
Diante das crescentes preocupações – e gastos – da Europa com segurança e defesa, a ONU cobrou a União Europeia do seu plano climático (que está atrasado) e pediu que o bloco não deixe de lado o esforço climático enquanto se volta para as suas forças armadas.
“A crise climática é uma crise urgente de segurança nacional que deve estar no topo da agenda de todos os governos”, disse Simon Stiell, chefe da UNFCCC, a Convenção do Clima da ONU, em um discurso na Alemanha nesta quarta-feira (26).
Os países europeus têm revisto seus orçamentos para aumentar os gastos com defesa, diante das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar o apoio militar à Ucrânia e possivelmente abandonar a aliança militar do Atlântico Norte, a OTAN.
Há um temor de que os gastos com políticas climáticas também sejam alvos de cortes.
Stiell alertou que as fronteiras da Europa estão vulneráveis a um fluxo de refugiados climáticos, uma vez que algumas regiões se tornam “inabitáveis”, forçando pessoas a migrar. “Os danos não vão parar nas fronteiras da Europa, mas terão um impacto cada vez maior nelas”, disse na conferência Europa 2025.
O bloco também foi chamado a ocupar a liderança climática no vácuo deixado pelos EUA, com a saída do país do Acordo de Paris e os constantes atrasos de Trump a políticas para mitigar mudanças climáticas.
“À medida que um governo se afasta da liderança climática, ele abre espaço para que outros se apresentem e aproveitem os vastos benefícios oferecidos”, disse Stiell, sem mencionar explicitamente os EUA.
Cadê o plano?
A ONU também cobrou a União Europeia de seu plano de redução de emissões de gases de efeito estufa, conhecido como Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Era esperado que ele já tivesse sido entregue, mas agora a expectativa é que seja apresentado até a COP30, que acontece no Brasil em novembro.
O chefe da ONU destacou o Brasil e o Reino Unido como exemplos de países que estabelecem metas ambiciosas de redução de emissões.
A Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia, tinha como meta propor ainda em março um corte de 90% nas emissões até 2040, mas agora está apenas dizendo que isso acontecerá em um “futuro próximo”.
Não está claro se a maioria dos 27 Estados-membros da UE está alinhada a uma meta tão ambiciosa. A Polônia, que detém a presidência rotativa do bloco, vinha pressionando por um adiamento da proposta.
Ministros do clima e negociadores de mais de 30 países estão reunidos na Alemanha esta semana, no 16º Diálogo Climático de Petersberg. Evento-chave para o calendário climático internacional, são as primeiras conversas de alto nível desde a COP29, em Baku, em novembro, e a posse de Trump, dois meses depois. Os EUA estavam ausentes das conversas na terça e quarta-feira.
O chefe de clima da ONU, que também está participando das discussões, disse que as mudanças climáticas podem cortar o PIB combinado da União Europeia em 1% nos próximos anos e em até 2,3% até meados do século, criando a “receita para uma recessão permanente”.
Clima quente
O ano passado foi o mais quente já registrado, com o mundo ultrapassando 1,5 °C de aquecimento pela primeira vez, segundo diversas as principais agências internacionais de medição.
“É a primeira COP convocada após o ano que o mundo excedeu o limite de temperatura de 1,5º C estabelecido pelo Acordo de Paris”, destacou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, no encontro em Berlim.
Ele voltou a repetir o papel do multilateralismo na luta contra as mudanças climáticas, diante de uma crise global compartilhada. “Conversas abertas e construtivas, guiadas pelo espírito do ‘mutirão’, são essenciais para enfrentar desafios tão complexos.”