ESPECIAL: As startups que se preparam para a cannabis legalizada

De pesquisas agronômicas a plataformas para médicos: conheça as empresas que querem sair na frente no mercado bilionário da maconha

ESPECIAL: As startups que se preparam para a cannabis legalizada
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(Esta é a segunda de uma série de três reportagens especiais sobre os negócios da cannabis no país. A primeira parte tratou do potencial da economia da maconha.)

O nascente mercado brasileiro da cannabis opera num limbo legislativo e regulatório, à espera de um marco que estabeleça as regras para a fabricação e venda de produtos derivados da planta.

Mas um ecossistema de startups está preparando o solo, por assim dizer, para que a bioeconomia da maconha prospere quando o uso e o plantio forem legalizados.

São empresas focadas em dados, inteligência de mercado e tecnologia agrícola, além de iniciativas de pesquisa e desenvolvimento com um pé nas universidades.

O país tem até mesmo uma aceleradora de negócios especializada nos negócios de cannabis, fundada em 2018 e pioneira na América Latina. O The Green Hub, com sede em São Paulo, já ajudou no desenvolvimento de 19 empresas.

Em receita, os números dessas startups são modestos, pois além de jovens todas dependem do arcabouço jurídico e do mercado legalizado para deslanchar. Mas o potencial é enorme.

Só o mercado de remédios à base de maconha movimentou R$ 700 milhões no país em 2023. A planta também tem milhares de possíveis aplicações industriais, incluindo tecidos, cosméticos e biocombustíveis, e um terceiro mercado potencial no consumo recreativo.

A Adwa, startup nascida há seis anos na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, demonstra o amplo potencial de negócios da maconha.

A companhia já lançou dois produtos – um software para otimizar o cultivo e um fertilizante específico para a cannabis, já registrado no Ministério da Agricultura.

“Os principais players do agronegócio mundial já viam a cannabis como commodity”, diz o agrônomo Sérgio Rocha, fundador da companhia (na foto acima). “Mas no Brasil não havia pesquisa alguma neste sentido, e eu sabia que seria questão de tempo para o agro incorporar isso no país.”

Como a maioria das startups do segmento, a Adwa ainda é pequena: a expectativa é faturar cerca de R$ 500 mil este ano. A empresa fez somente uma rodada de captação, um aporte de R$ 250 mil de investidores anjos.

A falta do marco regulatório atrapalha, mas Rocha também aponta um misto de conservadorismo e falta de entendimento do potencial do mercado.

“Um grama de cannabis pode ter mais valor agregado que a soja ou o algodão”, afirma o empreendedor. Mas, para isso, ainda serão necessários mais investimentos em pesquisa, algo “muito difícil no país”.

Educando e acelerando

Um dos objetivos do The Green Hub é justamente a difusão de conhecimento sobre os potenciais da maconha – dos seus usos e dos seus negócios.

“Nossa tese, desde o início, é fomentar e educar o mercado. Por isso a seleção das aceleradas sempre teve como foco a inovação, a produção de conhecimento, educação e cultura canábica no país”, diz Marcel Grecco, cofundador e CEO da aceleradora.

Das 19 startups acolhidas, 15 receberam apoio técnico para se estabelecer, incluindo a Adwa. As outras quatro surgiram e seguem incubadas no hub, recebendo “energia intelectual e recursos financeiros”, diz Grecco.

Até aqui, family offices foram os grandes apoiadores financeiros do projeto. Em 2019, foi feito um aporte de R$ 1 milhão, seguido por uma segunda rodada de R$ 4 milhões dois anos depois.

A principal investidora do The Green Hub é a advogada e empresária Patrícia Villela Marino, uma das vozes mais influentes no movimento pela legalização da cannabis.

O total de recursos destinado às companhias internalizadas são modestos – ainda há um longo caminho até que a realidade se aproxime das aceleradoras e venture builders do setor de tecnologia da informação.

Uma das incubadas, a Saluer, plataforma digital voltada a médicos que prescrevem tratamentos baseados em cannabis, recebeu algo em torno de R$ 500 mil. A empresa ainda não tem faturamento. A ideia é lançar uma versão inicial do produto este ano.

Grecco estima em R$ 7 milhões as receitas do The Green Hub e dos negócios apoiados, de 2021 para cá. “Foram R$ 2 milhões com nossos serviços de consultoria, educação e eventos. E entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões vindos das nossas startups aceleradas. Ou seja, mesmo sem o marco regulatório, estamos encontrando caminhos para validar esses negócios e gerar valor.” 

Mapeando informações

O Instituto de Pesquisas Sociais e Econômicas da Cannabis (Ipsec), também do portfólio do hub, quer agilizar as coisas. Sem fins lucrativos, a entidade tem a missão de organizar informações e fazer um advocacy em nome de todos os participantes do mercado.

Isso envolve tecnologia, diz Bruno Pegoraro, cofundador e presidente do instituto. “Cada município tem suas normas, e é fundamental que a gente entenda o que está acontecendo em todo o país. Em breve essa busca será aberta ao público. A pessoa poderá mapear quais projetos já foram aprovados, e onde.”

Investir em pesquisa e inteligência de dados tem sido um excelente negócio também para a startup Kaya Mind. Fundada em setembro de 2020 pelos sócios Maria Eugenia Riscala e Thiago Cardoso, ela compila informação de fontes governamentais e instituições do mercado de cannabis no Brasil e no mundo e, com uma metodologia própria, publica relatórios, anuários e análises que auxiliam empresas do setor a se posicionar e crescer.

“Nossa primeira rodada de investimentos veio de família e amigos”, diz Riscala. “E apostamos tudo em equipe, gente especializada em pesquisas e análises.”

A cofundadora não revela valores – nem de investimentos, nem de receita atual. “Nosso faturamento vem de um modelo de assinatura. A maioria de nossos clientes recebe todos os dados que elaboramos ao longo do ano, e não apenas um dos produtos.”