Lukas May, da Isometric

A certificadora de créditos de carbono britânica Isometric captou US$ 40 milhões (aproximadamente R$ 210 milhões) para investir na expansão do uso de inteligência artificial, usada para acelerar o processo de certificação.

A empresa chegou ao Brasil há pouco mais de um ano, quando ampliou a atuação para soluções baseadas na natureza, ramo que inclui a preservação e restauração de florestas. 

Mais recentemente, foi notícia quando a primeira grande companhia de reflorestamento abandonou a certificadora americana Verra, que domina este mercado. Quando a Mombak decidiu migrar seu principal projeto de reflorestamento da Verra para a Isometric, o sinal foi claro. 

O diretor de produtos da Mombak, Dan Harburg, disse ao Reset na época que a maior velocidade da Isometric para a certificação dos créditos foi determinante, pois garante melhor previsibilidade para os negócios.

A principal concorrente da Mombak, a Re.green, também já possui um projeto sendo avaliado pela Isometric. Outras desenvolvedoras brasileiras estão próximas de anunciar a migração, diz Lukas May, diretor comercial da Isometric, sem revelar nomes. 

Hoje, a Isometric possui dez projetos cadastrados para certificação no Brasil e a expectativa é dobrar esse número em breve.  “O Brasil foi o país para onde viajamos mais vezes no último ano”, diz May.

A rodada atual de investimento na Isometric foi liderada pela AVP, antiga AxaXA Venture Partners, da seguradora francesa de mesmo nome. 

A empresa havia levantado US$ 25 milhões (aproximadamente R$ 130 milhões) em uma rodada anterior, em 2023, que incluiu as gestoras Atomico, do cofundador do Skype, o sueco Niklas Zennström, além da Plural Capital e Lowercarbon Capital. A empresa tem hoje 24 metodologias disponíveis, 209 projetos ativos e cerca de 200 clientes. 

Velocidade

Desenvolvedores de projetos de restauração florestal ouvidos pelo Reset, que pediram para não serem identificados, afirmam que os processos iniciais da Isometric demoram cerca de metade do tempo em comparação com os da Verra. A verificação e certificação de créditos pode ser concluída em menos de três meses, em comparação à média de 18 meses da concorrente.

A Isometric lista alguns números: novos projetos podem ir da submissão à certificação dos primeiros créditos em 60 dias. A avaliação inicial de elegibilidade, que verifica se o projeto se encaixa nos protocolos da empresa, leva menos de uma semana. A certificação mensal de créditos já é padrão para todos os fornecedores na plataforma, e a Isometric afirma trabalhar para reduzir esse ciclo para menos de cinco dias.

“As verificações da Isometric incluem auditorias em campo quando necessário, mas são majoritariamente remotas, exceto na validação inicial e primeira verificação, que exigem checagem presencial”, disse um desenvolvedor.

Ele enfatiza a importância de calibrar bem os dados enviados à plataforma. Como a maior parte das medições é feita remotamente, qualquer imprecisão nas métricas de estoque de carbono, a “régua” que estima quanto CO2 está armazenado na floresta, corre o risco de se propagar para a contagem de créditos.

O diretor da Isometric diz que a resposta está na escala. Quanto mais projetos na plataforma, mais dados acumulados e mais robusto o processo.

Para Ana Carolina Szklo, especialista em créditos de carbono do painel de especialistas da UNFCCC, braço climático da ONU, a entrada de novos atores é positiva, pois “a Verra exerce quase um monopólio e isso nunca é bom”. Mas há ressalvas. 

“O mapeamento de satélite ajuda demais, mas tem um risco do modelo não prever todas as visitas in loco necessárias”, diz. Ela afirma que o Brasil tem muitas particularidades que exigem intervenções que extrapolam as atribuições do sensoriamento remoto, como questões fundiárias, por exemplo. 

“Mas é um modelo de negócios interessante. Quanto mais você tentar sair do conflito de interesse, melhor. Mas é difícil saber qual é a melhor fórmula e que seja totalmente isenta.”

