Painel com mapa e gráficos e cores indicando calor

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) enfrenta um impasse sobre a definição do calendário de divulgação de seus relatórios mais importantes. Pesquisadores afirmam que um grupo de países produtores de petróleo e emergentes, entre eles China, Rússia e Arábia Saudita, tenta travar o trabalho do principal órgão científico das Nações Unidas para a crise do clima.

Membros do painel se reuniram na semana passada em Adis Abeba, capital da Etiópia, para definir o cronograma de publicação dos relatórios de referência sobre a crise climática e o orçamento para a produção dos documentos. Mas a reunião terminou sem uma decisão final, e não há previsão para um novo encontro.

O plano original do painel era aprovar e publicar os relatórios até setembro de 2028, a tempo da COP33, que acontece em novembro daquele ano. A conferência vai promover a segunda edição do Global Stocktake, um mecanismo do Acordo de Paris que avalia o progresso coletivo dos países em direção às metas de limitar o aquecimento global a 1,5ºC. Os relatórios formulados pelo IPCC são a base científica para essa avaliação e, consequentemente, para o engajamento dos governos na convergência para os seus compromissos. 

O IPCC não produz pesquisas, mas reúne centenas de pesquisadores para fazer uma ampla análise dos estudos disponíveis sobre as mudanças climáticas e publicar três relatórios: um sobre as causas e a dimensão da crise, um sobre as vulnerabilidades de países e formas de adaptação, e um sobre medidas de mitigação necessárias para evitar que o problema se agrave. Em 2007, o IPCC foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz.

Os ciclos de formulação de relatórios costumam durar de cinco a sete anos. 

A publicação mais recente ocorreu entre 2021 e 2022, e o início do ciclo atual foi formalizado em 2023. Desde então, as reuniões do painel têm sido marcadas por debates acalorados sobre um tipo de decisão que, segundo um representante francês ouvido pela agência Reuters, costumava ser tomada em “minutos”. 

Um grupo de oito países que inclui China, Índia, Arábia Saudita, Irã e Rússia quer adiar a entrega dos relatórios para 2029, segundo o International Institute for Sustainable Development (IISD), organização que monitora de perto as discussões. 

A justificativa é dar mais tempo para incluir a contribuição de países pobres e em desenvolvimento. Eles afirmam que pesquisadores dessas nações têm mais dificuldade para publicar pesquisas e participar do trabalho do IPCC, que não é remunerado. 

Ao mesmo tempo, muitos países em desenvolvimento, em especial nações insulares que temem os efeitos do aumento do nível do mar, pedem urgência na publicação dos relatórios. A High Ambition Coalition, que reúne mais de 30 países, divulgou uma carta no início do evento em Adis Abeba cobrando a aprovação do cronograma original. 

“Separar o ciclo de políticas da ONU das evidências científicas fornecidas pelo IPCC comprometeria o esforço global para enfrentar a crise climática e enfraqueceria a cooperação internacional”, escreveram. 

Urgência na ciência, calma na política 

Em setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) admitiu pela primeira vez que a meta de manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5º C, como definido no Acordo de Paris, não é mais plausível cientificamente. Mas destacou uma série de medidas urgentes que podem reduzir os danos e reverter o aumento no futuro, entre elas a eliminação dos combustíveis fósseis até 2070.   

Membros do IPCC que defendem o cronograma original apontam para a presença de grandes produtores de petróleo, como Arábia Saudita e Rússia, entre os países mais vocais na tentativa de atrasar a publicação para depois da COP33. “O elefante na sala é a política”, disse Lisa Schipper, editora do IPCC. 

Na reunião, o Brasil e mais de 40 países se posicionaram a favor de a divulgação acontecer até 2028. 

Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, reconhece que alguns modelos científicos de avaliação podem apresentar vieses por terem sido desenvolvidos pelo Norte Global, mas diz que isso deve ser solucionado durante a formulação do relatório, e não com seu adiamento.

“É extremamente preocupante que a questão da desigualdade estrutural esteja sendo instrumentalizada por alguns grandes países em desenvolvimento”, disse Angelo ao jornal britânico The Guardian.  

O IPCC diz que tem atuado para tornar a avaliação científica do órgão mais inclusiva. No ciclo atual, mais da metade dos autores principais e editores são de países em desenvolvimento, e os próximos relatórios vão incluir capítulos sobre financiamento climático e danos irreversíveis a países, segundo o presidente do painel, Jim Skea.

Skea afirmou em comunicado que “alcançar o consenso no cronograma dos relatórios é vital para fornecer evidências científicas confiáveis para orientar as políticas climáticas nacionais”. Uma nova reunião será convocada para tentar resolver o imbróglio, mas ainda não há data. 

Embora os relatórios do IPCC sejam majoritariamente científicos, alguns documentos, como um sumário executivo, precisam ser aprovados por países envolvidos. O painel tem 195 países-membros.  

Um dos apoiadores do adiamento, a China avalia sediar a COP33, justamente a que vai apresentar o Global Stocktake. O país afirmou em seu plano nacional estratégico divulgado em agosto que pretende adotar um protagonismo maior no debate climático global. Representantes chineses minimizaram a necessidade de o Global Stocktake previsto para 2028 ter como base os relatórios científicos. 

O IPCC também enfrenta dificuldades orçamentárias desde que os Estados Unidos, um financiador relevante do órgão, deixou o painel e o Acordo de Paris em 2026, após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.