iFood derrapa em plano para eletrificar motos dos entregadores

Em parceria com Voltz, empresa planejava ter 10 mil motos elétricas rodando em 2023; número ficou pouco acima de 150

iFood derrapa em plano para eletrificar motos dos entregadores
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Em maio do ano passado, o iFood anunciou um plano para eletrificar a frota de seus entregadores. Até o fim de 2022, 10 mil motos elétricas da startup Voltz Motors, parceira do projeto, deveriam entrar em circulação. Passado um ano, o plano fez água.

Apenas pouco mais de 150 unidades do modelo EVS Work iFood foram entregues (as últimas em janeiro) e as vendas do programa foram totalmente interrompidas ainda em agosto. 

Em nota, a plataforma de delivery reconhece os problemas e diz que acabou “encontrando mais dificuldades do que imaginávamos com o atraso nas entregas das motos pela Voltz”.

A startup pernambucana de motos elétricas lida com atrasos de entrega e dívidas e é alvo de ação de despejo em sua fábrica em Manaus, como revelado ontem pelo Reset

A proposta da parceria era facilitar o acesso das motos elétricas aos entregadores do iFood, com condições especiais de financiamento e adaptações para o trabalho diário dos motoqueiros, e, em um plano maior, contribuir para a meta da empresa de alcançar 50% das entregas feitas por veículos não poluentes até 2025. 

A moto custava R$ 9.999 – metade do atual valor do mesmo modelo fora do programa iFood – e podia ser financiada com o Banco Votorantim, parceiro exclusivo, que ofereceu um subsídio de R$ 2 mil para as 300 primeiras unidades. A taxa de financiamento oferecida também era menor do que as para veículos elétricos, em geral, e para motos a combustão.

Mesmo com todas as vantagens, a demanda esperada não se materializou. “A demanda foi um pouco maior nos primeiros meses e depois deu uma arrefecida”, diz Jamil Ganan, superintendente de varejo no banco BV. 

Defeitos e baixa autonomia

Além do relato de atraso na chegada das motos, os entregadores que têm uma moto elétrica para chamar de sua reclamam da qualidade das peças, em especial das baterias, e de problemas com as estações de troca e recarga de baterias. 

Na semana passada, algumas dezenas de entregadores protestaram em frente à loja da startup, em São Paulo, e seguravam uma faixa com a frase “Voltz lixo, fomos enganados”. 

“A moto EVS não é para motoboy, para trabalhador que vai ficar muito tempo na rua. Ela é muito fraca e não aguenta o tranco”, diz Jamesson Batista. 

Conhecido como Príncipe das Entregas, o youtuber e entregador ficou seis meses com a moto e rodou 1 mil quilômetros – o equivalente à quilometragem média de uma semana de trabalho para um entregador de delivery – até decidir vender. 

Em seus vídeos, Batista relata levar oito horas para recarregar as duas baterias em casa e contar com autonomia de apenas duas horas em cada uma. A velocidade máxima prometida pela marca também não foi alcançada, diz. 

Também em vídeo, um outro entregador com um filtro com a cara de palhaço aplicado sobre o rosto diz: “A moto não faz nem 60 km com duas baterias. Ela para direto. Para na chuva, para no sol, para porque quer parar. É cheia de defeitos; isso ninguém te conta.” 

Para o presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMABR), Edgar Franscisco da Silva, que conta com 3 mil associados, as motos elétricas ainda não têm autonomia compatível com o uso intensivo para trabalho. “Tem muita gente que comprou essas da parceria com iFood e que estão dando muito problema. A gente roda entre 80 e 300 km, essa moto não atende a gente. Estamos esperando [a tecnologia] amadurecer.” 

Fora da capital, onde não há estações para troca de bateria, o problema ganha outra complexidade. Em Hortolândia, na região de Campinas, Eduardo Lima, recarregava a moto duas vezes ao dia para conseguir trabalhar. Mesmo assim, “o sonho da minha primeira moto elétrica virou um pesadelo”, diz ele, conhecido como Edu Motoka. 

No seu caso, o modelo é um EVS, diferente daquele da parceria com o iFood. Ele relata uma série de defeitos, diz que as peças de reposição não chegaram e que, com o tempo, suas mensagens deixaram de ser respondidas pela Voltz. “infelizmente, chegou no estado em que está hoje: parada. Ela até liga, mas não anda.” 

Estações de troca

Como tempo parado é dinheiro perdido no caso dos entregadores, a parceria entre iFood e Voltz inclui planos mensais de assinatura entre R$ 149 e R$ 349 para que os proprietários da moto possam trocar as baterias em pontos espalhados pela cidade de São Paulo.

A ideia era que o entregador passasse em um dos postos, deixasse sua bateria descarregada e, num aplicativo, fizesse a rápida substituição por uma cheia. Mas aqui também o plano foi frustrado e se tornou um dos principais obstáculos ao sucesso do programa.

Em um de diversos vídeos sobre a moto, de novembro do ano passado, três entregadores reclamam da falta de baterias carregadas em uma estação e do prejuízo a seu trabalho. “Tem guincho na Voltz?”, brinca um.

O iFood diz que a operação das estações de troca é chave para escalar o modelo no delivery e que identificou a necessidade de fazer ajustes. “É necessária uma estrutura instalada de troca de baterias que atenda a operação para o delivery de modo eficiente”. 

A Voltz diz estar em um momento de adaptação dos pontos de recarga. A startup deixou de operar as mais de 30 estações nos postos Ipiranga e deve se concentrar em sete, com o mesmo número de baterias disponíveis. 

Em vez de realizar a troca sozinho, o entregador poderá abrir um chamado remoto ou pedir auxílio a um atendente pessoalmente. Apenas um dos sete pontos deve funcionar 24 horas por dia. 

“O movimento foi de consolidação e eficiência”, diz o chefe de vendas da Voltz, Victor Marques. Segundo ele, a empresa está em contato com os entregadores e demais clientes para entender suas demandas e adaptações necessárias. 

Mesmo com todos os problemas, a empresa de delivery diz não ter desistido do plano de eletrificar a frota de motos e afirma estar em negociações com outros potenciais fornecedores.

Segundo a empresa, no último ano, um em cada cinco pedidos foram entregues por um modal não poluente, o que inclui bicicletas, bicicletas elétricas e motos elétricas. “Atualmente, 40 mil entregadores usam modais limpos, sendo 20% da base total, e 6 mil deles por meio do projeto iFood Pedal – ao todo, 25 mil entregadores já passaram pelo projeto”, diz o iFood em nota.