
A União Europeia (UE) está prestes a excluir a indústria do couro de sua lei antidesmatamento, buscando apoio para que a legislação entre em vigor no fim deste ano, após sucessivos atrasos.
A Comissão Europeia, o braço executivo do bloco econômico, propôs retirar o couro da lista produtos que não poderão ser importados caso estejam associados à devastação de florestas.
Conhecida como EUDR, a lei determina que fornecedores de soja, carne bovina, cacau, café, óleo de palma, borracha e madeira (seja a commodity ou o produto derivado) tenham que comprovar que seus produtos não vieram de áreas desmatadas após 2020.
A regra deve afetar as exportações de países produtores de commodities agrícolas, como o Brasil.
O objetivo das novas regras é proteger produtores de bens como bolsas e sapatos, segundo comunicado divulgado nesta segunda-feira (4). Outros produtos excluídos são pneus recauchutados, amostras de produtos, certos materiais de embalagem e produtos usados .
Por outro lado, a nova proposta inclui uma série de outros produtos no âmbito da lei, como o café solúvel e certos derivados do óleo de palma.
A Comissão também apresentou diretrizes atualizadas para auxiliar as empresas a cumprirem as regulamentações.
A indústria europeia de couro e curtumes, dominada por empresas italianas, fez lobby para que peles e couros em geral fossem excluídos da proibição, alegando dificuldade de rastrear a origem das importações.
Dois funcionários da Comissão ouvidos pelo Financial Times disseram que a exclusão teria impacto negativo no meio ambiente, mas ajudaria a competitividade das indústrias na Europa.
O principal argumento é de que o couro é um subproduto da indústria da carne, e que esta é uma das principais responsáveis pelo desmatamento. As importações de carne continuarão abrangidas pela legislação.
A Comissão espera que a medida anunciada facilite a aprovação da legislação para que ela entre em vigor conforme o planejado: em 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e em 30 de junho de 2027 para pequenas e médias.
O projeto de lei com as mudanças propostas será submetido a consulta pública de quatro semanas, antes que os Estados-Membros do bloco e o Parlamento Europeu tomem a sua decisão final.
E o Brasil?
Desde que foi aprovada, em 2023, a lei enfrenta resistência de produtores rurais do mundo todo, que manifestaram preocupação com o peso regulatório da legislação. Ela também foi criticada pelos governos de países como Estados Unidos, Indonésia e Brasil.
O setor brasileiro de couro exportou US$ 1,13 bilhão em 2025, segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A União Europeia respondeu por cerca de 20% desse total, tanto em valor quanto em volume.
A Itália é, isolada, o principal destino europeu e o maior comprador individual da UE.
A influência do mercado da UE é particularmente importante no Brasil, segundo um grupo de organizações da sociedade civil global que pediu à Comissão Europeia que mantenha o couro na EUDR.
“No Brasil, onde ocorre a maior parte do desmatamento impulsionado pela pecuária, a indústria do couro é um importante motor econômico com influência política significativa (…) O país exporta cerca de 80% dos couros que processa, enquanto 80% da produção de carne bovina é consumida internamente”, dizem as organizações.
“Manter o acesso ao mercado da UE representa, portanto, um importante incentivo para que o setor pecuário brasileiro faça a transição para práticas mais sustentáveis.”
A exclusão do couro da EUDR coincide com a assinatura do acordo comercial Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor agora em maio. O acordo prevê a eliminação de tarifas de importação que chegam a 17% para calçados e artigos de couro em um período de sete a dez anos.
Isso poderia reverter a perda de mercado do setor nos últimos anos: o volume embarcado para a Europa caiu cerca de 50% desde 2017. Entre as causas estão a concorrência asiática, especialmente da China, que verticalizou produção; pressões reputacionais e regulatórias ligadas ao desmatamento na Amazônia; o avanço do “couro” sintético (PU/PVC) na indústria de calçados europeia; e a marcação a fogo do gado, que tira até 5% da pele, depreciando a qualidade brasileira frente à europeia e argentina.





