviço e também para mitigar os riscos da operação, segundo Pfeiffer.

Entre 25% e 30% dos motoristas da 99 alugam carros para trabalhar. “O potencial de crescimento é muito grande”, afirma Pfeiffer.

A experiência chinesa

A 99 se apoia na experiência da matriz na China. A Didi chegou a concentrar 90% das corridas no país e hoje detém uma participação de cerca de 70%.

No maior mercado de carros elétricos do mundo, essa dominação se traduz em números enormes.

A Didi tem mais de 1 milhão de elétricos rodando nas ruas chinesas, diz Pfeiffer, e quase metade de todos os quilômetros rodados por veículos movidos a bateria ou eletrificados (como híbridos plug-in) na China são da empresa.

Hoje, quase a totalidade dos novos veículos que entram para a plataforma Didi são 100% elétricos. A companhia também integra uma rede de mais de 90 mil estações de carregamento e responde por cerca de 30% do volume de recargas da China.

O conhecimento acumulado no país é central nos planos da 99, afirma Pfeifer, mesmo com a incógnita sobre os rumos da descarbonização dos veículos leves no Brasil.

O governo e as montadoras indicam uma preferência pelos híbridos tradicionais com motor flex, aproveitando a infraestrutura estabelecida de produção e distribuição de etanol.

Mas BYD e GWM, fabricantes de carro chinesas que vão começar a produzir no país, devem apostar em modelos com motores 100% elétricos ou híbridos plug-in, que têm baterias carregáveis na tomada.

Pfeiffer diz que a empresa é agnóstica em relação à tecnologia. “Temos motoristas que se deslocam para outras cidades para trabalhar, então talvez um híbrido seja a melhor solução nesses casos.”

A companhia não tem uma meta pública de descarbonização de suas atividades. Pfeiffer afirma que o plano é chegar a mil carros com algum tipo de eletrificação até o fim do ano.

Em paralelo, a 99 criou em abril do ano passado uma aliança com empresas de vários setores ligados ao ecossistema de eletrificação, locadoras e bancos.

Os objetivos anunciados do grupo, batizado de Aliança pela Mobilidade Sustentável, incluem a marca de 10 mil carros elétricos ou eletrificados prestando serviço por meio da 99 até 2025 e 10 mil estações públicas de recarga.

Outra meta é ampliar a participação para 10% das novas vendas no mercado nacional.