Transições: como os sistemas mudam

A palavra transição tem sido cada vez mais usada para descrever as transformações do nosso tempo e ganhou particular relevância na agenda climática diante das profundas mudanças necessárias na economia, nas empresas e no setor financeiro. Falamos, por exemplo, em transição energética, transição para uma economia de baixo carbono e transição justa. 

No entanto, as transições atravessam, de forma muito mais ampla, os diferentes sistemas que organizam nossa sociedade. Mais do que um termo para nomear o momento que estamos vivendo, o tema deu origem a um campo de conhecimento e de prática dedicado a compreender como os sistemas mudam e como podemos influenciar sua direção. 

Esse campo ganhou forma nos anos 1990, quando pesquisadores passaram a investigar não apenas quais soluções poderiam responder aos desafios sociais, ambientais e climáticos, mas também o que seria necessário para transformar os próprios sistemas. É dessa convergência que emerge o campo das sustainability transitions, associado a autores como Arie Rip, René Kemp, Johan Schot, Frank Geels, Jan Rotmans e Derk Loorbach. 

A pergunta deixa de ser apenas “quais são as melhores soluções?” e passa a incluir outra, mais sistêmica, que é “o que precisa mudar para que novas soluções consigam prosperar e transformar o sistema?” 

Mudanças alteram elementos de um sistema. Transições reconfiguram o sistema. Um veículo elétrico, por exemplo, é uma solução de baixo carbono. Mas a transição da mobilidade depende também de infraestrutura de recarga, redes elétricas, cadeias de baterias e minerais, novos modelos de negócio, comportamentos, planejamento urbano, regulação e financiamento. 

Podemos, portanto, entender transições como processos de reconfiguração sistêmica que transformam as estruturas, relações e lógicas que sustentam determinado sistema ao longo do tempo. 

Como as transições acontecem? 

Uma das principais referências para compreender esse processo é a Multi-Level Perspective, desenvolvida principalmente por Frank Geels a partir dos trabalhos de Arie Rip, René Kemp e Johan Schot. 

Ela observa a interação entre o regime, a configuração dominante de tecnologias, instituições, mercados e comportamentos; os nichos, onde novas soluções e práticas emergem e se desenvolvem; e a paisagem, formada por forças econômicas, sociais, ambientais e geopolíticas mais amplas. 

À medida que pressões sobre o regime se intensificam e alternativas ganham força, podem se abrir janelas de oportunidade para sua reconfiguração. Mas a existência de soluções melhores não é suficiente, pois as estruturas existentes são sustentadas por capital, capacidades, regras, hábitos e interesses. Mudar um sistema implica, portanto, alterar não apenas tecnologias e práticas, mas também relações de poder e posições estabelecidas. Transições são, nesse sentido, processos políticos. 

Em Gambling on Development, o professor de Oxford Stefan Dercon mostra que países que avançaram em determinada trajetória de desenvolvimento estabeleceram um development bargain, um compromisso entre atores com poder, sustentado pela percepção de que aquela trajetória poderia gerar ganhos maiores do que a manutenção do status quo. A ideia oferece uma lente útil para as transições e nos leva a algumas perguntas. Quais interesses sustentam a configuração atual? Quem ganha e quem perde com sua transformação? Como tornar uma nova trajetória suficientemente atraente para mobilizar os atores necessários? 

Novas trajetórias, portanto, não emergem apenas porque existem soluções melhores. É preciso criar condições para que ganhem força, seja experimentando soluções, mobilizando capital, desenvolvendo capacidades, formando coalizões ou transformando regras. A boa notícia é que não precisamos apenas esperar uma janela se abrir. Podemos contribuir para abri-la. É justamente aí que o estudo e a prática das transições se tornam relevantes. 

Por que a ciência das transições é relevante? 

A ciência das transições nos ajuda a responder a algumas questões estratégicas. Diante de um sistema em transformação, onde estamos, para onde queremos ir e quando e como devemos nos mover? 