Nativa digital

Fundada há quatro anos, a Isometric é uma “nativa digital”, empresa que já nasceu com tecnologia como base, sem o legado analógico de certificadoras mais antigas. 

Em uma analogia com a revolução que a tecnologia fez no mercado bancário brasileiro: seria como comparar aplicativos de fintechs que surgiram na última década com os aplicativos dos bancos tradicionais, que tiveram que se adaptar à tendência.

O CEO e fundador da Isometric, Eamon Jubbawy, já havia criado antes a Onfido, empresa de verificação de identidade e dados financeiros por IA usada por bancos como HSBC e Santander. May veio da empresa de pagamentos Wise, onde foi chefe de expansão global, e passou pela área de comércio exterior do governo britânico.

“O envio de anexos de PDFs via e-mails ainda é um gargalo no mercado de carbono”, afirma o diretor da Isometric. O processo tradicional é lento.

O desenvolvedor passa meses elaborando um documento extenso, de texto corrido. Ele vai para o Organismo de Validação e Verificação (VVB, na sigla em inglês), entidade independente responsável por auditar projetos e garantir que eles seguem as regras metodológicas e os padrões exigidos pelos programas de certificação. O VVB discute com a certificadora, que pode devolver com pedidos de correção. E então o ciclo recomeça. 

Na Isometric, o processo começa com o preenchimento de dados na plataforma. A lógica de “responder questionário” se assemelha à Equitable Earth, outra concorrente high-tech da Verra. 

O software sinaliza o que está de acordo com a metodologia ou rejeita o projeto se os dados não se encaixarem nos critérios, com inteligência artificial coletando e analisando pontos de dados, desde leituras de sensores e dados de satélite até registros da cadeia de suprimentos e resultados de laboratório, sinalizando discrepâncias e destacando os casos que necessitam de avaliação especializada. Os dados de quantificação remota são baseados nas medições em campo.

A empresa tem 35 engenheiros de software e 20 cientistas internos entre seus 80 funcionários. Para May, a automatização garante que os cientistas se dediquem às decisões complexas, em vez de perderem tempo em tarefas manuais de rotina. “Isso é crítico para dar escala ao mercado, porque precisamos certificar bilhões de créditos na próxima década. Quem tiver a infraestrutura para fazer isso com rapidez e credibilidade terá uma vantagem.”

Quem paga a conta

O modelo de negócio da Isometric é diferente do visto no setor. Na prática de mercado é a desenvolvedora do projeto quem arca com o custo da certificação. Na Isometric, quem paga é o comprador dos créditos, como Google, Microsoft e JPMorgan.

A ideia é evitar conflitos de interesse. “Quem mais sofrerá com problemas de reputação será o comprador se os créditos se revelarem falsos”, diz May. 

O raciocínio é o seguinte: se a receita da certificadora depende de quem ela audita, o desenvolvedor do projeto, há um incentivo implícito para certificar mais créditos. A empresa também cobre, dentro de sua taxa, o custo do VVB.

A taxa cobrada pela Isometric é de entre US$ 2 e US$ 3 por crédito de carbono (cada um equivale a uma tonelada de CO2 removido). Ela é mais alta que a da Verra, que gira em torno de US$ 0,50 por crédito. May argumenta que a comparação direta não é possível, uma vez que o custo do VVB não está incluído no preço da concorrente. Segundo ele, a agilidade de emissão alivia, no longo prazo, o custo de manutenção dos projetos. 

“Reduzimos custos de fluxo de caixa ao certificar créditos mais rápido, o que permite mais agilidade na sua emissão. Isso pode cortar meses de capital de giro, um dinheiro geralmente mais caro.”

O modelo cria o que a empresa chama de “banco de fornecedores”, um catálogo de projetos que as compradoras consideram confiáveis o suficiente para financiar a certificação. Quanto maior o catálogo, mais atraente a plataforma se torna. Segundo May, ter muitos projetos certificados não é apenas crescimento: é o próprio produto.