Tecnologia e natureza: do conflito à convergência

A tecnologia é, ao mesmo tempo, vilã e heroína na luta contra a crise climática. Enquanto consome recursos naturais em escala crescente e pressiona ecossistemas, também oferece soluções poderosas para regenerar a natureza e transformar economias. 

O novo relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) propõe um caminho claro para resolver esse paradoxo, e o Brasil, com seu enorme potencial em tecnologias climáticas, pode ser peça-chave nesse processo.

O setor de tecnologia vive um paradoxo estrutural. Ao mesmo tempo em que consome volumes crescentes de energia, água e minerais, o que pressiona ecossistemas e comunidades, também concentra algumas das soluções mais promissoras para regenerar a natureza em escala. 

O Fórum Econômico Mundial aponta que semicondutores, data centers e hardwares já respondem por cerca de 4% do uso global de energia, consomem mais de 1,5 trilhão de litros de água por ano e alimentam uma montanha de lixo eletrônico que ultrapassa 60 bilhões de quilos anuais, com menos de um quarto reciclado.

Em contrapartida, o mesmo estudo estima que uma transição nature-positive na economia pode abrir até US$ 10,1 trilhões em oportunidades por ano até 2030, sendo cerca de US$ 800 bilhões diretamente vinculados à cadeia tecnológica, por meio de ganhos de eficiência, modelos circulares e novos arranjos de negócio.

Ou seja: na mesma proporção em que pode agravar a crise ecológica, a tecnologia pode sustentar respostas escaláveis para enfrentá-la. O WEF identifica 25 soluções já disponíveis  (que vão de sensores ambientais e inteligência artificial aplicada à gestão de recursos naturais até rastreabilidade via blockchain) com potencial para reduzir impactos, restaurar ecossistemas e gerar valor econômico. 

A condição, porém, é clara: essas soluções precisam ser concebidas com métricas de natureza integradas desde a fase de projeto. O gargalo, portanto, não é tecnológico, mas sistêmico: ainda tratamos clima e biodiversidade como externalidades, e não como parâmetros centrais de inovação, financiamento e política pública.

No Brasil, empresas que trabalham com tecnologia, seja ela hardware, software ou biotec, já apresentam soluções para monitoramento de incêndios, captura de carbono, redução de perda de água em encanamentos urbanos, geração compartilhada de energia solar e gestão de resíduos. Dados do Fórum Brasileiro das Climatechs, entidade representativa de empresas de tecnologia com soluções escaláveis para clima, demonstram que até 2025, o setor mobilizou mais de R$ 2 bilhões e gerou 5.000 empregos diretos e indiretos.

Neste sentido, o Brasil entra no debate não apenas como provedor de ativos naturais, mas como potencial laboratório global de tecnologias climáticas integradas à natureza. O relatório Unlocking Brazil’s Climate Tech Potential, produzido pelo Fórum Brasileiro das Climatechs em parceria com a Climate Ventures, a GIZ e outros atores, mostra que o país reúne uma combinação rara: matriz elétrica majoritariamente renovável, ativos florestais de escala continental e massa crítica de pesquisa em áreas estratégicas como bioeconomia, agricultura regenerativa, biotecnologia e energia limpa.

Ainda assim, o Brasil permanece marginalizado no fluxo global de investimentos em climatechs. Em 2024, a América Latina recebeu menos de 1% dos US$ 92 bilhões investidos globalmente no setor. Muitas climatechs brasileiras seguem presas ao pior dos mundos: arriscadas demais para o venture capital tradicional e “comerciais demais” para a filantropia. Essa assimetria expõe uma falha estrutural do ecossistema de inovação climática, que exige novos instrumentos, como  marcos regulatórios mais aderentes e mecanismos financeiros híbridos.

Os dois relatórios convergem em um ponto central: não basta esperar que soluções escaláveis emerjam espontaneamente. É preciso criar, de forma deliberada, as condições para que elas prosperem. No plano internacional, o WEF recomenda que empresas de tecnologia incorporem metas claras de uso de água, biodiversidade e circularidade ao longo de toda a cadeia, acelerem a adoção de energia limpa e passem a reportar impactos ambientais de maneira transparente e comparável. 

No plano nacional, o estudo das climatechs aponta caminhos concretos, como sandboxes regulatórios (ambientes regulatórios experimentais ou de testes), compras públicas verdes e plataformas de blended finance capazes de viabilizar soluções intensivas em hardware, biotecnologia e infraestrutura.

A próxima onda de inovação climática será liderada por quem conseguir conectar natureza, ciência e tecnologia de forma integrada. O Brasil reúne todos os ingredientes para ocupar esse espaço,  mas precisa disputar, desde já, a definição das regras, dos fluxos de capital e dos indicadores de sucesso dessa nova economia. 

O que está em jogo não é apenas o futuro da biodiversidade, mas o papel das climatechs como infraestrutura estratégica para uma economia regenerativa, resiliente e globalmente competitiva.

*Zé Gustavo, diretor executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs