Eco Invest: BTG empresta R$ 1,5 bi à Bracell para recuperar área degradada

O BTG Pactual concedeu um financiamento de R$ 1,5 bilhão para a produtora de celulose Bracell no âmbito do segundo leilão do Eco Invest, voltado à recuperação de áreas degradadas. Os recursos vão financiar a conversão de 54 mil hectares degradados em plantações de eucalipto no Mato Grosso do Sul.

O custo médio de recuperação da Bracell será de R$ 27,7 mil por hectare. O valor médio varia muito conforme o tipo de degradação, o bioma e a técnica usada no restauro.

O custo da operação não foi divulgado. Segundo Claudio Pitchon, vice-presidente de finance banking da Bracell, a taxa foi competitiva, mas este não foi o principal benefício. “A grande motivação é a chancela que essa operação traz, pelo nível de exigências e com o que estamos nos comprometendo.” 

O Eco Invest trabalha com uma estrutura de blended finance, combinando capital público subsidiado com privado para reduzir o custo na ponta. O Tesouro oferece aos bancos recursos a um custo baixo (1% ao ano), exigindo em contrapartida que eles alavanquem esse dinheiro com captação de recursos privados. 

Os recursos do programa entram diretamente na atividade principal da Bracell, controlada pelo grupo Royal Golden Eagle (RGE), de Singapura, ao financiar a plantação de eucalipto, cuja madeira é matéria-prima para a produção de celulose da companhia. Eles serão destinados ao plantio, colheita, transporte e compra de equipamentos nas áreas convertidas. 

A produtora de celulose tem sua principal base florestal manejada entre São Paulo e Bahia e mais recentemente expandiu para o Mato Grosso do Sul – ela não divulga o tamanho total da área plantada no país. Em sua planta industrial em Lençóis Paulista (SP), produz 3 milhões de toneladas de celulose por ano, o que exige 12 milhões de metros cúbicos de madeira.

“A Bracell pega um solo degradado que está improdutivo, que não gera nenhum tipo de estoque ou captura carbono, e vai transformar isso em uma floresta de eucalipto, aí vem a primeira adicionalidade ambiental”, diz Rafaella Dortas, diretora de ESG do BTG Pactual. Para o monitoramento, a companhia terá que realizar a medição de carbono no solo e fazer um inventário. 

A cobertura do solo traz como benefício o aumento da umidade e, com isso, a redução da temperatura ambiente. Por se tratar de uma monocultura, porém, o ganho para a biodiversidade é limitado se comparado ao reflorestamento com espécies nativas.

Alguns pesquisadores e organizações ambientais questionam a classificação de “restauração” para plantação de eucalipto no Cerrado, bioma essencial para a segurança hídrica do país. O objetivo deste leilão do Eco Invest, entretanto, é a recuperação produtiva.

O corte do eucalipto faz parte do ciclo produtivo da silvicultura. Após um período médio de crescimento de sete anos, a madeira é colhida para a produção de celulose e a área é novamente replantada. “Tecnicamente, não é um desmatamento, é um manejo florestal sustentável da área”, diz Dortas. 

A Bracell também tem uma iniciativa chamada “Compromisso Um-Para-Um”. Ela estabelece que, para cada hectare de eucalipto plantado, a empresa se compromete a conservar ou recuperar um hectare de vegetação nativa. Em 2025, alcançou 301 mil hectares de áreas públicas de conservação nos três Estados em que atua. 

Requisitos

A estruturação da operação com o BTG levou oito meses. Para viabilizar o empréstimo, a Bracell envolveu um time multidisciplinar de 30 pessoas (das áreas de floresta, finanças e sustentabilidade) e contou com um parecer da consultoria ERM para emitir o relatório de enquadramento nas regras do Eco Invest. 

“Essa é de longe a operação mais complexa que a empresa já fez em termos de exigências e governança”, diz Pitchon. 

Para ter acesso aos recursos, os projetos precisam cumprir três exigências socioambientais. A primeira é que as áreas selecionadas não podem ter sofrido nenhum tipo de desmatamento (seja legal ou ilegal) a partir do ano de 2023. Além disso, é necessário avaliar o histórico da terra desde 2008 para garantir a conformidade com o Código Florestal. Elas não podem ter sobreposição com terras de povos indígenas e tradicionais ou áreas protegidas.

A segunda é a comprovação da degradação, com pelo menos 20% de solo descoberto. “Essa comprovação foi muito complexa, pela quantidade de hectares e o número de fazendas envolvidas”, diz Pitchon. 

E a terceira exigência é a apresentação de um plano técnico que inclua o manejo sustentável do solo e da água, prevenção e combate a incêndios e o componente social da operação: certificação de boas práticas trabalhistas e um mínimo de 15% de mulheres na composição da força de trabalho. 

Maior operação

Esta é, até o momento, a maior operação do segundo leilão do Eco Invest. Os outros dois financiamentos foram do Itaú para a Adecoagro e do Bradesco para a GCS Agropecuária, cada um no valor de R$ 100 milhões. 

Nesta edição, dez bancos foram selecionados para desembolsar R$ 30,2 bilhões para a recuperação de 1,4 milhão de hectares de áreas degradadas. Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica ficaram com quase 60% do dinheiro concedido a juro subsidiado. Entre os privados, o BTG ficou com a maior fatia. 

O banco captou R$ 2,1 bilhões em capital catalítico do Tesouro que, somados ao capital privado, totalizam R$ 4,9 bilhões disponíveis para recuperar 164 mil hectares no país. Só a operação com a Bracell, portanto, concentra um terço desse total. 

O banco tem experiência com projetos de reflorestamento com eucalipto em outra frente. O seu braço de investimento em florestas, o Timberland Investment Group (TIG) captou US$ 1,24 bilhão para restaurar e conservar aproximadamente 270 mil hectares na América Latina – metade com plantas nativas para restaurar ecossistemas e outra metade com espécies exóticas, como pinus e eucalipto, para fins comerciais. O Cerrado é um bioma prioritário. 

A Bracell já havia acessado recursos do primeiro leilão do Eco Invest, um de R$ 802 milhões com o Itaú para colheita sustentável em áreas restauradas em São Paulo e outro de R$ 539 milhões com o Banco do Brasil para comercialização de produtos madeireiros.