Propostas climáticas sofrem derrota esmagadora em petroleiras americanas

Homem caminha ao lado de dezenas de barris de petróleo
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A pressão que os acionistas fazem sobre as petroleiras por ações climáticas mais ambiciosas parece inversamente proporcional ao lucro das empresas.

Os investidores de Exxon e Chevron votaram 13 propostas relacionadas ao clima. Somente uma delas, pedindo mais divulgações sobre as emissões de metano, um potente gás do efeito estufa, recebeu mais de 20% de votos favoráveis.

Uma proposta defendia o estabelecimento de metas de redução das emissões do chamado escopo 3 (na cadeia de valor), o que no caso do setor significa menos queima de combustíveis na ponta do consumo, como a gasolina usada em carros.

A resolução foi derrubada por maioria esmagadora nas assembleias de Exxon (89% de votos contrários) e Chevron (90%).

No ano passado, propostas semelhantes tinham recebido 27% e 33% de apoio, respectivamente.

Os números foram considerados uma derrota fragorosa para os ativistas do clima e realçaram a diferença de atitude dos acionistas das grandes petroleiras americanas em relação às europeias.

Do outro lado do Atlântico, os ativistas conseguiram resultados um pouco melhores, mas também não conseguiram emplacar suas demandas. 

O plano de transição para o mundo de baixo carbono da Shell foi rejeitado semana passada por 20% dos votantes por ser considerado pouco agressivo.

Na britânica BP, que realizou sua assembleia mês passado, 17% votaram a favor de uma resolução exigindo que a empresa acelere o ritmo da diminuição da produção de petróleo e gás natural.

Cinco dos maiores fundos de pensão do Reino Unido chegaram a pedir a troca do chairman da BP depois de a companhia anunciar um freio em sua estratégia de descarbonização.

Embora não sejam vinculantes – os executivos da companhia não são obrigados a acatar as propostas –, as resoluções servem como termômetro do sentimento dos investidores.

Há dois anos, quando o fundo ativista Engine No.1 conseguiu três assentos no conselho da Exxon para forçar a empresa a traçar planos de descarbonização, a sensação era de um ímpeto que não seria mais contido.

Mas o cenário mudou desde então. Ficou claro que as grandes petroleiras e seus investidores estão interessados em continuar aproveitando o preço alto das commodities, causado pela guerra na Ucrânia.

Juntas, as seis maiores companhias privadas do setor registraram lucros recorde de US$ 219 bilhões no ano passado e pagaram US$ 110 bilhões em dividendos.

Os problemas de abastecimento causados pelo conflito também deram força ao argumento que defende uma transição mais lenta, a fim de não comprometer a segurança energética.

O acirramento da politização de tudo o que tem a ver com a sigla ESG também pode ter contribuído para o desempenho das resoluções.

Ron DeSantis, governador da Flórida e principal adversário de Donald Trump na disputa pela candidatura presidencial do Partido Republicano, é um dos expoentes do movimento anti-ESG nos Estados Unidos.

Transição energética controlada

“Algumas [das resoluções] nos forçariam a reduzir o desenvolvimento [de projetos] de petróleo e gás. Isso não teria impacto nenhum na demanda global”, afirmou Darren Woods, CEO da Exxon.

Mark van Baal, fundador do grupo de acionistas ativistas Follow This, afirma que é justamente disso que se trata.

“É incompreensível que a maioria dos investidores ainda aceite a recusa das super majors americanas em cortar emissões esta década”, afirmou ele ao Financial Times.

As petroleiras devem ser um dos grandes focos da próxima COP, que acontece em dezembro, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Além de ser realizada em um país que enriqueceu à custa da extração de combustíveis fósseis, a conferência será presidida pelo CEO da estatal petroleira do país, Sultan Ahmed Al Jaber.

Em seus pronunciamentos públicos, ele vem adotando uma linha parecida com a dos seus pares do setor privado e que pode ser resumida como “muita calma nessa hora”.

Mais de 130 parlamentares europeus e americanos publicaram um manifesto pedindo a renúncia de Al Jaber como presidente da COP28.

A expectativa é que a conferência bata mais uma vez o recorde de presença de lobistas da indústria.