
A pergunta que dá título a esse artigo é incômoda, mas sem colocá-la explicitamente na mesa, não sairemos do lugar.
Respostas simples costumam ser um bom caminho para a verdade. Quando rebuscadas, longas e complexas demais, tendem a acomodar figuras de lógica argumentativa que podem nos induzir a conclusões falsas.
A mente humana tende a evitar qualquer zona de desconforto causada pela dissonância cognitiva e se apoia em toda sorte de justificativas para negar as evidências. No limite, tudo poderia ser justificado, sempre.
O modelo mental que embasa o paradigma econômico que levou ao limite o stress dos ecossistemas sociais e ambientais, gerando a necessidade de criarmos termos como ODS (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável), ESG (ambiental, social e governança), ‘impact investing’ e congêneres, tem na maximização do lucro e, por conseguinte, no retorno do capital, o elemento central da sua estrutura lógica.
Esse é o mundo onde as empresas geram as ‘externalidades’ negativas, empurrando a conta desta maximização do resultado a qualquer custo para a sociedade e o planeta, que são responsabilidade das ONGs e dos governos.
Estamos saturados de evidências, seminários, livros e afins sobre o tema, com diagnósticos e proposições diversas para solucionar a enorme crise global gerada por esse comportamento.
Há um enorme impulso e múltiplas manifestações globais e locais sobre o ‘reset’ necessário. Inclusive esse é o grande tema do Fórum Econômico Mundial de 2021.
A pergunta simples é: quem vai pagar essa conta?
Arrisco afirmar que não haverá reset algum sem um acordo claro, profundo e sistêmico sobre a necessidade imperativa de correção na precificação dos ativos em geral.
A lógica de como precificamos o trabalho, o capital e o conhecimento precisará incorporar a nova definição de sucesso que lastreia esse novo normal desejado, qual seja, um mundo mais inclusivo, equitativo e regenerativo.
Margens e retornos
Em uma economia de mercado, os preços definem a renda dos trabalhadores, as margens das empresas, o retorno dos investidores e os impostos dos governos. Portanto, responder à pergunta significa olhar para esses quatro stakeholders — trabalhadores, empresas, investidores, governo — e definir como a conta será paga entre eles.
Assumirei a premissa de que, em um mundo que atingiu o auge da desigualdade social e no qual os governos estão altamente alavancados e empurrando com a barriga as suas crises fiscais, o preço do trabalho e os impostos precisarão subir.
Sobram as empresas e os investidores como potenciais pagadores da conta.
Empresas são remuneradas pelas suas margens e investidores pelos seus retornos. Significa que, sob esta perspectiva, sem uma decisão clara sobre margens e retornos, não haverá reset algum. Não adianta ficarmos falando de ESG, impacto, ODS e afins sem tratar desse ponto. O resto é malabarismo lógico ou um exercício de ilusão ingênuo.
O meu dia a dia é lidar no mundo das empresas, dos empreendedores e dos investidores e, apesar dos discursos de reconhecimento de muitos sobre a necessidade de um reset, na hora da verdade, que é a hora da negociação e da definição de precificação, poucos são os que estão dispostos a abrir mão de margens e de retorno.
Especificamente no mundo dos investidores, acompanho um mantra de que ativos ESG e de impacto devem oferecer os mesmos retornos que os ‘tradicionais’. Me pergunto: Por quê? Baseado em que premissas? Faz sentido essa comparação? Gostaria de botar um pouco de pimenta nessa discussão.
‘Comigo não morreu!’
Se um investidor afirma que o retorno deve ser o mesmo (ou até maior), independentemente da qualidade embarcada de ESG /impacto do ativo, o que ele está dizendo é que o preço do seu ativo (capital) não pode mudar e que a conta da mudança terá que ser realizada ajustando as margens das empresas, a renda dos trabalhadores e/ou os impostos dos governos.
Veja, não tem mágica. Se o retorno exigido em um ativo que gera as ‘externalidades negativas’ que nos trouxeram até aqui deve ser o mesmo de um ativo que gera impacto social e ambiental positivo, quem está pagando a conta da internalização dos custos que antes eram pagos pela sociedade e pelo planeta?
Alguns argumentarão que estou sendo muito simplista, que não levo em consideração os ganhos de produtividade, a possibilidade dos preços dos produtos e serviços subirem para incorporar o novo modelo, dos consumidores serem mais seletivos apoiando as empresas alinhadas às melhores práticas globais etc.
Outros argumentarão que estou desviando o tema, pois o fato é que não importa discutir retorno, já que há evidências de que no longo prazo, os ativos ESG geram retornos iguais ou até maiores do que os demais.
Por fim, haverá os que darão exemplos específicos pinçados da realidade e farão generalizações, para comprovar que não há necessidade de falarmos deste tema. De fato, há exemplos e muito bons. Demonstram que, sim, existe a possibilidade de alguns ativos atenderem a esse requisito. Quanto representam do PIB global?
Diante dessas argumentações, minhas perguntas são: temos tempo para esperar que emerja a consciência necessária para que as mudanças aconteçam? Temos como esperar o longo prazo nos ensinar? Estamos dispostos a pagar para ver?
Senso de urgência
Precisamos mobilizar elevadíssimo volume de capital para financiar o novo modelo de sociedade e economia que nos eleve para outro padrão civilizatório. Não há falta de recursos no mundo e muito já se escreveu sobre isso.
A verdade é que a velocidade da mudança está muito aquém da necessária.
Apenas um exemplo para ilustrar o argumento. Para cumprirmos o acordo de Paris no capítulo Brasil, precisamos regenerar 12 milhões de hectares de florestas e deixar de emitir mais de 150 milhões de toneladas de CO2. O plano de agricultura de baixo carbono (ABC) existe há 10 anos. O Plano Safra esse ano prevê aportar R$ 236 bilhões e apenas 1% vai para o plano ABC.
Dos aproximadamente US$ 350 trilhões sob gestão no mundo, apenas US$ 0,7 trilhão é investimento de impacto. Não é nem 1%. Quanta custa e qual o risco de manter e seguir financiando 99% na velha economia?
Se nós, investidores e gestores de capital, não elevarmos absurdamente a velocidade de transformação das nossas próprias consciências e da consciência dos nossos pares, sobre como estamos fazendo escolhas e decidindo alocação de portfólio, temo que em breve não fará muita diferença, pois veremos um ajuste traumático e catastrófico pelo lado da sociedade excluída e do planeta.
O covid é um avant première. Façam os cálculos do ajuste de precificação imposto pela pandemia.
A pergunta não é qual é o risco de investir em um ativo de impacto/ESG vis-à-vis um ativo ‘tradicional’. A pergunta é qual é o risco de seguir perpetuando o modelo que nos trouxe até aqui.
Uma outra forma de argumentar sobre a mesma questão é a de que, se a lógica do mercado de quanto maior o risco maior o retorno esperado estiver correta, então os ativos não ESG/impacto precisarão passar por uma correção de preços ao serem comparados aos ativos ESG /impacto, pois os primeiros embutem mais risco econômico, social e planetário.
Convido a todos os investidores e gestores de recursos a meditarem e refletirem sobre esse tema crucial. Somos todos corresponsáveis pelo nosso futuro comum, seja ele qual for. Gostemos ou não, a página de discussão sobre a necessidade da mudança já virou.
A energia agora tem que estar nas condições para a mudança. A decisão não é mais técnica. É de vontade política, privada e pública.
*Marco Gorini é empreendedor e investidor social e co-fundador da Din4mo



![Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono](https://uploads.capitalreset.com/2026/04/Abril_03-450x253.jpg)

