
A Silva, startup que organiza a cadeia de viveiros florestais no Brasil, acaba de fechar sua primeira rodada de investimentos. Participaram a gestora de impacto MOV, o Instituto Itaúsa — em seu primeiro aporte com expectativa de retorno financeiro — Denis Minev, fundador da varejista amazônica Bemol, e a venture builder CBKK.
O tamanho do aporte não foi divulgado, mas o evento carrega significado: é o primeiro capital de risco destinado ao elo mais frágil da nascente cadeia produtiva do reflorestamento.
Para restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, compromisso assumido no Acordo de Paris, o Brasil vai ter que contar com um certo alinhamento de planetas: capital, ciência, políticas públicas, negócios inovadores, mercado de carbono.
É um arranjo complicado e em construção. Mas tudo começa com a simplicidade de sementes e mudas. Para devolver a natureza ao equivalente a uma área degradada maior que Alagoas, Espírito Santo e Rio de Janeiro somados, o país precisa ter o que plantar.
Daniel Jimenez (no centro da foto) abandonou o emprego de consultor para fundar a Silva, no fim de 2023. Foi por sugestão de Plinio Ribeiro (à esquerda na foto), um dos pioneiros do mercado de carbono no Brasil, que Jimenez passou a olhar para os viveiros.
Ele diz ter “se enfurnado” no mundo da produção de mudas. Ao emergir, o ex-McKinsey Jimenez diz que enxergava duas alternativas para sustentar a ambição nacional do restauro.
Uma era levantar capital e construir megaviveiros. Ele optou pela outra: aproveitar a infraestrutura que já existe, mas que precisaria passar por mudanças importantes para estar à altura da missão.
Poucos meses depois, Ribeiro entrou para a sociedade junto com o biólogo e conservacionista Claudio Padua, cofundador do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Os dois construíram juntos a Biofilica, pioneira dos créditos de carbono no Brasil comprada pela Ambipar em 2021, e trouxeram um conhecimento profundo de florestas.
Um quarto sócio-diretor chegou mais recentemente. Guilherme Faganello (à direita na foto) veio junto com a Embira, consultoria que atua em várias etapas do negócio da restauração e que foi adquirida pela Silva com os recursos da captação.
Quase um marketplace
A Silva é descrita por Jimenez como marketplace por falta de outra palavra mais exata. Se a ambição é tornar-se um serviço que conecta compradores e vendedores, ainda há um caminho a percorrer. Hoje não há como aplicar no negócio do reflorestamento esse modelo clássico de plataforma.
A Silva teve que começar organizando o lado da oferta. Muda é o insumo mais caro do reflorestamento. Mais de 120 viveiros, cerca de um terço da capacidade instalada do país, foram submetidos a um diagnóstico inicial. “A gente precisava enxergar onde eles estavam e qual seria a melhor versão possível daqueles viveiros”, diz ele.
Com algumas exceções, o mapeamento encontrou muitos cadernos que eram a única ferramenta administrativa do produtor. “Eles carecem de gestão, precisam [se adequar a] questões regulatórias, não têm crédito, são pouco eficientes”, diz o fundador e CEO da Silva. “Muitos não sabem nem qual é o custo de produzir uma muda.”
Modo sobrevivência
A Silva montou um sistema de capacitação, com gestão digitalizada e um controle rigoroso das finanças. Essas intervenções são fundamentais, diz Jimenez. Muitos produtores travam uma luta constante pela sobrevivência – e isso os impede de participar do mercado quando a escala começar a crescer de verdade.
Se companhias de restauro como Mombak, Re.green e Symbiosis estão no negócio de construir florestas, elas não podem correr o risco de ficar sem mudas. Seria o mesmo que uma construtora descobrir que o concreto acabou porque o fornecedor faliu.
Funcionários da startup fazem visitas semanais aos viveiros parceiros para garantir que a produção está caminhando direito. Um dos motivos para essa marcação cerrada é uma característica do negócio de produzir mudas. Até seis meses podem se passar entre a coleta da semente e o produto que vai ser embarcado para o plantio.
A receita só vai vir na hora da venda, lá na frente. “É meio maluco, mas nesse momento em que o mercado está crescendo muito aumentam as chances de eles quebrarem por mau planejamento”, diz Jimenez.
O acompanhamento da Silva dá segurança para o comprador, mas o impacto não é só na cadeia produtiva. Metade dos cerca de 2.000 viveiros do Brasil é estatal ou ligado a grandes empresas. O restante inclui muitos pequenos negócios de povos originários, quilombolas e operações comunitárias. Mantê-los funcionando tem impacto social direto nas comunidades.
Um pouco de tudo
Um marketplace típico está no negócio da informação. A missão é buscar o melhor match possível para os dois lados e ficar com uma porcentagem da transação. Fechada a venda, outros cuidarão do transporte (no caso de produtos físicos), do seguro e assim por diante.
A Silva não tem esse privilégio. A empresa é um intermediário ativo. Recebe uma encomenda, vai buscar os produtos na rede que está formando e se responsabiliza pela entrega, incluindo o frete.
Jimenez menciona uma venda de 400 mil mudas concluída no Pará no fim do ano passado. Elas saíram de seis viveiros diferentes, alguns no limiar da informalidade.
“Esses viveiristas não vão se conectar no SAP do comprador.” Nas palavras do CEO, a Silva “absorve essa complexidade” de lidar com a realidade atual dos viveiros e com a logística na Amazônia.
Outra área que vai se beneficiar com o aporte dos investidores – e que não cabe na definição de um marketplace – é a de melhoria genética.
O reflorestador, principalmente aquele que vai gerar receita dentro do projeto, não quer uma muda qualquer de imbaúba, jacarandá ou andiroba. Se o negócio do comprador for baseado em créditos de carbono, ele pode demandar espécimes que crescem mais rápido, por exemplo.
Isso significa que as árvores vão remover mais CO2 do ar em menos tempo, o que significa mais créditos para comercializar. Plinio Ribeiro diz que a lógica é a mesma que se vê no campo: “Vamos buscar ganhos de produtividade nessas espécies nativas como os que vimos na agricultura”.
Removendo barreiras
A lista de acionistas da Silva não tem nomes da Faria Lima, mas talvez seja questão de tempo, diz Paulo Bellotti, um dos sócios da MOV. “A gente acredita que esse setor da restauração vai se desenvolver muitíssimo na próxima década. Vai ser uma atividade econômica muito importante”, afirma.
Ele faz um paralelo com a energia solar distribuída, que teve um crescimento explosivo na última década. “Em 10, 15 anos, o reflorestamento vai ser uma classe de ativos importante.”
Marcelo Furtado, diretor-executivo do Instituto Itaúsa, aponta para outros movimentos que vêm acontecendo ao longo da cadeia. O programa Eco Invest e Fundo Clima, administrado pelo BNDES, são duas fontes de recursos que aceitam um risco maior para atrair investidores privados que ainda estão aprendendo a calcular risco e retorno dessa nova indústria.
Furtado acredita que a Silva também possa ter um papel semelhante no setor, ajudando a remover algumas travas. “A qualidade das mudas e sementes, o nível de atendimento a mercado, a otimização de custos, tudo isso é muito importante para impulsionar o setor da restauração florestal.”





