Este bolinho contém peixe cultivado em laboratório

Depois da primeira degustação pública do tipo no Brasil, Sustineri Piscis busca R$ 17 mi em rodada seed

Bolinhos feitos com carne de peixe cultivada em laboratório pela Sustineri Piscis
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As cerca de 30 pessoas reunidas duas semanas atrás no restaurante Xian, no centro do Rio, podem dizer que fizeram parte de uma experiência histórica: comeram bolinho de peixe.

Mas não era um petisco qualquer. A carne do robalo nunca chegou perto do mar. Ela foi cultivada no biorreator da Sustineri Piscis, a primeira startup brasileira a produzir – e a servir – uma proteína animal obtida na bancada de um laboratório.

A empresa, fundada em 2020 pelo biólogo marinho e empreendedor Marcelo Szpilman, reuniu os convidados para apresentar o resultado de quase três anos de pesquisas.

Depois de realizada essa prova de conceito pública, a Sustineri Piscis quer levantar R$ 17 milhões para dar os passos seguintes de seu desenvolvimento.

O plano é passar de uma produção hoje contada em gramas para alguns quilos, por volta do começo de 2026, quando Szpilman espera ter os primeiros restaurantes clientes.

A notícia da desgustação já atraiu o interesse de alguns chefs cariocas, mas hoje a carne cultivada ainda é inviável comercialmente. “Nem sei quanto teria de cobrar por um quilo”, afirma o fundador.

Até hoje, ele calcula ter produzido algo como 500 gramas da massa proteica de robalo. Ainda vai demorar para que a Sustineri Piscis possa contribuir para o consumo sustentável de peixes.

O desafio de fazer mais

Mudar a produção de patamar depende de capital, ganhos incrementais de eficiência, evolução tecnológica e também melhorias nos insumos.

O primeiro produto da Sustineri, e também a base dos 46 bolinhos servidos no evento, é uma espécie de carne de robalo moída. Ela é composta por células retiradas de robalos vivos e que se reproduziram ao longo de duas semanas numa solução líquida.

O processo acontece em tanques, que Szpilman compara aos que se veem em cervejarias. 

“Aqueles tonéis são um tipo de biorreator. Tem lúpulos e leveduras lá dentro. O nosso processo é parecido, mas não estamos interessados no líquido. O que importa são os sólidos.”

Um dos gargalos da empresa – e das outras empresas que querem produzir grandes volumes de proteína animal cultivada – está justamente nessa solução em que as células se reproduzem.

Um ingrediente essencial é o soro fetal bovino (sim, vacas estão indiretamente envolvidas na carne de peixe feita em laboratório). Este é hoje o item mais caro de todo o processo, segundo o fundador.

O trabalho de seleção e preparação das células “matrizes”, que consumiu a maior parte dos R$ 5 milhões investidos até aqui, já foi concluído.

Além do robalo, a empresa tem em seu banco amostras celulares de tainha, garopa verdadeira, cherne e linguado. “Para esses, não precisamos de mais peixes vivos”, afirma Szpilman.

Reduzir a pressão da pesca comercial sobre os estoques naturais foi um dos motivos que levaram o fundador, que é formado e biologia marinha mas se considera mais um empresário, a criar a startup.

A biopeixaria da esquina?

“Como você produz mais proteína para sustentar 10 bilhões de pessoas em 2050? Como dobra o número de peixes capturados? Impossível, até porque o esforço de pesca é cada vez maior e cada vez [se obtêm] menos peixes.”

O cultivo celular oferece vantagens na comparação com a piscicultura, segundo ele, pois produzir um quilo de peixe leva 32 semanas numa fazenda e, no futuro, deve levar apenas duas numa indústria.

Szpilman descreve um futuro em que “biopeixarias” produzem carne sob demanda nos cantos do país mais distantes da costa. “Um dia a gente vai fornecer as células e você vai produzir a proteína na sua casa”, diz ele, numa comparação talvez otimista demais com as máquinas de Nespresso.

Mas um passo muito anterior, sem o qual a startup não poderá vender um único grama de seu peixe feito em laboratório, é a aprovação das autoridades sanitárias.

Esperando a regulamentação

O assunto é tão novo, que a Anvisa, agência brasileira que regulamenta o controle sanitário de alimentos e medicamentos, está elaborando o formulário que as empresas terão de preencher para pedir a liberação de seus produtos.

O fato de a FDA, equivalente americana da agência, ter concedido permissão a duas companhias que produzem carne de frango cultivada “facilita a vida de todo mundo”, diz Szpilman.

“É como aconteceu com as vacinas [da covid-19]. Depois das aprovações dos americanos, dos europeus, [a agência] fica mais tranquila.”

Ele espera que o conjunto de exigências sanitárias esteja finalizado nos próximos meses e que a liberação não leve mais de um ano.

Enquanto isso, a startup vai seguir escalando a capacidade  dos equipamentos. O biorreator atual, que comporta 2 litros, vai aumentar para 20 e depois 100 litros.

A expectativa é que o preço caminhe na direção contrária. “Se eu tiver preço para vender, show. Se não, o produto não vai para o lixo. A gente pode fazer mais experimentações. Temos que criar o mercado, sair na mídia e mostrar que [a carne cultivada] já é uma realidade.”