
Drones seis vezes maiores que os das concorrentes, que voam à noite e com custo de aplicação de pesticidas por hectare até 50% menor que a média.
Foi assim que a Pyka, empresa californiana de aviões não tripulados, conquistou um contrato com a SLC Agrícola no início de 2026.
É um passo a mais na estratégia da companhia de fincar bandeira no Brasil, com foco na pulverização aérea e automatizada de lavouras.
Em 2025, a Pyka vendeu 68 aeronaves no país, garantindo nove clientes novos. “A partir de 2030, projetamos vender entre 200 e 300 drones por ano no Brasil”, conta Volker Fabian, diretor comercial da Pyka, ao Reset.
Segundo ele, o ambiente regulatório favorável faz do Brasil um terreno fértil para a empresa. Em 2023, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) estabeleceu uma série de normas que simplificaram o uso de aviões não tripulados para fins agrícolas.
“É difícil não ficar impressionado com o pensamento progressista da Anac em relação ao tema. O agro é muito importante para a economia brasileira, então isso faz toda a diferença”, diz Fabian.
Diferenciais
Enquanto concorrentes chinesas como a DJI e a XAG voam com modelos de 50 a 100 litros de capacidade, o Pelican 2, principal modelo da empresa americana, pode carregar até 300 litros de produtos.
É um tamanho que, segundo Fabian, proporciona um custo de aplicação de pesticidas por hectare entre US$ 2 e US$ 2,50 (entre R$ 10 e R$ 14, aproximadamente).
“É entre um terço e metade do que a maioria dos fazendeiros paga atualmente. Mas não dá para comparar com os drones menores, que são bons para áreas pequenas e pulverização nas bordas [das plantações]. O foco do Pelican 2 são grandes áreas agrícolas”.
O Pelican 2 custa U$ 550 mil (aproximadamente R$ 2,87 milhões). O formato lembra um avião em versão miniatura, e o modelo precisa de uma pista – curta, de 180 metros – para decolar e pousar. A maioria dos drones levanta voo e pousa verticalmente.
Segundo a empresa, é a maior aeronave agrícola autônoma do mundo e a única 100% autônoma do tipo autorizada para operação comercial em escala.
Noite adentro
Outro diferencial é a capacidade de voar à noite. Por limitações técnicas dos sensores, que aumentam os riscos de segurança, a maioria dos aviões não tripulados só voa de manhã, na claridade.
Para os clientes da Pyka, um software que permite voos noturnos é um salto de eficiência.
Um exemplo é o aumento da chamada “janela de pulverização”: se os ventos estão muito fortes, sobrevoos para aplicação de pesticidas costumam ser adiados, o que pode atrasar o minucioso planejamento de quem produz em escala industrial.
“E há também condições climáticas melhores pela noite. Não é tão quente, os químicos são mais bem absorvidos. Os pesticidas ficam mais ativos à noite, especialmente quando há menos vento”, afirma Fabian.
Além disso, os insumos biológicos, muito populares no Brasil, podem perder a eficácia se a temperatura estiver muito alta.
Deu match
O mercado brasileiro é um match perfeito para a Pyka, segundo Fabian. As fazendas, por exemplo, são maiores que as dos Estados Unidos. E com muito mais pulverizações aéreas.
“O algodão, por exemplo, recebe de 15 a 20 pulverizações em uma safra, em um espaço de quatro meses. Nos EUA, são 6 ou 7”.
Isso é porque o clima tropical torna as plantações mais vulneráveis à pragas, o que faz do Brasil líder global no uso de pesticidas. Nos EUA, os invernos brecam o ciclo das pragas por meses.
Ele pontua que, no Brasil, é mais comum a empresa comprar a aeronave e contratar e treinar operadores, enquanto os Estados Unidos ainda alugam aeronaves por estarem atrás na implementação comercial e regulação.
A conversa com SLC Agrícola, primeiro contrato público da Pyka com uma companhia brasileira, começou há dois anos e meio, impulsionada pela resolução da Anac.
Em seis meses, foi definido o plano de testes do drone. Nos seis meses seguintes, o período demonstrativo gerou dados e resultados suficientes para justificar a compra.
A Pyka não divulga quantas aeronaves a SLC adquiriu, mas Fabian afirma que o comum é começar a operar um ou duas e expandir a operação aos poucos.
Fase de crescimento
Em 2025, a empresa dobrou o número de funcionários: eram 50, agora são 100. A Pyka levantou US$ 100 milhões com investidores de venture capital do Vale do Silício, como a Obvious, Piva e Prelude.
Os softwares das aeronaves são 100% desenvolvidos da porta para dentro, enquanto as peças são produzidas por terceirizados ao redor do mundo. A montagem ocorre na Califórnia.
A empresa também investe em aeronaves não-tripuladas para transporte de cargas, com foco em uso militar, o que deve responder por até um terço da receita da empresa até o fim da década.
Do ponto de vista de negócios, tudo está indo bem. Para melhorar, diz Fabian, só se a Anac flexibilizar mais uma exigência.
Hoje, a lei determina que os drones estejam no campo de visão do operador que está no solo. Ou seja, eles são autônomos, mas por questões de segurança, sua atividade deve ser observada por humanos.
É um assunto frequente nas conversas que ele tem com a agência reguladora.
“Já tivemos milhares de voos e nunca tivemos problemas que precisaram de intervenção do operador.”
Para ele, se o software controla as operações, é capaz de pousar rápido se necessário e tem um protocolo de respostas às emergências, não há necessidade da aeronave estar sendo vista pelo operador.
“Queremos que o avião possa voar para além do campo de visão.”





