GOVERNANÇA

PCC, Faria Lima e o dinheiro duvidoso legitimado nos círculos econômicos

No epicentro da lavanderia desbaratada pela Operação Carbono Oculto, Reag Investimentos cresceu exponencialmente nos últimos anos

No epicentro da lavanderia do crime organizado desbaratada pela Operação Carbono Oculto, Reag Investimentos cresceu exponencialmente nos últimos anos

A operação Carbono Oculto, deflagrada ontem, não só é a maior contra o crime organizado no Brasil até hoje, como expõe de forma inédita as conexões entre o dinheiro do crime e a Faria Lima. 

Os fatos não estão todos explicados e, ao que parece, entre as instituições do mercado financeiro alvo da megaoperação existiu um misto de duas coisas: 1) falhas de compliance, da obrigação de conhecer seus clientes e a origem do dinheiro que acolhem (know your client); e 2) esquemas deliberados de lavagem de dinheiro.

As informações divulgadas até agora indicam que uma das investigadas, a Reag Investimentos, funcionou como a principal lavanderia de dinheiro do esquema de adulteração de combustíveis e sonegação fiscal comandado pelo PCC. 

Segundo as investigações demonstraram, os recursos de origem duvidosa entravam por um lado em fundos de investimento e saíam ‘limpos’ de outro, na forma de ativos comprados. 

A Reag chamava a atenção no mercado por ter se convertido numa verdadeira máquina de compras. E isso a legitimou nos círculos de poder econômico. Quanto mais, melhor. Mais dinheiro, e mais rápido, é igual a mais sucesso, segundo a régua vigente.

Em apenas cinco anos, os fundos da Reag saltaram de um patrimônio de R$ 25 bilhões para R$ 340 bilhões, o que a coloca entre as 10 maiores gestoras de fundos do país.

A Reag ocupa escritórios em endereços luxuosos da Avenida Faria Lima e este ano listou ações na B3 via IPO reverso, protagonizando a icônica imagem (hoje apenas simbólica) de tocar o sino do pregão da bolsa. Nos últimos anos, foi objeto de inúmeras reportagens em veículos sérios de cobertura financeira e de negócios, suas marcas patrocinam eventos, complexo de salas de cinema (o Cine Belas Artes) e seu dono era próximo de diversos clubes de futebol. Além de ser diretor do Palmeiras, uma empresa sua, a Revee (não citada na operação da PF) é uma das investidoras por trás do ambicioso projeto de transformar o estádio do Canindé, da Portuguesa, numa nova arena multiuso na capital paulista.

O enredo de crescimento acelerado calcado em bases questionáveis guarda algumas semelhanças com a trajetória do Banco Master, protagonista de outro escândalo financeiro de 2025. 

No caso do banco de Daniel Vorcaro, a compra em série de ativos problemáticos foi financiada de forma lícita (mas imoral), se aproveitando de brechas legais. Tudo se deu por meio da captação via CDBs vendidos feito pão quente a investidores incautos pelas principais plataformas de investimento da Faria Lima. Vale dizer que, embora desavisados, os investidores pessoa física foram também traídos pela ganância. Afinal, quase ninguém resistia às altas taxas de juro oferecidas, sem questionar a razão de tanto risco. Risco e retorno, como se sabe, andam juntos.

O Master e Vorcaro adentraram os círculos de status econômico despejando dinheiro em comissões para parceiros de negócios e ações de marketing agressivas, como patrocínios a eventos e premiações, como a edição de 2023 do Person of the Year Awards Gala Dinner, realizado todos os anos em Nova York pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

(Para constar: coincidência ou não, o Master, de Vorcaro, e a Reag, de Mansur, são parceiros em ao menos uma dessas compras, a do Will Bank, um projeto de inclusão financeira promissor em sua origem, mas que não vingou e acabou desvirtuado. A Reag também é a administradora da maioria dos fundos do Master.)

A megaoperação Carbono Oculto é uma oportunidade para rever não apenas regras de controle do sistema financeiro, mas também como o dinheiro fácil e abundante é sedutor e, somado à vaidade, é capaz de turvar a capacidade – e a própria vontade – de discernimento e avaliação de riscos. 

E vai aqui um mea culpa: uma das vulnerabilidades do jornalismo de negócios é que as histórias ditas de sucesso são o nosso dia-a-dia. Detectar e comprovar malfeitos não é fácil, mas o caso serve também de lembrete para não baixarmos a guarda e mantermos a desconfiança e o espírito investigativo sempre alertas.

Em nota, a Reag afirma que colabora integralmente com as autoridades e que “não possui, nem nunca possuiu qualquer envolvimento com as atividades econômicas ou empresariais conduzidas por esses clientes.”