Um grupo de pessoas em miniatura se reúne em torno de uma peça perdida em um quebra-cabeça

Há um momento, em qualquer tese de investimento de longo prazo, em que o mundo deixa de ser o contexto da tese e passa a ser a evidência dela. O primeiro trimestre de 2026 foi esse momento para quem investe em transição climática. 

O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, em resposta aos ataques conjuntos americanos e israelenses de 28 de fevereiro, o barril de Brent saltando de US$ 73 para US$ 112 em trinta dias, 150 navios retidos na entrada do estreito e 20% do petróleo mundial paralisado são dados sobre o custo real, imediato e mensurável, de uma civilização organizada em torno de combustíveis fósseis que precisam transitar por gargalos controlados por atores com incentivos para fechá-los. 

Esse custo sempre existiu. O primeiro trimestre de 2026 apenas tornou impossível ignorá-lo. 

A tese de transição climática percorreu, ao longo das últimas três décadas, uma trajetória de legitimação que é em si mesma um dado analítico relevante. 

Começou como argumento científico, formulado nos relatórios do IPCC e nas conferências da ONU, e durante muito tempo dependeu da aceitação da ciência climática como condição de entrada para o debate de investimento. 

Migrou, na virada dos anos 2010 para os 2020, para o argumento econômico: o custo nivelado de renováveis caindo abaixo do carvão e do gás, as baterias em curva de aprendizado acelerada, os ativos fósseis acumulando risco de stranded assets com horizonte cada vez mais próximo. 

Chega ao primeiro trimestre de 2026 como argumento geopolítico, sustentado por estrategistas de segurança energética e economistas preocupados com inflação importada. 

Essa progressão é fundamental para entender por que a tese ficou mais robusta e não mais frágil neste trimestre: ela deixou de depender de consenso político em torno da agenda climática e passou a ser sustentada por interesses que existem independentemente de qualquer posição sobre o aquecimento global. 

A dimensão mais instigante desse movimento é que ele atravessa a divisão ideológica que parecia definir o campo. Trump rejeitou a retórica climática, desmontou regulações ambientais e retirou os Estados Unidos dos compromissos multilaterais de descarbonização, mas a guerra que sua administração escolheu travar no Oriente Médio forneceu o argumento mais poderoso para a independência energética renovável que qualquer relatório do IPCC já produziu. 

O secretário de Estado negociando a reabertura do Estreito de Ormuz e o G7 discutindo a liberação de 1,2 bilhão de barris de reservas estratégicas estão construindo o caso político para a transição que os países europeus vinham tentando construir por outros meios há vinte anos. 

A segurança energética, que é o que a diversificação para matrizes renováveis também entrega no tempo, atravessa espectros políticos com uma eficácia que o argumento climático nunca alcançou nesses ambientes, e isso altera estruturalmente o mapa de aliados por trás da transição. 

Esse contexto redefine também a leitura correta do que ocorreu na Europa no trimestre. 

O Omnibus Package, que simplificou o CSRD e o CSDDD e reduziu em 70% o volume de informações obrigatórias de reporte, foi lido por muitos como recuo. O que de fato ocorreu foi a substituição do Green Deal pelo Clean Industrial Deal, um movimento que separa a agenda climática de sua camada normativa mais pesada e a reposiciona como questão de competitividade industrial e segurança estratégica, categorias com muito mais tração política no atual ambiente europeu do que responsabilidade corporativa e transparência de reporte. 

A União Europeia não abandonou a transição. Reembalou o argumento para um mundo em que a geopolítica voltou ao centro e em que o discurso de competitividade industrial tem mais força do que o discurso de obrigações de disclosure

A separação entre o destino do rótulo ESG e o destino da tese de transição é, dentro desse contexto, o exercício analítico mais importante do momento. O rótulo acumulou carga retórica que facilitou o greenwashing e gerou fadiga em atores que precisam de argumentos econômicos e não normativos para se mover. 

