Falta muito dinheiro para que o mundo se adapte ao novo clima, diz ONU

Novo relatório aponta que fluxos financeiros para países pobres deveria ser de 10 a 18 vezes maior que o atual

Falta muito dinheiro para que o mundo se adapte ao novo clima, diz ONU
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Da seca na Amazônia às enchentes na Argélia, os desastres causados pelo aquecimento global estão se acelerando no mundo inteiro. Mas o dinheiro destinado às preparações necessárias para um clima em mutação está minguando, segundo um novo levantamento global do Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma).

Os recursos necessários para ações de adaptação climática nos países em desenvolvimento são de 10 a 18 vezes maiores que os fluxos financeiros atuais, segundo a estimativa do Pnuma.

Em dólares, os requerimentos ficam entre US$ 194 bilhões e US$ 366 bilhões por ano. “As ações para proteger as pessoas e a natureza é mais urgente do que nunca”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, em nota. “Vidas e meios de subsistência estão sendo perdidos e destruídos, e os mais vulneráveis sofrem mais.”

Lançado um mês antes do início da COP28, o documento “Lacuna de Adaptação 2023: Subfinanciado e Mal Preparado” vai servir como subsídio para a conferência do clima, que este ano acontece em Dubai (Emirados Árabes Unidos).

Muitas das atenções das COPs são voltadas para a mitigação – ou a redução das emissões de gases de efeito estufa, no jargão da diplomacia.

Mas os impactos da mudança climática já estão acontecendo, como provam os inúmeras tragédias recentes. E, mesmo que o mundo abandonasse os combustíveis fósseis hoje, os efeitos continuariam sendo observados por muito tempo, pois o CO2 permanece centenas de anos na atmosfera.

A adaptação climática pode tomar várias formas. Em regiões tipicamente atingidas por tempestades, como o Sudeste brasileiro nos meses de verão, as medidas podem ir de sistemas de alerta aos moradores de encostas até a relocação de famílias.

No Amazonas, atingido por uma estiagem histórica nas últimas semanas, uma das propostas que têm sido discutidas é a pavimentação da BR-319. A baixa dos rios isolou comunidades inteiras e causou um apagão na economia do Estado, que depende do transporte fluvial.

Outras ações têm horizontes mais longos. O governo espanhol vai investir € 2,2 bilhões em plantas de dessalinização e reuso de água. A frequência e a intensidade das secas representa uma ameaça de longo prazo para os agricultores do país.

Na maior parte do mundo, programas com essa ambição – e esse orçamento – só podem virar realidade com ajuda externa. O problema é particularmente grave nos países menos desenvolvidos, em geral já sobrecarregados por dívidas.

“Os custos estimados para a adaptação são significativamente mais altos que os cálculos anteriores”, afirma o relatório – e eles tendem a continuar aumentando. Os investimentos necessários globalmente para a adaptação ficam entre 0,6% e 1% do PIB combinado dos países em desenvolvimento.

A falta de preparo resulta em outro problema, potencialmente mais grave: as perdas econômicas com os eventos climáticos extremos.

As 55 economias mais vulneráveis ao clima sofreram perdas de mais de US$ 500 bilhões nas últimas duas décadas. A discussão em torno de um fundo para dar conta de perdas e danos climáticos dominou a COP27 e deve ser mais uma vez um dos pontos de atrito na conferência deste ano.

Cada dólar investido em medidas de adaptação em regiões costeiras sujeitas a inundação, por exemplo, representa uma economia de 14 dólares em danos posteriores, afirma o Pnuma.