OPINIÃO

Entre melhores livros do mundo, 12 brasileiros compõem seleção de sustentabilidade 

Tema será destaque na maior feira literária infantil do mundo; Livro ‘Submersos’ provoca o debate a partir das consequências dos vazamentos de petróleo no oceano

Entre melhores livros do mundo, 12 brasileiros compõem seleção de sustentabilidade 

Todos os anos, o júri internacional da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, na Itália, premia livros em cinco categorias fixas e define uma categoria especial. Em 2025, pela primeira vez, sustentabilidade ocupará esse lugar com uma seleção de 145 livros sob a temática “17 objetivos para um futuro melhor”, dedicada aos dezessete objetivos de desenvolvimento sustentável da agenda de 2030 das Nações Unidas.

A maior feira literária infantil acontece todos os anos na Itália. De 29 de março a 4 de abril, autores, ilustradores, editoras e organizações do mercado livreiro do mundo todo se deslumbram com a arte e com a beleza das obras dedicadas a todas as infâncias e fazem fama e dinheiro no centro de convenções de uma das mais antigas cidades do país.

“A literatura para crianças é uma ferramenta efetiva para introduzir desafios globais ao público jovem, dando às crianças o poder de criar um futuro sustentável e de fazer a diferença em suas comunidades desde muito cedo”, explica o material da feira. 

Descoberta colocada em prática pelo Reset há quase cinco anos.

Na triagem feita pelo júri este ano, há 12 livros brasileiros, sobre os quais conversaremos por aqui aos poucos. Vamos ao primeiro:

Submersos

Um ano depois de o mar ser tema de debates e exposição na Feira de Bolonha, volto a ele, com um dos livros escalados para a seleção inédita deste ano. A imensidão dos oceanos é diretamente proporcional à diversidade de abordagens e de temas a debater e a explorar. 

Equilibrando seriedade com doses de humor, ativismo e otimismo, Submersos, de Estevão Azevedo e Vitor Bellicanta, publicado pela Editora Caixote em 2025, traz à tona uma provocadora consequência dos acidentes com vazamento de petróleo no mar.

O Painel Dinâmico de Incidentes de Exploração e Produção (E&P) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indica mais de 25 mil incidentes desse tipo desde dezembro de 2011, quando começaram a ser contabilizados. Os incidentes reúnem os acidentes, definidos como eventos com dano, e os “quase acidentes”, com potencial de dano. Por dano, entende-se poluição ou danos ao meio ambiente e à saúde humana, prejuízos materiais ao patrimônio próprio ou de terceiros, ou interrupção das operações da instalação.

Submersos extrapola os efeitos desses incidentes sobre os animais e os humanos. 

Quando uma mancha escura de petróleo começa a se espalhar pelo mar, os animais vão se afastando até chegar à beira de uma cidade costeira. Aos poucos, deixam seu habitat natural e ocupam o espaço dedicado aos humanos. Adaptam-se aos meios de transporte e às moradias. Mas será que os humanos também se adaptam aos hábitos e necessidades dos novos vizinhos?

A convivência começa, mas baleias, polvos e leões marinhos não passam incólumes pelos olhares de reprovação e pelas reclamações mais explícitas decorrentes da “invasão”. No decorrer das páginas duplas, nos damos conta de que na vida agitada da cidade, todos estão em movimento e em direção a algum lugar: o Fórum da cidade. 

É somente aí, diante desse prédio, que se vê o primeiro vínculo entre os dois grupos. Alguns humanos também se preocupam com o futuro dos oceanos. Com cartazes nas mãos, reforçam o coro dos bichos que foram desalojados pelo vazamento do petroleiro.

Na audiência, que acontece embaixo d’água, há testemunhas manchadas de óleo, um grupo de advogados mascarados e ativistas humanos do lado do bem. Proferida a sentença, um novo arranjo se faz necessário para que a convivência e a amizade continuem.

Submersos é mais um belo exemplar de livros silenciosos, sem palavras. Imagens fortes, cheias de detalhes e encadeamento dinâmico entre os acontecimentos dispensam os diálogos e os textos narrativos. Paratextos, aquelas poucas palavras que fazem parte das imagens, dão indícios do rumo da história e contribuem para a construção do sentido. Por exemplo, a singela placa de um carro: MAR 2013.

O projeto de lei 6.969/2013, conhecido como “Lei do Mar”, está à deriva entre as correntes do sistema legislativo nacional. Foi apresentado na Câmara dos Deputados, seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) e voltou à pauta da Câmara onde aguarda votação e aprovação para seguir para o Senado. Enquanto isso, passaram-se 12 anos. A legislação propõe a criação da Política Nacional para a Conservação e o Uso Sustentável do Bioma Marinho (PNCMar), com o objetivo de estabelecer diretrizes e ações para a proteção e o uso sustentável dos recursos marinhos do Brasil.

Uma minúcia da ilustração pode ser a ponta de um imenso novelo. Um fio condutor para conversar com as crianças sobre como democracia, política e eleição estão conectados com a proteção do planeta e da vida de todos.

Fique atento a todas as ilustrações. Muitas vezes não são detalhes. Leitura de imagens (digitais ou não) é também, e cada vez mais, uma habilidade imprescindível para crianças, jovens e adultos. Por segurança e credibilidade, mas também pelo encantamento de poder presenciar tantos temas serem levantados sem palavras e com muita criatividade.

A conversa passa ainda pela variedade de contextos em que podemos discutir invasão ou a chegada do diferente. Que tal o exercício de analisar com cuidado a perspectiva de quem “invade” e de quem “é invadido”? Como se sentem um lado e outro? Será que as soluções encontradas para a convivência também são diversas? Pacíficas? Dependem da iniciativa de quem?

E o que as mudanças climáticas tem a ver com tudo isso? E o que a ação do homem tem a ver com as mudanças climáticas e, consequentemente, com tudo isso?

Submersos faz emergir um mundo de discussões complexas e para lá de urgentes.

Sobre os autores

Estevão Azevedo nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, e cresceu em São Paulo. É mestre em literatura brasileira pela FFLCH/USP e editor. Publicou, entre outros, o romance Tempo de espalhar pedras (Record, 2018), que veio a público pela primeira vez em 2014 e foi eleito o Livro do Ano pelo prêmio São Paulo de Literatura de 2015. Nunca aprendeu a nadar e quis trazer trazer os animais marinhos para perto de si, na cidade.

Vitor Bellicanta nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. É ilustrador, designer e agroecologista, apaixonado pela floresta e pelos oceanos. Criou o estúdio de design Casa Lavor.