mudas em um viveiro de plantas na floresta amazônica.

A ideia seduziu muitos em sua simplicidade: plantar árvores, capturar carbono e gerar retornos ambientais e financeiros de longo prazo. No entanto, essa solução climática que aparenta elegância esconde uma dificuldade financeira não-trivial. Transformar o plantio de árvores em uma classe de ativos escalável tem se mostrado muito mais difícil do que os primeiros entusiastas imaginaram – especialmente em um ambiente de custo de capital elevado.

O grande desafio está no financiamento de uma classe de projetos marcados por fluxos de caixa de lento crescimento, dependentes da biologia das árvores e que produzem, em grande parte, apenas créditos de carbono, frutos e madeiras nativas, todos com limitada oferta de contratos firmes de venda futura.

Peculiaridades dos projetos florestais

Projetos de reflorestamento se comportam, em essência, como ativos de infraestrutura, mas com importantes características mais adversas: árvores levam tempo para crescer, e a captura de carbono e outras formas de monetização só se materializam após anos, às vezes décadas.

Esse perfil de fluxo de caixa – com receitas tardias e custos iniciais elevados – gera risco agudo de liquidez. Os investimentos são concentrados no início (aquisição de terras, preparo do solo, plantio), enquanto as receitas só aparecem após marcos biológicos e processos de verificação. Já o serviço da dívida tende a começar muito antes. Sem uma estrutura financeira adequada, o risco de inadimplência antes da geração positiva de caixa é significativo.

A isso se soma o risco de demanda. Diferentemente de projetos tradicionais de infraestrutura, que contam com contratos de compra de longo prazo, o mercado de créditos de carbono e produtos nativos é fragmentado e pouco padronizado. A formação de preços é incerta, o que torna as projeções de receita altamente voláteis.

Há ainda o risco de permanência característico dos ativos baseados na natureza. Florestas podem ser destruídas por incêndios, pragas ou mudanças climáticas. Quando isso ocorre, não apenas o ativo físico desaparece, como também o valor ambiental associado a ele. Trata-se de um risco difícil de mitigar sem custo elevado, na ausência de mercado eficiente de seguros.

A armadilha da dependência de equity

Diante desse conjunto de incertezas, financiadores de crédito evitam projetos de reflorestamento em estágio inicial. Iniciativas que poderiam ser viáveis com uma estrutura equilibrada entre dívida e capital próprio tornam-se menos atraentes sem longos períodos de carência. O resultado é uma dependência excessiva de capital próprio para botar o projeto em pé.

Essa estrutura é ineficiente. O equity é a forma mais cara de financiamento, eleva a taxa mínima de retorno exigida do projeto e limita a escalabilidade dos projetos.

Como alternativa, desenvolvedores passaram a utilizar créditos de carbono como uma espécie de “equity sintético”. Ao vender antecipadamente créditos futuros nos mercados voluntários, conseguem gerar liquidez imediata e reduzir a necessidade de capital inicial.

Mas essa solução depende de um mercado ainda frágil.

Os limites do mercado de carbono

O mercado voluntário de carbono cresceu rapidamente no início da década de 2020, mas sua estrutura ainda não comporta a mobilização de capital em escala.

Trata-se de um mercado opaco, com oferta descentralizada e heterogênea e demanda concentrada. A qualidade dos créditos varia, as metodologias diferem entre as empresas certificadoras e os preços carecem de padronização.

Além disso, a liquidez é limitada. Os mercados secundários são pouco profundos e os instrumentos de hedge de longo prazo ainda são incipientes. Isso dificulta a previsibilidade das receitas.

Outro problema central é a natureza da demanda. A compra de créditos é, em grande parte, baseada em compromissos corporativos voluntários, não em exigências regulatórias. Como tal, é sensível ao ciclo econômico. Em momentos de crise, tende a ser uma das primeiras despesas a ser cortada.

Assim, embora útil como solução de curto prazo, o mercado voluntário não é capaz de sustentar o volume de investimentos necessário para um reflorestamento em escala global.

Estratégias de sobrevivência

Diante dessas limitações, os desenvolvedores adotaram estratégias pragmáticas, ainda que imperfeitas.

Uma delas é recorrer a fontes de financiamento mais baratas, como bancos multilaterais e instituições de desenvolvimento, ou o programa Eco Invest. Esses recursos oferecem melhores condições, mas são limitados e frequentemente usam critérios restritivos.

Outra estratégia é diversificar receitas, oferecendo serviços como gestão territorial, monitoramento de biodiversidade ou contabilidade de carbono. Isso gera fluxo de caixa no curto prazo, mas pode desviar o foco do objetivo principal.

Também há um movimento de consolidação no setor, com fusões e aquisições para reduzir custos e prolongar a sobrevivência financeira.

Todas essas medidas são paliativas. Não resolvem o problema estrutural.

Caminhos para soluções estruturais

Para que o reflorestamento se torne uma classe de ativos escalável, será necessário repensar radicalmente o modelo de financiamento.

Uma solução radical é o uso de dívida com cronogramas de pagamento alinhados ao fluxo de caixa do projeto (“sculpted debt”). Somadas a garantias dos patrocinadores que reforcem a qualidade de crédito, permitiriam muito maior alavancagem a custos menores.

Outra possibilidade adicional é o desconto antecipado de créditos de carbono por fundos especializados. Ao transformar receita futura em títulos negociáveis, abre-se acesso a uma base mais ampla de investidores, replicando o que ocorreu em outros mercados de ativos securitizáveis.

Por fim, a expansão dos mercados regulados de carbono pode ser decisiva. Diferentemente dos mercados voluntários, estes são impulsionados por exigências legais, oferecendo maior volume, previsibilidade, liquidez e estabilidade de preços. A integração de créditos baseados na natureza a esses sistemas, ou a criação de modelos híbridos, pode mudar o jogo.

Solução financeira, ambição ambiental

Reflorestar em larga escala é uma dupla solução para os problemas da crise climática e da biodiversidade. Mas seu principal gargalo está na engenharia financeira.

O modelo atual, excessivamente dependente de capital das próprias empresas que desenvolvem os projetos, não permite a mobilização de capital em escala. Superar esse impasse exige uma mudança de perspectiva: tratar ativos florestais como um ativo de infraestrutura.

Isso implica utilizar plenamente as ferramentas dos mercados de capitais – dívida estruturada, securitização e padronização – e ao mesmo tempo fortalecer as bases institucionais dos mercados de carbono.