
A AeroRiver recebeu um aporte de R$ 300 mil via mútuo conversível, empréstimo que pode ser convertido em participação societária em uma rodada futura. O recurso vai ajudar a startup, fundada em 2021, a acelerar a finalização do primeiro protótipo de um veículo de efeito solo, o “barco voador”, pensado para reduzir o tempo de viagem nos rios da Amazônia.
O valor vem do Sinergia Investimentos, fundo da Jornada Amazônia, iniciativa de desenvolvimento de negócios de impacto na região financiada pelo BID Lab, braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A coordenação da Jornada é feita pela Fundação Certi, um instituto de pesquisa, desenvolvimento e serviços tecnológicos.
O protótipo do Voadeiro, de quatro lugares, está em fase final de construção em São José dos Campos (SP) e voa a uma altura de 2 a 2,5 metros, atingindo entre 120 e 150 km/h. Após uma série de adiamentos, o veículo deve ficar pronto até setembro e será então levado a Manaus, com a previsão de passar por testes no Rio Negro ainda neste ano.
Cumprida essa etapa, precisará ser certificado pela Marinha, que classifica o veículo como embarcação, antes de poder ser produzido em escala. A AeroRiver pretende fazer uma nova rodada de captação até o fim de 2027 para construir uma fábrica própria.
A startup reúne hoje 61 cartas de intenção de compra, assinadas com empresas, prefeituras e o Exército Brasileiro, mas nenhum contrato comercial foi fechado. O aporte do BID Lab chega no momento em que a startup tenta transformar esse interesse declarado em receita, diz Lucas Guimarães, diretor executivo e cofundador da AeroRiver.
Além de veículos tripulados, a empresa também desenvolve um drone radiocontrolado, com alcance de 50 quilômetros, pensado para entregar remédios ou alimentos a comunidades isoladas em situações emergenciais. É o único dos produtos da startup que já voa como protótipo para testes e coleta de dados.
Efeito solo
Conhecido como ecranoplano, o “barco voador” se sustenta por um fenômeno aerodinâmico que ocorre quando uma aeronave voa muito próxima de uma superfície: o efeito solo, que cria uma camada de ar comprimido sob as asas, reduzindo o arrasto. Como o veículo opera sempre rente à água, sem ganhar altitude de voo livre , ele é juridicamente classificado como embarcação, e não avião, o que reduz custos de certificação e dispensa taxas aeroportuárias.
Segundo Guimarães, isso torna o veículo 40% mais eficiente em consumo de combustível e 66% mais barato de operar do que um avião no mesmo trajeto.
“Os rios são as nossas estradas: não precisamos investir em infraestrutura para começar a operar. Isso é uma grande vantagem”, diz o cofundador da AeroRiver.
A meta inicial era finalizar o protótipo do Voadeiro no início de 2026. O prazo foi adiado quando a empresa percebeu que precisaria de mais tempo para fabricar os moldes das peças de fibra de vidro que compõem o veículo.
“Nós tínhamos considerado só o tempo de fabricar a peça, mas você tem que fazer o molde também. São aprendizados que vamos incorporando ao longo do caminho”, diz Guimarães.
Outro veículo em desenvolvimento pela empresa é o Volitan, que pode levar 10 passageiros e até uma tonelada de carga, e atinge 150 km/h voando a até 5 metros da água. O início da sua construção também foi adiado, e agora está previsto para 2027.
A tecnologia dos ecranoplanos foi desenvolvida pela União Soviética durante a Guerra Fria. O foco não era a eficiência: era voar baixo o suficiente para escapar de radares e sonares. Tentativas posteriores de uso esbarraram em um problema de operação: o piloto precisa manter o veículo em uma margem estreita de altura o tempo todo, sob risco de encostar a ponta da asa na água. “O piloto não conseguia ficar no controle por mais de uma hora. Isso impossibilitava a operação”, diz Guimarães.
A AeroRiver diz ter resolvido esse gargalo com um sistema de controle automático de altura, calculado por computador de bordo em função da velocidade — inclusive em curvas, exigência maior nos rios sinuosos da Amazônia do que a enfrentada por concorrentes internacionais que projetam veículos semelhantes para uso em mar aberto.
Iniciativas de uso civil de veículos de efeito solo, em outros países, nunca se converteram em operação regular de transporte em escala.
Financiamento
Desde sua fundação em 2021, a AeroRiver levantou cerca de R$ 18 milhões.
A maior parte, cerca de R$ 17 milhões, veio de subvenção pública. Um projeto aprovado em 2022 pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, financiou a construção do drone, e dois financiamentos maiores obtidos em 2024, um da Finep e outro ligado à Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), bancaram o início da construção do Voadeiro.
A empresa também captou R$ 1,2 milhão de investidores-anjo via mútuo conversível. A Bemol, uma das maiores varejistas do Norte do Brasil, investiu na empresa em 2021, e um grupo de práticos, os pilotos que conduzem navios nas manobras de porto da região amazônica, fez aportes em 2022.
A AeroRiver também recebeu, em 2023, cerca de R$ 60 mil do programa Centelha, também coordenado pela Fundação Certi, para custear um ensaio em tanque de provas navais, etapa necessária porque o veículo de efeito solo não pode ser testado num túnel de vento convencional.
Para Fernanda Campos, diretora executiva do Centro de Empreendedorismo Inovador da fundação, esse tipo de apoio resolve uma lacuna comum entre empreendedores técnicos e tem uma lógica diferente de um fundo tradicional.
“Um fundo de venture capital raiz está mais interessado no retorno que aquela empresa vai dar, então quer um percentual societário. No nosso caso, existe uma preocupação de não ter diluição do capital do empreendedor. É um passo a mais num caminho em que se pega esse conhecimento e se transforma no desenvolvimento de um protótipo”, diz.
A AeroRiver foi criada por três engenheiros com raízes na região amazônica. Lucas Guimarães, natural de Manaus, e Felipe Bortolete, de Porto Velho, se conheceram na graduação em Manaus e hoje fazem doutorado em engenharia aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. Já Túlio Silva, engenheiro eletricista formado pela UFMG, tem trajetória em projetos de tecnologia e inovação na Amazônia.





