Os sócios da Fama Recapital

A Fama Re.capital está de cara nova – ou melhor: caras novas. Durante muito tempo, a sua imagem se confundiu com a figura de seu fundador, Fabio Alperowitch, cuja postura enfática na defesa de causas ambientais e sociais lhe rendeu a alcunha de “gestor militante”

A casa vive uma nova fase: um modelo de partnership com novos sócios, uma plataforma multiativos e uma visão clara: de que a transformação climática exige navegar pela complexidade, não só aplicar filtros que excluem empresas poluidoras de seus portfólios. Seu volume de ativos sob gestão é compatível com o de uma casa estreante – e bem distante daquele que a Fama chegou a alcançar como gestora tradicional de ações, fundada em 1993.

O novo capítulo começou com a nomeação de Sergio Gusmão Suchodolski como CEO (no centro da foto). O executivo acumula passagens pela presidência do BDMG e do Desenvolve SP, além de diretorias do BNDES e do Banco dos Brics. 

Ao lado dele, compõem a nova liderança o sócio Tiago Penido Gomes (à direita na foto), à frente da vertical de clima, e a sócia Laura Jaguaribe (à esquerda na foto), responsável pela vertical de desigualdades – a executiva tem experiência em investimentos de impacto na Península, empresa de investimento da família Abilio Diniz.

Alperowitch se mudou para Madri, na Espanha, e, como diretor de investimentos, lidera a subsidiária europeia da gestora, buscando estreitar o diálogo e captar recursos com grandes investidores europeus e do Oriente Médio.

“Hoje é uma partnership. Nós somos quatro sócios com perfis complementares”, diz Suchodolski. Segundo ele, a soma das trajetórias de cada um nos setores público, privado e de desenvolvimento vai permitir à Fama dar passos mais ambiciosos. 

O reposicionamento da Fama teve início ainda antes da pandemia e se deve a mais de um fator. Começou com uma nova visão de Alperowitch, que passou a ser mais vocal sobre a integração de fatores socioambientais à análise de investimento de uma casa que, em 30 anos de história, se destacou mais pela ênfase na governança. 

Mas, assim como todo o mercado de capitais, a casa também sofreu com o fraco desempenho do mercado acionário brasileiro nos últimos anos. As gestoras focadas em ações, no geral, tiveram que diversificar, adicionando produtos de crédito às prateleiras. 

A Fama, que chegou a ter patrimônio de US$ 1,5 bilhão, seguiu o mesmo caminho, mas também completou a transição para ser uma gestora de investimentos responsável – mudando o nome para Fama Re.capital.

“Em 2023 eu decidi que não queria mais fazer ESG, queria fazer impacto real, mas com retorno”, diz Alperowitch. O ex-sócio e cofundador da Fama, Mauricio Levi, não quis fazer parte do novo momento e teve sua parte comprada. Da mesma forma, os antigos investidores da casa, em sua maioria institucionais estrangeiros, optaram por resgatar seus recursos. “Não se pode falar em transição. Parti de uma folha em branco e, nos últimos anos, testei teses, montei time e estabeleci a partnership.”

“O nome é novo, os produtos são novos, a sociedade é nova”, reforça o CEO. Hoje os ativos sob gestão são de R$ 70 milhões. “A Fama Re.capital está pronta para crescer. Os últimos anos foram para testar todas as teses e processos com capital próprio e alguns apoios importantes de investidores âncoras que acreditam em nosso trabalho.”

Do milhão pro bilhão

Um deles é o BNDES. O banco de desenvolvimento vai aportar até R$ 500 milhões em um fundo de crédito estruturado da Fama em parceria com a Riza – gestora de perfil tradicional fundada em 2019 e focada em estruturação de crédito para o agro e infraestrutura. 

O FIDC conta com três teses de investimentos: transição energética, descarbonização industrial e soluções baseadas na natureza (NBS). 

“O que conecta essas três teses é uma característica de infraestrutura”, diz Tiago Gomes. Ele explica: em soluções baseadas na natureza, ao montar um sistema agroflorestal, existe um período de risco maior no início, em que o sistema está sendo montado e não gera receita. O mesmo ocorre com projetos de hidrelétricas, por exemplo. 

“Existem oportunidades de estruturação de dívida dentro de nature based solution. Não é uma coisa muito óbvia.”

O jeito de fazer é inspirado em financiamento de projeto: ter um capital mais paciente, que tolere esse risco inicial, e depois fazer um refinanciamento e trazer um investidor mais alinhado com o longo prazo. 

“É um fundo de 15 anos, então há espaço para olhar para teses que precisam de maturação mais longa”, diz Jaguaribe. Segundo ela, a carteira terá uma combinação de teses mais longas e mais curtas, o que abre a possibilidade de reinvestimento.

O fundo terá cogestão das duas casas. A Fama trará a expertise de sustentabilidade e a Riza de análise de crédito – o time de infraestrutura da gestora é o responsável pelo fundo. O plano é fazer o primeiro fechamento de captação, da ordem de R$ 1 bilhão, ainda este ano. 

Navegando na complexidade

A trajetória da Fama reflete o amadurecimento do próprio mercado de sustentabilidade. Anos atrás, a principal ferramenta do mercado era o negative screening: a exclusão das carteiras de investimentos de setores ou empresas com altas emissões de gases de efeito estufa. Uma postura mais pragmática levou a gestora a criar soluções que, no passado, seriam impensáveis para a casa.

“A realidade se impôs e temos que dialogar com a realidade”, resume Jaguaribe. Isso demandou uma mudança de postura do próprio fundador, que em outra época não consideraria montar um fundo de carbon majors

Foi dessa mudança de mentalidade que nasceu o Latam Climate Turnaround Fund. Gerido por Tiago Gomes, o fundo compra ações de grandes emissores de carbono com objetivo de engajar a gestão na descarbonização de suas operações. Na carteira do fundo, figuram SLC Agrícola, Marfrig, Banco do Brasil e Sabesp. 

“Não vamos mandar carta, fazer protesto ou ativismo litigante”, explica Gomes. “Para nós é muito mais importante ver a implementação do que a ambição”.

Com a tese montada e em execução, o plano agora é começar os esforços comerciais para vendê-lo. A expectativa é contar com a queda da Selic no processo, cenário que se tornou mais incerto por ora com a guerra no Oriente Médio e a disparada do preço do petróleo.

Crédito a bioeconomia 

A reorganização dividiu a gestora em três verticais: clima, desigualdades e sociobioeconomia. Essa divisão materializa o posicionamento de plataforma multiproduto, capaz de fornecer diferentes instrumentos financeiros, como capital e dívida, dependendo do nível de risco e maturidade da cadeia produtiva.

Na vertente da sociobioeconomia, liderada pela executiva Andréa Álvares (ex-Natura), o veículo é o fundo de crédito FamaGaia Sociobioeconomia, desenvolvido com a securitizadora Gaia. Ele financia cadeias produtivas em todos os biomas. Estão na carteira cooperativas de açaí, de castanha do Pará e o plano é expandir para viveiros de mudas de floresta nativa, algo com demanda em alta por conta do nascente negócio de reflorestamento. 

Segundo o CEO, o fundo está em negociação para receber a ancoragem de um investidor institucional estrangeiro e, a partir daí, iniciar a captação de recursos. 

O time reconhece as dificuldades de conciliar retorno financeiro com responsabilidade fiduciária e climática profunda. “A gente está num mundo complexo, com milhares de backlashes. Estamos tentando construir uma pequena ilha de coerência nesse universo”, diz Jaguaribe.