
Não é tarefa simples calcular a pegada de carbono de uma cadeia de valor inteira, dos insumos utilizados até os gases estufa que serão emitidos no consumo de produtos ou serviços. Mas essa informação é essencial para os planos de descarbonização da economia, e um grupo de gigantes da indústria, energia e finanças querem mudar como essa conta tem sido feita há décadas.
A proposta vem da Carbon Measures, coalizão lançada na COP30 por empresas como a petroleira ExxonMobil, a gigante de agro Bayer, o banco Santander e a mineradora brasileira Vale. Hoje, o grupo reúne 26 companhias.
A ideia é transformar as emissões corporativas em uma “moeda” rastreável ao longo da cadeia. Em vez de um inventário corporativo anual, cada produto carregaria sua própria pegada de carbono. Com isso, seria possível comparar a intensidade de emissões de itens como aço, petróleo ou até alimentos.
A iniciativa surge em um momento de insatisfação com o GHG Protocol, padrão global criado há quase 30 anos para medir emissões e amplamente adotado por empresas e reguladores.
O principal argumento é que ele deixa lacunas relevantes de informações, devido à sua dependência de estimativas no escopo 3, que representa o impacto climático indireto. No caso das empresas, são as emissões dos fornecedores e as que serão geradas no consumo do que a companhia produz.
O escopo 1 é aquele associado diretamente à atividade da empresa (uma fábrica, por exemplo), e o escopo 2 diz respeito à energia que ela consome.
A Carbon Measures afirma que, com sua proposta de uma contabilidade mais precisa e diretamente ligada a produtos e serviços, a demanda por tudo o que é de baixo carbono vai crescer. “O objetivo é tornar o carbono visível e comparável nos mercados, criando incentivos para produtos de menor intensidade de emissões”, diz Carmen San Segundo, responsável pela comunicação da coalizão.
Nem todos, porém, estão convencidos pela argumentação. A participação de petroleiras entre os membros da iniciativa levanta questionamentos sobre motivações e possíveis conflitos de interesse. Há também dúvidas sobre o risco de fragmentação de informações, com vários padrões competindo entre si.
“A ideia é interessante no papel, mas a operacionalização é extremamente desafiadora. Criar um novo padrão do zero exige um nível de coordenação que o mercado ainda não demonstrou ter”, diz Lauro Marins, head de consultoria da WayCarbon, empresa de serviços ambientais investida pelo Santander que presta consultoria em descarbonização.
O limite do modelo atual
Com raras exceções, o escopo 3 representa a maior parte da pegada de carbono das empresas – e é o número mais difícil de medir. A conta costuma ser baseada em estimativas e bases de dados setoriais, pois dados exatos e que cubram cadeias de valor extensas raramente estão disponíveis.
“Os sistemas atuais dependem fortemente de estimativas e inventários anuais, o que limita a precisão e a tomada de decisões”, diz Daniel Schneiders, diretor global de clima e água da Bayer, uma das fundadoras da coalizão Carbon Measures.
Essas limitações não são novas, assim como as críticas ao GHG Protocol. Como não existem alternativas com a mesma aceitação, a contabilidade de carbono corporativa é baseada neste padrão.
A metodologia também foi adotada por reguladores ao redor do mundo. As divulgações de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade sob os padrões IFRS S1 e S2, obrigatórias para empresas de capital aberto brasileiras a partir do ano que vem, seguem o GHG Protocol.
Mas uma lei da Califórnia vai exigir essas informações de companhias que faturam mais de US$ 1 bilhão globalmente e têm negócios no Estado.
A ExxonMobil, uma das líderes da Carbon Measures, entrou na Justiça contra essa regra, alegando ela passa a ideia de que “grandes empresas são exclusivamente responsáveis pelas mudanças climáticas, independentemente da eficiência com que atendem à demanda da sociedade por energia, bens e serviços”, com o objetivo de “estimular a reprovação pública e respostas políticas”.
Carbono como passivo
“Apenas medir e divulgar não está reduzindo as emissões rápido o suficiente”, diz San Segundo. “Precisamos de novas ferramentas que tornem a contabilidade de carbono mais acionável nos mercados e nas políticas públicas.”
A lógica da Carbon Measures se inspira em conceitos de contabilidade financeira. O sistema funcionaria de forma análoga a um imposto sobre valor agregado: a cada etapa da produção, o passivo de carbono é calculado e transferido junto com o produto, pertencendo a uma única entidade por vez. Isso eliminaria eventuais duplas contagens.
O modelo se baseia no sistema de “E-liability” criado por Robert Kaplan, professor emérito de Harvard, e Karthik Ramanna, professor de Oxford. Um artigo em que eles detalham a ideia foi publicada na Harvard Business Review e recebeu um prêmio de “ideia inovadora de gestão” da consultoria McKinsey.
A coalizão está em fase inicial. A expectativa é lançar as primeiras metodologias em cerca de dois anos, com implementação em escala ao longo de cinco a sete anos e expandir o quadro de membros para 100 empresas.
