AGRONEGÓCIO

Instituto Folio encara o desafio de mudar o agro 

Com apoio da Itaúsa e instituto de Walter Salles, iniciativa sai debaixo do guarda-chuva da Raiar e cria estrutura de governança para se tornar uma organização independente 

Instituto Folio encara o desafio de mudar o agro 

A ambição é grande: acelerar a transição da agricultura brasileira para um modelo mais sustentável de produção. É com essa missão que nasce o Instituto Folio, iniciativa sem fins lucrativos idealizada pela empresa de proteínas orgânicas Raiar. 

Para isso, o instituto quer colocar na mesma mesa toda a cadeia produtiva de grãos, do produtor até as empresas de alimentos, passando por universidades, fabricantes de máquinas e bioinsumos e o sistema financeiro. 

“A transição é um problema complexo, que precisa de soluções complexas. É preciso co-criar um novo ferramental de tecnologias e conhecimento”, diz Luis Barbieri, diretor-executivo do Instituto e co-fundador da Raiar Orgânicos. 

O diagnóstico está feito: o atual sistema produtivo, baseado em produtos químicos para controlar pragas e regular o crescimento das plantas, foi essencial para a expansão da produção e segurança alimentar há quase um século. Mas os sinais de esgotamento e queda de produtividade diante das mudanças climáticas já aparecem. 

Além disso, sendo um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o Brasil tem na agropecuária a atividade econômica que mais emite gases de efeito estufa. 

O desafio é enorme, a começar pela definição: qual o nome do modelo a que se quer chegar: agricultura sustentável, regenerativa, orgânica, de baixo carbono? Não há resposta pronta. O único consenso entre quem acredita na necessidade da transição é que o caminho passa pela recuperação da saúde do solo e dos ecossistemas, com uma agricultura com foco em processos, não mais em produtos.

Atuação

O Instituto Folio não começa do zero. Ele nasce com projetos e parceiros, pois antes de se estruturar como uma associação já funcionava como uma rede informal liderada pela Raiar há quatro anos.

“O interesse nessa nova agricultura cresceu nos últimos dois anos e passamos a ser procurados para replicar em outros territórios o que estávamos fazendo. Entendemos que era hora de se estruturar para entregar respostas em outra escala”, conta Barbieri. 

O Folio tem três eixos de atuação: desenvolvimento de novas tecnologias, geração de dados e troca de conhecimentos. Atualmente, são cinco os projetos em desenvolvimento.

Combinando os três eixos, está a Fazenda Lago do Sino. Doada pelo escritor Raduan Nassar para a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ela é um laboratório de práticas agrícolas regenerativas. São 400 hectares de cultivo de grãos (soja, milho, trigo, cevada, entre outras). Em parceria com o Instituto, pesquisadores estão desenvolvendo o  “Plano de Transição Tropical”, testando práticas apropriadas para o nosso clima. 

A Embrapa é parceira da Folio neste projeto e em outro, sobre produção de soja em áreas degradadas. “Produtores de grãos estão fazendo um processo de transição de uma área degradada para produzir grãos. O nosso papel é pegar todo o conhecimento produzido pela Embrapa no tema e ajudar a colocá-lo em prática”, diz o diretor. 

No eixo de desenvolvimento de novas tecnologias, o Folio desenvolve em parceria com o Instituto Federal de Avaré um sistema para produção de bioinsumos em pequena  escala (conhecida como produção on farm), com uma tecnologia simples e acessível, segundo Barbieri.

Ainda neste tema, o Instituto identificou um desafio de financiamento: a falta de capital de giro para produção de bioinsumos. Se juntou a Traive, fintech voltada ao agronegócio, na estruturação de um fiagro (fundos que investem nas cadeias produtivas do agronegócio) para financiar esse segmento. O veículo está em processo de captação e espera-se que esteja operacional em agosto, a tempo da próxima safra. 

O próximo projeto está no forno e deve atacar o problema dos herbicidas. “Mais da metade dos defensivos agrícolas usados hoje no Brasil são herbicidas. Não dá para pensar em agricultura regenerativa sem uma solução para isso”, diz Barbieri – defensivos agrícolas, leia-se: agrotóxicos.

Estrutura

Foi preciso montar uma estrutura de governança para garantir a independência da organização em relação ao seu idealizador. Segundo Barbieri, para colocar na mesma mesa todos os elos da cadeia é preciso criar um ambiente “paracompetitivo” e sem fins lucrativos. 

O financiamento veio da doação de R$ 4 milhões da Itaúsa, holding de investimentos de capital aberto, e do Instituto Ibirapitanga, fundado por pelo cineasta e herdeiro do Itaú Unibanco Walter Salles.  

Foram criados três conselhos: consultivo, científico e fiscal. A ideia é que o conselho consultivo ajude a organização a direcionar não só as prioridades de atuação, mas também evoluir na governança, com a definição, no futuro, de um conselho deliberativo e possivelmente novos associados – hoje a associação tem a Raiar como única associada. 

O conselho consultivo é formado por Felipe Alves (chairman da Morro Verde Fertilizantes), Marcus Menoita (CEO da Raiar Orgânicos), Paulo Borges (produtor e co-fundador do Gaas), Marcelo Behar (consultor-sênior do World Business Council for Sustainable Development), Ludmila Rattis (pesquisadora do Woodwell Climate Research Center) e Plínio Ribeiro (CEO da Biofílica Ambipar).

O comitê científico, ainda incompleto, conta com Virgínia Damin (professora da Universidade Federal de Goiás) e Sérgio Pimenta (consultor agrícola da 360 Consult). 

A diretoria é formada por Barbieri na direção-executiva e Anita Martins (ex-Dreyfus, Ambev e Raízen) à frente da diretoria de operações.