BP queria afrouxar regras de transparência climática – os acionistas disseram não

A petroleira britânica BP queria dar menos satisfações sobre seu impacto climático. Os acionistas disseram não, e de forma decisiva.

As duas resoluções precisavam de 75% dos votos, mas só 47% dos acionistas compraram o argumento do conselho — o de que exigências regulatórias já tornariam redundantes essas medidas de transparência.

A assembleia anual da empresa expôs uma tensão antiga do setor de combustíveis fósseis. Crises globais rendem lucros extraordinários no curto prazo — a BP teve seu melhor resultado da história com a alta do petróleo e do gás causada pela guerra na Ucrânia.

Mas os conselheiros têm entre suas responsabilidades olhar mais longe. Os investidores não vão tolerar por muito tempo tentativas de fugir do tema clima nem adiar as decisões que vão manter o negócio relevante daqui a uma ou duas décadas — como a BP vem fazendo recentemente.

Duas propostas foram levadas à votação nesta quinta-feira (23). A primeira pedia o cancelamento de duas resoluções (de 2015 e 2019) que obrigavam a companhia a divulgar informações detalhadas sobre emissões, risco climático e transição energética.

A segunda queria transformar as assembleias em reuniões online, o que permitiria a participação de investidores de mais partes do mundo, de acordo com a empresa.

A tensão entre o conselho administrativo e uma parcela dos acionistas já dura anos. Mais recentemente, a direção da petroleira se recusou a colocar em pauta uma proposta encabeçada pelo grupo holandês de investidores ativistas Follow This.

Com o respaldo de alguns fundos de pensão, eles queriam que a assembleia decidisse se a BP não teria de apresentar estratégias para preservar o investimento dos acionistas em caso de um declínio da demanda por petróleo e gás natural.

O presidente do conselho, Albert Manifold, rejeitou a proposta por motivos técnicos. A justificativa baseada em uma questão burocrática motivou um levante contra Manifold, que assumiu o cargo há menos de seis meses.

A empresa Glass Lewis, que presta assessoria a acionistas, recomendou um voto contra a reeleição do chefe do conselho afirmando temer pela governança da petroleira.

A gestora Legal & General Investment Management, uma das 10 maiores acionistas da BP, com cerca de 1,5% de participação, também declarou voto contrário, citando preocupações com a transparência e falta de clareza sobre a administração dos riscos na transição energética.

Manifold foi reconduzido ao cargo, mas quase um quinto dos acionistas votou pela sua saída. Ele recebeu apoio do fundo soberano da Noruega. Com US$ 2,2 trilhões em ativos, o fundo é o maior e um dos mais influentes do mundo.

A rejeição pelos acionistas das propostas da companhia sinaliza que eles “se recusam a deixar a BP simplesmente enterrar seus compromissos de divulgação [de informações]”, disse Mark van Baal, diretor executivo da Follow This, ao Financial Times. O grupo entrou com uma ação judicial contra essa decisão.

O Australasian Centre for Corporate Responsibility, outra coalizão de investidores ativistas, apresentou uma resolução pedindo que a BP justifique os investimentos em exploração e produção de petróleo e gás.

A companhia tinha assumido o compromisso de reduzir em 40% a produção de combustíveis fósseis até 2030, mas há três anos revisou a meta para baixo: 25%.

No início da década, a BP era considerada uma das petroleiras mais arrojadas em seu plano de abandono gradual dos combustíveis fósseis para se tornar uma empresa de energia limpa.

Mas o plano de transição foi abandonado oficialmente em fevereiro do ano passado, quando anunciou um aumento de 50% no investimento em óleo e gás (cerca de US$ 10 bilhões ao ano) e um corte drástico de 70% nos investimentos em energia renovável.