Para isso, foi formado um grupo técnico com 21 especialistas independentes e de corporações, academia, ONGs e instituições de políticas públicas. Ramanna é um dos líderes desse painel.
Dificuldades operacionais
Ainda não está claro como esse modelo funcionaria na prática. Hoje, as contas de carbono são feitas anualmente. “Passar para um cálculo em tempo real pode ser irreal para algumas empresas e setores”, diz Marins, da WayCarbon.
Um dos entraves é a necessidade de dados detalhados ao longo de toda a cadeia produtiva. Outro é a diferença de complexidade entre setores. Enquanto alguns conseguem ter medições mais diretas, outros dependem mais de estimativas.
É o caso do agronegócio. “O agro é muito mais complexo de medir do que a indústria, porque depende de variáveis como chuva, temperatura e tipo de solo”, afirma Carlos Eduardo Cerri, diretor do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (USP).
“O mesmo fertilizante pode ter emissões completamente diferentes dependendo se o solo é arenoso, argiloso ou se choveu. Você pode medir hoje e ter um valor, se chover amanhã, o resultado muda.”
A Bayer reconhece o aumento de complexidade em transformar essa variabilidade em dados padronizados e comparáveis, mas afirma que o modelo da Carbon Measures pode gerar ganhos.
“Passar de inventários corporativos anuais para relatórios em nível de transação requer uma nova infraestrutura de dados, mas os benefícios superam a complexidade”, diz Schneiders.
Para o executivo, o maior ganho é abrir espaço para diferenciação no mercado. Com emissões medidas no nível do produto, a companhia pode destacar insumos e soluções com menor intensidade de carbono e, potencialmente, gerar valor com isso.
Em nota, a Vale afirma que aderiu à coalizão por acreditar “que é importante avançar na discussão sobre padrões de contabilidade de carbono — com base nas referências existentes — e, ao mesmo tempo, promover soluções baseadas no mercado para reduzir as emissões ao menor custo possível”.
San Segundo recorre à analogia com a contabilidade financeira para explicar as complexidades práticas da proposta. “Demonstrações financeiras não são perfeitas, mas funcionam porque seguem regras consistentes e permitem comparabilidade. A Carbon Measures aplica uma lógica semelhante.”
O Santander também foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Outros pontos de interrogação
Outro ponto em debate é a forma como o novo modelo distribui as emissões ao longo da cadeia. Na lógica da Carbon Measures, o passivo de carbono é transferido junto com o produto, o que pode alterar a forma como as empresas são responsabilizadas.
No modelo atual, a maior parte das emissões de uma petroleira está na queima do combustível pelos consumidores, o escopo 3. Com o novo sistema de passivo contábil, a emissão gerada pela queima dos combustíveis fósseis não se acumularia mais no inventário da petroleira, mas seria repassada e cobrada diretamente do consumidor final.
“Isso permite que a petroleira argumente que o uso do combustível não é problema dela, passando a bola da responsabilidade climática adiante”, diz Marins.
Para ele, há ainda um risco de que a discussão sobre novos modelos de contabilidade desvie o foco das metas climáticas – em um momento em que o mundo precisa acelerar as ações concretas de descarbonização para evitar consequências ainda mais graves do aquecimento global.
“O mercado corporativo já lida com uma sopa de letrinhas de padrões. A criação de sistemas de contabilidade paralelos corre o risco de fragmentar ainda mais as informações, o que inevitavelmente aumentaria os custos da transição energética”, afirma Marins.
Mas existe espaço para a convivência entre os modelos, argumenta San Segundo. Lefevre, do GHG Protocol concorda: “O GHG Protocol segue como referência para inventários corporativos, enquanto a Carbon Measures foca na mensuração em nível de produto.”





![Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono Crise na Europa antecipa lições para o mercado de carbono no Brasil Sistema brasileiro precisa considerar competitividade da indústria, segurança energética e inflação, diz Cristina Reis, a xerife do mercado de carbono brasileiro O mercado regulado de carbono brasileiro está sendo desenhado para funcionar também como uma ferramenta de segurança energética e de competitividade da indústria perante a choques externos – como o atual causado pelo conflito no Oriente Médio. “É esse equilíbrio que estamos tentando incorporar desde o início no Brasil. A experiência europeia tem nos ajudado. O desafio é incentivar a descarbonização ao mesmo tempo que mantemos nossa indústria competitiva e dinâmica economicamente”, diz Cristina Reis, à frente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono. Em entrevista ao Reset, ela avaliou as recentes mudanças propostas pela União Europeia para seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês), os impactos disso para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e os próximos passos da implementação do mercado no Brasil. Diante do aumento abrupto dos preços do petróleo e do gás, os reguladores europeus precisaram flexibilizar o seu sistema de comércio de emissões. A proposta é aumentar o volume de licenças no mercado em meio à disparada dos preços de energia no continente. “A nossa regulamentação está na fase inicial, de definição de escopo e de critérios de monitoramento, relato e verificação. Estamos olhando para essas experiências [como a flexibilização na Europa] para construir um sistema que já nasça equilibrado.” A visão é de que a flexibilização momentânea na UE foi necessária para evitar que o aumento dos custos de produção gerasse inflação para a população e minasse a competitividade da indústria local. Por outro, a avaliação de Reis é que, embora o mercado de carbono europeu tenha sido bem-sucedido na redução de emissões nas últimas décadas, ele também precisa se adaptar a choques externos. “Eles entenderam que estavam aumentando muito o sarrafo do sistema em momento difícil, aí voltaram a flexibilizar”, diz Reis. Ela se refere à próxima fase do ETS europeu, em que fabricantes de produtos muito intensivos em emissões, como aço e cimento, passariam a receber menos licenças de emissão gratuitas. Isso forçaria a indústria pesada a investir em tecnologias de descarbonização – a ideia é que a transição energética faça mais sentido econômico que compensação via compra de carbono no mercado. Lições para o Brasil A precificação do carbono é uma política difícil de ser implementada em democracias, pois impõe perdas concentradas a setores organizados, enquanto gera benefícios que são mais difusos na sociedade. Utilizar as receitas geradas para construir apoio e viabilizar a transição se torna, assim, uma estratégia. “Já há várias jurisdições, como Washington e Califórnia, que chamam seus sistemas de cap and investment, não mais de cap and trade”, observa a secretária. Segundo ela, o sistema deve funcionar como instrumento de política industrial ao estimular investimentos e modernização produtiva. A legislação brasileira estabeleceu que 75% das receitas do SBCE serão destinadas ao Fundo Clima, gerido pelo BNDES. O objetivo é garantir as condições necessárias para que a indústria nacional invista em tecnologias de descarbonização, reformulando e inovando seus processos produtivos para que se tornem mais limpos e eficientes. Na UE, os países destinam apenas cerca de 5% das receitas para a descarbonização da própria indústria. O plano de alocação de recursos do Fundo Clima aprovado para este ano já prevê uma linha de crédito dedicada ao SBCE. O montante exato que será destinado a ela e quais setores específicos serão beneficiados ainda serão definidos. É uma sinalização ao mercado de que as exigências ambientais serão acompanhadas de suporte financeiro. “É para mostrar para a indústria que a intenção é um processo coordenado de descarbonização que confira competitividade”, diz Reis. A definição de quais setores que serão obrigados a relatar emissões será publicada em junho, por meio de um normativo que estabelecerá o escopo do SBCE e integrará o Plano Nacional de Relato de Emissões. O governo vem estruturando o plano e realizando oficinas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) em diálogo com as indústrias. Com base no cronograma desses encontros setoriais, as atividades previstas para inclusão são: papel e celulose, cimento e alumínio; química, vidro e cerâmica; ferro e aço, óleo e gás; aviação civil; e mineração. “Essas escolhas precisam ser estratégicas no sentido de examinar a competitividade da nossa indústria e incentivá-la a descarbonizar, mas ao mesmo tempo de não onerar a nossa dinâmica econômica”, diz Reis. O SBCE foi desenhado em etapas para dar previsibilidade e reduzir riscos na economia. “Apertar demais a regulamentação logo no início encareceria drasticamente os custos operacionais das empresas”, afirma a secretária. A exigência do relato de emissões antecede as cobranças diretas e é uma etapa crucial da implementação do mercado de carbono. O governo utilizará os planos de monitoramento (previstos para o período de 2027 a 2028) para reunir informações sobre as empresas e, a partir desses dados, elaborar o Plano Nacional de Alocação, que definirá o teto de emissões e a distribuição de licenças no futuro. No SBCE, as permissões de emissão (allowance) serão chamadas de ‘cotas’. “A palavra ‘permissão’ na lei tinha um contexto negativo em português, como se tivesse liberado para poluir. Cota não, dá a ideia que tem um limite para a emissão”, explica Reis. Equilíbrio de forças A abordagem do governo na construção e regulação do mercado de carbono brasileiro busca um “equilíbrio de forças” em dois contextos. O primeiro é na dinâmica entre os diferentes atores da sociedade. Durante a elaboração dos normativos, que envolvem conversas setoriais e consultas públicas, a regulação não pode atender apenas ao "auto-interesse" da indústria, diz Reis. Segundo ela, o processo envolve todas as partes interessadas, de modo que "a sociedade puxe para um lado, a indústria puxa para o outro", gerando assim um equilíbrio de forças prático na definição das regras e limites do mercado de carbono. O segundo é a conciliação entre os eixos econômico, social e climático do mercado de carbono. “Eu nos posiciono em um equilíbrio de forças. A gente não está protegendo o meio ambiente a qualquer custo ou, do outro lado, fazendo medidas econômicas financeiras que não têm efetivo lastro ambiental e climático.” Ela cita como exemplo mais recente as medidas provisórias (MPs 1340 e 1349) que o governo anunciou para responder aos reflexos do conflito no Oriente Médio – elas são focadas no setor elétrico para reduzir a pressão tarifária no curto prazo. “Buscou-se assegurar preço, garantir abastecimento e evitar aumento da inflação.” Cristina Reis, da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono](https://uploads.capitalreset.com/2026/04/Abril_03-450x253.jpg)