Chuteira e bola

A mudança climática será um grande jogador na Copa do Mundo deste ano. É o que diz uma carta aberta enviada à Federação Internacional de Futebol (Fifa) assinada por 20 cientistas e especialistas em saúde, clima e performance esportiva do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Austrália. O 12º jogador será o calor extremo. 

As medidas planejadas para o torneio de 2026 são “impossíveis de justificar”, segundo eles.

O risco de condições extremas quase dobrou desde a última Copa do Mundo realizada na América do Norte, em 1994, segundo o World Weather Attribution (WWA), grupo de pesquisa climática. E isso é resultado direto das mudanças climáticas.

Os cientistas pedem que a entidade reconsidere o próprio calendário das futuras edições da Copa do Mundo, as realizando em períodos do ano menos quentes, como medida estrutural para proteger jogadores e torcedores.

“Do ponto de vista da saúde, seria aconselhável realizar essas Copas do Mundo mais cedo ou mais tarde no ano, para que se possa ter uma festa de futebol em vez de algo que represente um enorme risco para a saúde de toda a cidade”, disse Friederike Otto, professora de ciências climáticas no Imperial College London, à agência Reuters.

A recomendação não é nova e tem precedente. A Copa do Mundo do Catar, em 2022, foi deslocada do período tradicional no meio do ano para novembro e dezembro justamente por conta do calor extremo. O torneio ocorreu sem incidentes graves de saúde. 

Só que 2026 é diferente: o torneio será realizado em 16 cidades nos Estados Unidos, México e Canadá entre 11 de junho e 19 de julho, em pleno verão no hemisfério norte, quando as temperaturas passam dos 30ºC em muitas dessas cidades.

Os tamanho do risco

A análise que embasou a carta foi conduzida pelo World Weather Attribution (WWA), grupo de pesquisa climática que avalia o impacto das mudanças climáticas em eventos extremos. 

Os pesquisadores modelaram o Índice de Temperatura de Globo Úmido (WBGT, na sigla em inglês), métrica que combina temperatura, umidade, velocidade do vento e radiação solar para medir o estresse térmico real sobre o corpo, nos 16 estádios da competição, considerando os horários previstos para cada partida.

A métrica é mais precisa para esportes de alta intensidade porque captura o que a temperatura isolada não mostra. Em dias muito úmidos, mesmo temperaturas moderadas podem ser de alto risco para os atletas: quando o ar está saturado de vapor d’água, o suor deixa de evaporar. E é a evaporação que resfria o corpo. 

Para jogadores correndo por 90 minutos sob o sol direto, o WBGT reflete com mais precisão o risco real do que o termômetro comum.  

O resultado: cerca de 25% das 104 partidas do torneio devem ser disputadas em condições que superam o limite de 26°C WBGT, patamar a partir do qual o sindicato global dos jogadores (Fifpro, na sigla em inglês) recomenda medidas de resfriamento. 

Cerca de cinco partidas podem ocorrer acima de 28°C WBGT, nível em que a entidade recomenda o adiamento dos jogos, equivalente a aproximadamente 38°C em calor seco ou 30°C com alta umidade. 

O risco de condições extremas quase dobrou desde a última Copa do Mundo realizada na América do Norte, em 1994, segundo o WWA, um resultado direto das mudanças climáticas.

Dos 16 estádios, 14 podem registrar temperaturas acima do limiar mais grave. Seis partidas em Miami têm probabilidade “quase certa” de superar 26°C WBGT. A final, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, tem uma chance de ultrapassar 26°C e cerca de 3% de atingir o nível mais perigoso. Mais de um terço dos jogos com maior risco térmico estão programados para estádios sem ar-condicionado, incluindo Miami, Kansas City, Nova York e Filadélfia.

O que os cientistas pedem

Além da mudança de calendário para edições futuras, a carta exige da Fifa medidas imediatas para 2026: pausas de resfriamento de pelo menos seis minutos por tempo (são três minutos atualmente), protocolos mais claros para adiar ou cancelar partidas quando o WBGT ultrapassar 28°C, melhores instalações de resfriamento para jogadores e atualização constante das diretrizes com base na ciência mais recente.

“A segurança dos jogadores é uma preocupação imediata e urgente, porque as coisas podem dar muito errado rapidamente quando as pessoas superaquecem”, disse Andrew Simms, diretor do New Weather Institute e coordenador da carta, à BBC Sport. 

“Estamos preocupados com o fato de a Fifa estar jogando de forma imprudente com a saúde e a segurança dos jogadores.”

O que a Fifa diz

A Fifa não respondeu diretamente à carta. Em nota para a Reuters, ela disse que usará um “modelo de mitigação de calor em camadas” no torneio, com medidas adaptadas às condições em tempo real, e que equipes meteorológicas dedicadas irão monitorar o WBGT e o índice de calor ao longo da competição. 

Isso, porém, não é o suficiente devido a discrepância entre os critérios da Fifa e os padrões científicos. “A pausa de hidratação em cada tempo precisa ser maior do que três minutos. O limite atual da FifaIFA para tomar precauções é 32°C WBGT, muito acima dos 28°C que a ciência considera perigoso para atividade física intensa”, disse professor Douglas Casa, da Universidade de Connecticut e também signatário da carta. 

A entidade afirmou que as condições climáticas fizeram parte dos da decisão sobre os horários de início das partidas, priorizando estádios cobertos para os jogos mais quentes e ajustando os horários para evitar os períodos mais críticos.