Cristiano Ronaldo, Messi e Vini Jr.

A corrida pela taça mais cobiçada do futebol não é a única promovida pela Copa do Mundo a cada quatro anos. Em todo o Brasil, crianças e adolescentes correm para as bancas de jornais para completar o álbum de figurinhas do torneio.

São cerca de 11 milhões de figurinhas impressas por dia pela Panini, que produz o álbum. Mas estampar os rostos de estrelas como Messi, Cristiano Ronaldo, Vini Jr. e Mbappé no álbum não é tarefa fácil. As figurinhas mais raras incentivam a compra de mais pacotes — e o aumento na geração de um lixo difícil de reciclar. 

Há cerca de 30 anos, um fornecedor de aparas (sobras de papel) notou um material branco no lixão: o liner, aquela tira de papel que fica atrás de todo rótulo ou etiqueta autoadesiva, e que acaba descartada. Ele levou o material para uma fábrica de papel. A resposta foi decepcionante: o material não era reciclável, por causa do silicone que reveste o liner para permitir que a etiqueta se destaque com facilidade. O silicone contamina o processo de fabricação, entope telas e filtros, inviabiliza a produção.

Daniel Lauzid começou então uma pesquisa intensa para desenvolver um processo químico que neutralizasse a ação do silicone, sem removê-lo. Assim nasceu a Polpel, há 13 anos, que se diz a única empresa da América Latina a reciclar liner sob o conceito de economia circular. 

Liner em todo lugar

O liner está em tudo: no shampoo no banheiro, no queijo na bandeja do supermercado, no medicamento na farmácia. O rótulo vai para o produto. O liner fica na indústria e segue para o lixo.

O Brasil consome cerca de 3.800 toneladas de liner por mês, segundo a associação do setor. Isso corresponde a 75% de todo o liner consumido na América do Sul, que representa 4% do mercado mundial. O índice global de reciclagem desse material não chega a 1%. A Polpel processa em média 350 toneladas por mês, menos de 10% do que é gerado apenas no Brasil.

“O gargalo da Polpel é a captação do material. Cliente a gente tem, o material é bom, todo mundo quer. Mas a matéria prima está muito dispersa em um território muito grande”, diz Ailton Alves, diretor executivo da empresa.

Com 47 funcionários, em 2025 a companhia faturou R$ 10 milhões, 15% a mais que em 2024, e processou 3.206 toneladas de liner no ano.

Tecnologia confidencial

O processo de neutralização do silicone desenvolvido pela Polpel é protegido como segredo industrial, deliberadamente não patenteado. “Não queremos ser copiados”, diz Alves.

Neutralizado, o silicone perde a afinidade com a fibra de celulose e deixa de causar danos às máquinas de papel. A celulose é vendida em mantas para fabricantes parceiros, que a usam para produzir papel cartão, toalha, sulfite e embalagens. Esses produtos voltam para as empresas que enviaram o liner, fechando o ciclo.

O liner das figurinhas tem uma complicação adicional: a impressão colorida do verso muda a tonalidade da fibra resultante, que fica acinzentada. Por isso, a celulose das figurinhas só pode ser usada em papéis que aceitam essa variação, como o papel cartão da MD Papéis, parceira da campanha de reciclagem das figurinhas da Copa.

A Natura também é cliente da Polpel. Há mais de 10 anos ela envia liner e consome papel cartão feito com a fibra reciclada pela empresa. A Avery Dennison, maior companhia de autoadesivos do mundo, também. São cerca de 120 empresas fornecendo liner regularmente para reciclagem na Polpel, entre elas Unilever e Johnson & Johnson. 

“Nosso negócio não é apenas reciclar, mas garantir que o material reciclado retorne à cadeia de quem o gerou. Isso tem muito valor”, diz o executivo.

Viral na Copa

A campanha de coleta de liner das figurinhas da Copa não foi ideia da Polpel. Ela surgiu de um casal que viu os filhos com o álbum, conhecia a Polpel e sabia que o liner das figurinhas só é reciclado pela empresa. A influenciadora Dani Skar, do perfil Mente Econômica no Instagram, contribuiu ao publicar um vídeo que teve 4,7 milhões de visualizações em poucos dias. E então a campanha viralizou. 

O volume financeiro das figurinhas é pequeno. Na Copa anterior, chegaram 230 quilos de liner dos colecionadores. A expectativa agora é de duas toneladas, expressivo em comparação, mas pouco relevante para o faturamento de uma empresa que processa mais de três mil toneladas por ano.

Enquanto cada figurinha pesa 0,002 gramas, uma bobina de liner pesa até 300 gramas. Toda a receita gerada pela venda da celulose das figurinhas será doada ao GRAAC, hospital que trata crianças com câncer em São Paulo.

Mesmo sabendo que não vai mudar muito o ponteiro do negócio, a Polpel comemora os virais na internet sobre as figurinhas. “É um impacto muito maior do que a própria campanha em si. É uma vitrine para o nosso trabalho, com muitas famílias e escolas engajadas. Esse tipo de aprendizado, sobre a responsabilidade com o que consumimos e como descartamos, precisa começar cedo”, diz Alves. Escolas e pontos de encontro para colecionadores têm enchido caixas e enviado para o endereço da empresa, em Guarulhos.

Desde a viralização, empresas que nunca souberam que o liner era reciclável estão entrando em contato para enviar resíduos industriais para a Polpel, que opera sem financiamento externo. Não por falta de tentativa, mas por falta de acesso.

“Não é o negócio mais simples do mundo para se explicar, então convencer um banco de um financiamento é complicado”, diz Alves.

Sem empréstimos bancários, mesmo com tecnologia proprietária que nenhum concorrente na América Latina tem, a Polpel não atingiu a escala que o mercado demanda. A empresa sobrevive com uma margem acirrada na competição com a celulose virgem.

Essa competição tem uma vulnerabilidade estrutural: quando o preço da celulose virgem cai, a demanda pelo material reciclado cai junto. Foi o que aconteceu em novembro e dezembro de 2025. “O volume processado pela Polpel recuou por conta do mercado, não foi questão de captação de material nem de venda”, explica Alves.

O que resolveria o problema, na visão do executivo, seria uma legislação que obrigasse o uso de conteúdo reciclado em embalagens de papel, como já existe para o plástico (um decreto federal exige 22% de material reciclado). “Tem muita pressão para que esse decreto saia”, ele diz. “Se vier uma legislação exigindo que seja aplicado em todas as embalagens, valoriza toda a cadeia, incluindo o catador que está na rua.”

A Panini, fabricante do álbum oficial da Copa, não respondeu ao pedido do Reset de posicionamento sobre eventuais programas de logística reversa da empresa.