
A certificação é o que torna os créditos de carbono produtos comercializáveis. Na Verra, que domina o mercado de créditos florestais, os mais comuns no Brasil, esse processo é caro, complexo e lento.
Para as empresas que estão no negócio do carbono, isso significa incertezas e atrasos para ter os ativos que serão vendidos a empresas que querem compensar suas emissões de gases de efeito estufa.
É essa vulnerabilidade da Verra que a Equitable Earth quer atacar. “Nossa tecnologia vai tornar o processo mais rápido e, no longo prazo, mais barato”, diz Thibault Sorret, diretor-executivo da certificadora, referindo-se ao monitoramento geoespacial remoto, uma das apostas da companhia.
A empresa anunciou recentemente uma rodada de financiamento de € 12,6 milhões (R$ 78,7 milhões), liderada por um family office americano (cujo nome não foi divulgado) e com o apoio de investidores que já haviam entrado em uma rodada anterior: o fundo alemão de impacto Aenu, e as gestoras de venture capital Noa e Localglobe, do Reino Unido.
Desafiar a hegemonia da Verra não é fácil.
Um dos obstáculos é obter selos independentes criados para dar mais segurança aos compradores. O mais conhecido deles é concedido pelo Conselho de Integridade para o Mercado Voluntário de Carbono (ICVCM).
Mas o mais importante é o reconhecimento do mercado. Apesar dos percalços do processo da Verra, as empresas que geram créditos de carbono florestal seguem usando a empresa americana porque ela tem credibilidade, histórico e muitas vezes é exigida pelos compradores.
Tech-first
A Equitable Earth promete concluir uma certificação em até nove meses. Para ser tão ágil, a empresa usa imagens de satélite para acompanhar da cobertura vegetal às mudanças na biomassa da área do projeto, um dado chave para a indústria do carbono.
“Em vez de termos pessoas em campo medindo árvores, fazemos tudo à distância, com sensoriamento remoto e algoritmos de machine learning”.
A base primária dos dados é a Chloris Geospatial, empresa de tecnologia espacial que utiliza inteligência artificial e informações de satélite para medir e relatar a quantidade de carbono armazenado na vegetação terrestre.
Com uma base de dados que oferece um histórico desde o ano 2000 (permitindo analisar mudanças no carbono ao longo do tempo), a Chloris é vista como uma fonte de alta integridade pelo mercado, capaz de examinar projetos específicos com precisão.
A tecnologia também ajuda a Equitable Earth a entregar um produto mais avançado, visto como um diferencial: além da redução de emissões, a metodologia da empresa também considera dados de degradação na área do projeto, o que pode garantir mais volume de créditos de carbono para o projeto.
Um exemplo prático: no caso de um incêndio em uma área do projeto, a metodologia não iria descartar toda a área queimada, mas sim aferir o quanto de carbono continuou estocado após a queima.
Novos processos
Sorret afirma que outra diferença importante está nos processos. Uma das críticas ao sistema da Verra é o uso de PDFs. A empresa americana, que não tem fins lucrativos e é uma das pioneiras entre as certificadoras, diz estar atualizando sua tecnologia.
A Equitable Earth afirma que os textos corridos longos são um dos principais fatores de lentidão no processo. O modelo proposto é o de preenchimento de campos, como um formulário.
As respostas são cruzadas com os critérios já pré-definidos. “Hoje, a certificadora lê tudo aquilo manualmente. Queremos acelerar o ritmo nas duas pontas”, diz o diretor-executivo.
Outra diferença fundamental no modelo da Equitable Earth é o cálculo do carbono gerado em um projeto. Isso é especialmente problemático em iniciativas que protegem áreas florestais e emitem créditos de acordo com o desmatamento que foi evitado (REDD+).
Houve uma série de denúncias de projetos desse tipo em que o desenvolvedor inflou artificialmente este número, tipicamente exagerando a pressão de desmatamento na região em que atua.
Esse potencial conflito de interesses é um dos principais calcanhares de Aquiles dos créditos REDD+. Sorret afirma que a Equitable Earth vai evitar esse problema fazendo ela mesma essa conta dos créditos que serão gerados.
“O desenvolvedor sempre vai tentar certificar o máximo de créditos que puder, claro. Mas se cuidarmos disso, evitamos acusações de conflitos de interesse”, diz.
A Verra afirma que esse problema será contornado com a nova versão de sua metodologia, que vai levar em conta mapas de uma jurisdição inteira (no caso brasileiro, um Estado) para acabar com o risco de projetos que “superfaturam” os créditos gerados.
No Brasil
Com ênfase inicial em projetos de conservação e restauração, a empresa não divulga os nomes dos clientes, mas Sorret afirma que aproximadamente um terço dos projetos está no Brasil.
Ele está em negociação com líderes do mercado, o que motivou a decisão de abrir um escritório no país. Isso deve acontecer no primeiro semestre de 2026.
Para a empresa, o Brasil representa uma grande oportunidade. Primeiro, porque há muitas áreas de florestas, muitas delas sob ameaça.
O país reúne características favoráveis ao conceito de core-benefits da Equitable Earth (um trocadilho com o conceito de co-benefícios, que indicam ganhos além do clima, como biodiversidade ou impacto positivo em comunidades).
“Temos três pilares principais nas nossas certificações: carbono, condições ecológicas, incluindo biodiversidade, e meios de subsistência. Não são elementos adicionais ou opcionais”, diz o diretor-executivo.
Além disso, Sorret aponta que o Brasil tem as melhores universidades e pesquisadores sobre o tema.
“E há também o conhecimento de comunidades tradicionais. Para nossa metodologia de conservação, consultamos mais de 140 líderes e grupos indígenas para integrar perspectivas tradicionais ao rigor científico”.
Há concorrência no horizonte: o governo brasileiro quer colocar de pé uma certificadora nacional, a Ecora, que conta com investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Bradesco e do Fundo Ecogreen.
O anúncio da nova empresa foi feito durante a COP30, em Belém, após meses de consulta pública do BNDES e do Ministério do Meio Ambiente.
Segundo uma pessoa que atua no mercado de créditos de carbono há muitos anos, a percepção é de que a Equitable Earth é uma empresa séria, que não terá dificuldades na obtenção de certificados ou de aceitação por parte dos grandes compradores de crédito.
Há, porém, dúvidas sobre a capacidade de levantar recursos, em especial considerando que a natureza do setor é de longo prazo, com projetos que duram mais de 50 anos. Apostar em uma nova entrante hoje significa correr o risco de a empresa não vingar, diz essa fonte.
Com € 25 milhões (R$ 157 milhões) levantados até agora, a empresa quer se estabelecer investindo em estrutura para certificar o máximo de projetos no tempo mais curto possível.
“Temos tremendo respeito pelo o que foi construído até aqui, mas a tecnologia permite que novos atores apareçam no mercado, capazes de movimentações mais rápidas. É isso que vai expandir e consolidar a indústria do carbono”, diz Sorret.