O jeans sustentável existe. Por que ele ainda é exceção?  

Difícil encontrar um brasileiro que não tenha uma (ou provavelmente muitas) peças de jeans no armário. O país produz cerca de 280 milhões de peças por ano, o terceiro maior produtor mundial de denim. Considerado um dos tecidos mais versáteis e democráticos na moda por atravessar gerações, estilos, classes sociais e gêneros, ele é também um dos maiores calos do setor. 

Uma calça jeans consome entre 3 mil e 10 mil litros de água ao longo de sua vida — desde o cultivo do algodão até o descarte. Além do imenso gasto hídrico, há o impacto negativo do uso de corantes sintéticos, metais pesados e produtos químicos como permanganato de potássio e formaldeído, amplamente usado nas lavagens. 

O que é feito dele após sua vida útil é outro problema: o jeans demora cerca de dez anos para se decompor, em aterros sanitários. 

Para minimizar este impacto, a indústria da moda tem buscado soluções. Fibras recicladas, algodão regenerativo, lavagem com ozônio e corantes naturais e laser para tingimento e desgaste das peças são algumas delas. Nenhuma, ainda, usada em larga escala.

A mais recente é o uso de elastano produzido a partir da cana-de-açúcar. Em março, a Riachuelo, gigante do varejo brasileiro e dona do maior polo têxtil da América Latina, lançou o primeiro jeans feito no país com esse elastano. 

“Em um setor como o da moda, em que quase 90% das emissões estão ligadas à cadeia de fornecimento da matéria-prima, aos materiais e tecidos, a grande inovação sem dúvida está na fibra”, afirma Taciana Abreu, diretora de sustentabilidade da empresa. “É para ela que precisamos olhar.”

A fibra é produzida pela Creora, marca da sul-coreana Hyosung TNC, maior fabricante de elastano do mundo. Batizada de regenBIO, ela usa biomassa vegetal no lugar dos derivados de petróleo na sua composição. “A primeira versão que fizemos, em 2022, foi a partir do milho”, explica Jessé Moura, representante da Hyosung no Brasil. 

O regenBIO reduz em 20% as emissões de CO₂ na versão com 70% de biomassa e em até 55% na versão com 98% de biomassa, comparado ao elastano convencional. Além disso, reduz o consumo de água em 50%, a emissão de substâncias que degradam a camada de ozônio em 48% e a acidificação em 37%. 

Maior custo

O produto, no entanto, custa caro. O elastano convencional está na faixa de US$ 6,50 o quilo. O de biomassa custa até US$ 12. Como o elastano geralmente representa apenas 1% da composição de uma calça jeans, Moura calcula que o impacto no preço final seria de cerca de 5 centavos por peça.

Abreu diz que o impacto é maior, mas a Riachuelo não divulga quanto. Além do elastano de cana, os jeans da coleção sustentável levam 86% de algodão com certificação ABR – Algodão Brasileiro Responsável, conferida pela ABRAPA (Associação Brasileira de Produtores de Algodão); 13% de viscose feita com 20% de fio reciclado, fornecida pela Lenzing, empresa austríaca líder global na produção sustentável de fibras de celulose a partir de fontes renováveis de madeira.

Para não aumentar o preço final nas lojas, a diretora explica que “dividiu” a conta. “Cada elo da cadeia entrou com um pouquinho, absorveu parte da sua margem.” A coleção Pool Loop chegou ao mercado com 10 mil peças com o elastano da cana — dois modelos de calças femininas, duas masculinas e uma jaqueta — a R$ 179 cada. Os preços dos demais modelos da marca variam de R$ 129 e R$ 179. 

Não aumentar o valor final para o consumidor, segundo Abreu, é fator fundamental nas decisões das grandes varejistas de moda. Uma pesquisa recente realizada pela Riachuelo mostrou que sustentabilidade ainda não é fator de decisão de compra para seus clientes. “Ele é nice to have (bacana ter), gera empatia e ajuda a construir reputação. Mas na hora de comprar, escolhe-se o mais barato”, diz a executiva.

