
A sequência de temporais que atingiu a Zona da Mata de Minas Gerais voltou a evidenciar a exposição de municípios já classificados como áreas de risco a eventos extremos. Em poucos dias, o volume de chuva superou a média histórica de fevereiro, resultando em 70 mortes entre Juiz de Fora e Ubá, quatro pessoas desaparecidas e 13 crianças entre as vítimas fatais.
Muitas dessas áreas já haviam sido identificadas por órgãos técnicos como suscetíveis a enchentes e deslizamentos, sendo Juiz de Fora uma das cidades com maior número de alertas emitidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em 2025.
Ainda assim, parte dos deslizamentos ocorreu em áreas com ocupação consolidada e infraestrutura precária. Avaliações da Defesa Civil apontam que o volume de ocorrências e as características do território dificultam ações preventivas permanentes, concentrando esforços na resposta emergencial.
Como observado em outros desastres, os impactos foram desproporcionais sobre populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O relatório “Crises em Colisão: Como a crise climática alimenta a violência de gênero”, da Spotlight Initiative, destaca que, em contextos de emergência, aumentam os riscos de violência de gênero e a sobrecarga de trabalho doméstico para mulheres.
Já para crianças e adolescentes, a suspensão das aulas representa um fator adicional de risco. A ONU Mulheres e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertam que a interrupção prolongada do vínculo escolar pode elevar taxas de evasão, trabalho infantil e outras formas de vulnerabilidade. Em Juiz de Fora, todos os abrigos organizados pela Prefeitura estão funcionando em escolas, reforçando o papel dessas instituições como estruturas públicas centrais na resposta à crise.
Nesse contexto de suspensão das aulas, os riscos de violência contra crianças e adolescentes tendem a se intensificarem significativamente, uma vez que a escola deixa de cumprir seu papel central como espaço de proteção, convivência social e identificação de situações de vulnerabilidade.
Sem a rotina escolar e o contato diário com os profissionais da educação, muitos sinais de abuso ou exploração deixam de ser identificados. Nesse cenário, torna-se fundamental fortalecer estratégias intersetoriais de proteção e monitoramento remoto para mitigar os impactos da ausência temporária das atividades escolares presenciais.
A utilização de escolas como abrigos, no entanto, requer organização técnica específica. A adoção de protocolos claros é fundamental para garantir segurança, separação adequada de espaços, iluminação, mecanismos de denúncia e equipes capacitadas para identificar e encaminhar situações de violência. Sem essas medidas, o abrigo pode ampliar riscos já existentes.
A experiência recente reforça a necessidade de integrar a Educação em Emergências aos planos municipais e estaduais de contingência. Embora Minas Gerais e Juiz de Fora possuam instrumentos formais de gestão de risco, a recorrência de eventos extremos impõe o desafio de fortalecer sua implementação e ampliar ações preventivas.
Diante do aumento da frequência de eventos climáticos intensos, organizações como a Plan International Brasil defendem maior articulação entre educação, assistência social, saúde e Defesa Civil.
A implementação de políticas de salvaguarda em abrigos temporários, como as escolas que têm se consolidado como um dos principais pontos de apoio a população, é uma exigência reconhecida internacionalmente. Os Minimum Standards for Child Protection in Humanitarian Action estabelecem que, em crises humanitárias, devem ser adotadas normas claras de prevenção, identificação e resposta a violações de direitos, inclusive em abrigos coletivos, onde os riscos de violência, abuso e exploração tendem a aumentar devido à superlotação e à ruptura de redes de proteção.
De forma complementar, orientações do Unicef sobre abrigo humanitário indicam que espaços temporários devem ser inclusivos, seguros e responsivos às necessidades específicas de crianças e adolescentes.
Sendo assim, observa-se que a salvaguarda em abrigos é uma parte essencial de uma resposta humanitária baseada em direitos. A preparação prévia, a coordenação intersetorial e a adoção de protocolos claros são medidas indispensáveis para reduzir danos e proteger crianças, adolescentes e mulheres em futuras emergências.
*Julia Gouveia é especialista em Mudanças Climáticas e Emergências na Plan International Brasil. Mestre em Relações Internacionais, na linha de Economia Política Internacional, pela Universidade Federal de Santa Catarina. Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Pesquisadora associada ao Grupo de Pesquisa em Economia Política dos Sistemas-Mundo (GPEPSM-UFSC).