O esvaziamento do rótulo não enfraquece a sua tese, mas sim, remove o ruído que se acumulou sobre ela e torna a análise mais direta. O que sustenta a tese é a física do clima, a trajetória de custo das renováveis, a regulação de desmatamento europeia com efeitos diretos sobre cadeias de fornecimento globais, e agora o prêmio de risco geopolítico que tornou o custo real dos combustíveis fósseis visível de forma aguda e quantificada para atores que nunca haviam calculado esse número. 

Posição estratégica e difícil

É nesse ambiente que a posição do Brasil precisa ser lida, porque ela se tornou ao longo do trimestre simultaneamente mais valiosa e mais difícil de capturar. 

Mais valiosa porque um mundo em que a segurança energética virou prêmio explícito e em que ativos de natureza estão em processo acelerado de formalização financeira é um mundo que precisa do que o Brasil tem em excesso: a maior biodiversidade terrestre do planeta, matriz elétrica com mais de 80% de origem renovável, e capacidade de produção agrícola em escala global com potencial de redução de emissões por unidade de produto que nenhum outro grande produtor consegue replicar. 

Mais difícil de capturar porque a combinação de Selic estruturalmente elevada, câmbio pressionado e fragilidade fiscal com ajuste projetado para 2027 eleva o custo de capital doméstico e retarda a velocidade com que essa posição estrutural se converte em fluxo de investimento. Não é a direção que está em dúvida, mas o ritmo, e a diferença entre os dois é onde o nosso trabalho de gestão de investimentos se concentra. 

A ascensão da biodiversidade como ativo financeiro, que ao longo do último ano e meio avançou do campo conceitual para o campo operacional com o Taskforce on Nature-Related Financial Disclosure (TNFD) consolidando frameworks de reporte e o Science Based Targets Network (SBTN) avançando nos critérios para metas baseadas em ciência para natureza, amplia ainda mais a singularidade brasileira. 

O mercado de créditos de biodiversidade está em formação, com demanda crescente de empresas sujeitas à regulação europeia de desmatamento e às novas obrigações de disclosure de impacto sobre natureza. 

O Brasil detém o estoque físico que esses mercados demandarão em escala, e a questão relevante para o investidor não é se esse valor será reconhecido, mas em que instrumentos e em que prazo essa formalização ocorrerá. A resposta a essa pergunta depende, em grande medida, da velocidade com que a engenharia financeira conseguir acompanhar a maturação dos mercados internacionais de natureza. 

A tese de incumbentes, que consideramos o vetor de descarbonização como a maior geração de alpha no espectro, ganha nesse ambiente uma dimensão adicional de urgência. A oportunidade não está em construir novos negócios verdes a partir do zero, onde o capital já está bem precificado, mas em financiar a transformação de empresas que já têm capital, cadeias de fornecimento, relações regulatórias e posições de mercado consolidadas, e que o mercado ainda não precificou adequadamente o risco de não realizarem essa transição. 

Como exemplo, a Marfrig acelerou seu programa de rastreabilidade de rebanho para antecipar em cinco anos a meta de 2030, movimento motivado pelo risco concreto de perda de acesso ao mercado europeu pela regulação de desmatamento. Esses são os mecanismos pelos quais o custo de capital se move antes que o mercado como um todo perceba, e identificar onde esses mecanismos ainda não foram precificados é o trabalho que define a tese. 

O que o primeiro trimestre de 2026 revelou, em síntese, é que a tese de transição climática nunca teve base de sustentação tão ampla. Científica, econômica e agora geopoliticamente fundamentada, ela tornou-se overdetermined no sentido analítico preciso do termo: sustentada por atores com motivações tão distintas que sua reversão exigiria a convergência improvável de múltiplas forças em sentido contrário ao mesmo tempo. 

Segurança energética, competitividade industrial, regulação de mercado e física climática apontam na mesma direção por razões completamente independentes entre si. Esse é o tipo de tese que o investidor de longo prazo busca, e o primeiro trimestre de 2026, por toda a sua turbulência, entregou mais evidência para ela do que qualquer relatório de consenso teria sido capaz de produzir.

*Fabio Alperowitch é fundador e diretor de investimentos da Fama Re.capital. Este texto foi originalmente publicado na mensagem do CIO do relatório de gestão da casa.