Há organizações e setores que não reconhecem a transição a tempo ou não sabem como responder a ela e acabam perdendo competitividade e relevância. Outros se movem tarde, o que torna a adaptação mais difícil e custosa, pois desenvolver competências, formar pessoas, transformar culturas e construir novos modelos leva tempo. O que poderia ser uma evolução gradual passa a exigir um salto abrupto. 

Outros conseguem evoluir junto com a transição. Enquanto o modelo existente ainda gera valor, experimentam, aprendem, atualizam portfólios e constroem capacidades para aquilo que está emergindo. Há também aqueles que ajudam a liderar a transição, desenvolvendo soluções, modelos e mercados que podem definir a próxima configuração do sistema. 

A ciência das transições pode nos ajudar a discernir o que preservar, o que transformar e o que começar a construir, considerando onde estamos no processo, nossos objetivos e o ritmo de evolução necessário. Assim, podemos nos mover de forma mais intencional antes que as circunstâncias nos imponham movimentos abruptos. 

Como podemos nos mover estrategicamente? 

As transições não seguem trajetórias lineares nem podem ser planejadas ou controladas de forma centralizada, pois resultam da interação entre múltiplos atores, forças e decisões ao longo do tempo. Mas isso não significa que sejamos apenas espectadores. Podemos compreender suas dinâmicas, explorar futuros e fazer movimentos capazes de influenciar sua direção.

Com o propósito de contribuir para o desenvolvimento do campo de estudos e práticas de transições no Brasil e transformar esse conhecimento em capacidade de ação estratégica, fundamos recentemente a Transitions. 

A partir de parcerias e aprendizados com pesquisadores e organizações pioneiras, combinados às nossas experiências e à realidade brasileira, identificamos oito movimentos que podem nos ajudar a compreender as transições, navegá-las e influenciá-las de forma mais estratégica. 

1. Mapear o sistema. Quais atores, padrões, regras, incentivos, interesses e relações de poder sustentam sua configuração? 

2. Compreender as dinâmicas de transição. O que pressiona o sistema? Quais alternativas emergem? Em que estágio estamos? Quem resiste à mudança e quem a acelera? 

3. Identificar pontos de alavancagem. Onde uma intervenção pode gerar efeitos que se propaguem pelo sistema? 

4. Explorar futuros e suas implicações. Quais são as incertezas críticas? Que configurações podem emergir? O que esses diferentes cenários significariam para as decisões que precisamos tomar hoje? 

5. Construir convergência sobre futuros desejáveis. Que futuro queremos ajudar a tornar possível? Como seria esse futuro, concretamente? Convergência não é consenso, mas uma direção compartilhada suficiente para orientar esforços. 

6. Construir rotas de transição. O que precisa acontecer para avançarmos na direção desejada? Que sequência de passos será necessária? Que condições, capacidades, regras e capital precisarão ser mobilizados? 

7. Tornar movimentos visíveis e coordenáveis. Quem precisa fazer o quê? Quais movimentos dependem de outros? Onde estão as lacunas? 

8. Agir, aprender e adaptar-se. Transformar rotas em movimentos coordenados, observar seus efeitos, aprender com a prática e recalibrar continuamente. Convicção na direção e flexibilidade na rota. 

Diante de tantas transformações simultâneas e interdependentes, é fácil nos perdermos na complexidade ou permanecermos presos ao que conhecemos. O estudo e a prática das transições podem nos ajudar a ganhar clareza, compreender onde estamos, enxergar possibilidades e fazer escolhas com mais consciência, intenção e direção. Não para prever ou controlar o futuro, mas para participar ativa e estrategicamente da construção do mundo que queremos tornar possível. 

* Marina Cançado é cofundadora e CEO da Transitions e atua há quase duas décadas na interseção entre transformação sistêmica, mobilização de capital e construção de convergências em torno de caminhos de desenvolvimento sustentável para o Brasil.

* Daniela Rogatis é cofundadora da Transitions e educadora. Atua junto a famílias empresárias em governança, legado, sucessão e formação das novas gerações. Fundou, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, o programa Legado, que reúne a juventude de famílias empresárias para se aprofundar nos desafios do século 21 e seu papel no Brasil.