Investir em novas tecnologias na busca de um jeans mais sustentável representa uma queda-de-braço com os modelos produzidos na Ásia. E com o fim do “imposto das blusinhas”, alíquota de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 recém revogada pelo presidente Lula, essa disputa fica mais difícil. 

“Sem dúvida temos o desafio do preço”, afirma Abreu. “Ele é um imenso limitador. Uma marca de jeans premium tem muito mais margem para absorver o custo de inovação de uma peça sustentável. Nós, não.”

Laser e ozônio

Uma dessas marcas de jeans premium sustentável é a catarinense Damyller, que se autointitula produtora do “jeans mais sustentável do país”. Cerca de 80% das 1 milhão de peças fabricadas pela marca em 2025 usaram inovações ecoeficientes. Uma calça da linha Eco com vincos frontais feitos com laser, por exemplo, custa em torno de R$ 500. 

A Damyller utiliza o laser, hoje uma tecnologia amplamente utilizada no beneficiamento (lavagem, tingimento e acabamento) do jeans, há quase duas décadas. “Ele evoluiu muito de lá para cá. A primeira máquina que compramos, em 2008, levava 2 minutos para beneficiar uma peça. Em 2010, passou a 1 minuto e hoje são apenas 20 segundos”, diz Pedro Daminelli, gerente de sustentabilidade da empresa. 

A marca catarinense também foi pioneira no uso de ozônio na lavagem das peças, a primeira empresa no Brasil a trabalhar com o sistema Atmos, da empresa espanhola Jeanologia, referência mundial no desenvolvimento de tecnologias ecoeficientes para o setor têxtil.

Em vez de usar lavadoras de água convencionais para dar às peças um visual “usado e envelhecido”, a tecnologia utiliza lavadoras de ar que extraem oxigênio da atmosfera e o convertem em ozônio para uma abrasão controlada e sem uso de pedras (o processo original utiliza pedra-pomes nas lavagens para o desgaste, daí o termo stoned para alguns modelos). Segundo a Jeanologia, o ozônio diminui o consumo de água em 96% e o de produtos químicos em pelo menos 62%. 

Além do impacto ambiental, o ozônio também diminuiu consideravelmente o tempo de produção. “Um jeans de lavagem clara levava cerca de três horas e meia para chegar ao tom desejado. Hoje, são 54 minutos”, diz Daminelli.

Tanto o laser quanto a lavagem com ozônio são tecnologias atualmente utilizadas pelas grandes varejistas de moda, como C&A, Renner e Riachuelo.  

O desafio da escala

Mesmo com avanços reais, a proporção de peças produzidas com tecnologias sustentáveis ainda é pequena, fato que não escapa de críticas. A Riachuelo lançou 10 mil peças com o elastano de cana-de-açúcar. A empresa não divulga o número de peças jeans produzidas, mas afirma que são 15% das cerca de 37 milhões de peças no geral, no ano passado. 

Numa matemática básica, 10 mil dentro de um universo de cerca de 5 milhões de peças jeans representam cerca de 0,2%. Como 20% do jeans da empresa leva elastano (os modelos chamados strech), essa proporção sobe — mas não é, nem de longe, representativa da operação total.

“A gente ainda enfrenta um problema de falta de disponibilidade de matéria-prima sustentável em escala e com infraestrutura”, justifica a diretora da Riachuelo. “Por isso, a única saída é o varejo começar pequeno, ajudando a estruturar as cadeias para um aumento gradativo.” 

Para a executiva, uma coleção em loja com QR code indicando a rastreabilidade completa de cada peça, com detalhes sobre o tecido usado, vai além de vender sustentabilidade. “Estamos testando e fomentando uma base de fornecimento, validando um processo, educando o nosso próprio time de compras, designers e, quem sabe, provocando a cadeia inteira a seguir o caminho.”

Enquanto não se chega lá, a conta ambiental de cada calça no armário continua alta.

* Texto atualizado em 22 de junho, às 17:15, para corrigir informação sobre o algodão da composição dos jeans sustentáveis da Riachuelo. O algodão utilizado tem certificação ABR, mas não é agroecológico, como informado anteriormente.